Televisão

Júlia Pinheiro em entrevista no Alta Definição

A conhecida apresentadora de televisão foi este Sábado a convidada do programa de Daniel Oliveira, magazine semanal que continua a registar índices elevados de audiência.

Júlia Pinheiro falou abertamente sobre si, sobre o seu trabalho e sobre a sua família. As revelações da apresentadora que está prestes a estrear o seu novo desafio profissional, Querida Júlia, para ler em “continuar a ler”.

A entrevista que foi transmitida este Sábado e que trouxe Júlia Pinheiro “tal como é, sem maquilhagem” à televisão começou por se focar na carreira televisiva da apresentadora, que pensa que para fazer televisão é impensável estar envolvido em tudo o que com ela tem a ver. Isto porque o público que assiste aos programas imediatamente repara na falta de verdade de algum conteúdo, e que, por essa razão, televisão tem de ser “verdade”. Por isso mesmo, Júlia refere que não consegue ser de outra forma na televisão, sendo igual dentro e fora dela.

Gosta de si mesmo, tem auto-estima e conhece-se bem. Olha-se ao espelho sem qualquer tipo de pudor e reforça a importância da auto-estima na sua vida, por trabalhar num meio em que todos os dias está exposta à rejeição e à aceitação, condição motivada pelas inevitáveis audiências. Para Júlia, estar confortável consigo próprio é meio caminho andado para o sucesso.

Quando questionada acerca do motivo por que algumas pessoas não gostam de si, Júlia brinca: “gente de mau gosto”. Diz que quem há quem a ache autoritária e excessivamente assertiva. Também há pessoas que não descodificam o seu sentido de humor, aguçado e irónico. Reconhece não ser autoritária nem conflituosa mas o seu sentido de humor não pode deixar de se manifestar. Tem as suas opiniões, respeitando sempre o espaço de outrem. Tem respeito pelo espaço dos outros e um grande sentido de hierarquia. “Sou um bom soldadinho”, brinca. Preza a pontualidade, principalmente quando se trabalha em televisão.

Não gosta em si da tendência para estar a tornar-se num “bicho do mato”, facto motivado em parte pelo seu trabalho. Por isto, adora estar no meio das pessoas, partir à descoberta do país que tem. Mais uma vez, refere o seu lado profisisonal como parte integrante do pessoal, isto é, ser apresentadora está ao nível de tudo o resto na sua vida. Não pretende vestir nenhuma personagem quando as câmaras estão ligadas.

Questionada acerca da gestão de emoções on-air, Júlia é peremptória: tem um código muito pessoal acerca das emoções, que tem a ver com a personalidade e com aquilo que é enquanto pessoa. Considera que os apresentadores de televisão são “uma espécie de conforto”, tendo como funções amparar e confortar no momento da emotividade máxima mas também destapar um pouco das suas próprias emoções, para que aquilo que está a fazer não seja “demais, excessivo” e para não deixar a outra pessoa demasiadamente exposta. Na maior parte dos dias, entrar em estúdio é, para Júlia, a certeza do esquecimento dos seus problemas pessoais. Mas como qualquer outro ser humano, há dias em que não consegue distanciar-se das suas questões pessoais.

Questionada acerca do que é que a move, Júlia refere que são a alegria e o prazer que dão gozo à sua vida. Uma das coisas que mais gosta de fazer é televisão, e justifica este prazer com os recursos humanos que envolve. Fazer televisão é um projecto de equipa, um esforço conjunto, uma equipa toda a ter ideias, a “barafustar uns com os outros”. A cumplicidade que isso gera é o ponto forte da televisão.

Júlia não tem medo da idade nem do tempo, apesar de estar próxima dos 50 anos. Sente a idade e está-se “rigorosamente nas tintas para ela e só espero que ela não me apanhe”.

Com 48 anos, a profissional congratula-se por ter tido a oportunidade de agarrar vários registos durante o seu percurso até hoje. Reconhece o seu enorme poder de adaptação. Não se considera a melhor naquilo que faz, mas sim “eficaz”. Quando questionada acerca de quem é a apresentadora mais versátil da televisão portuguesa, afirma ser ela mesma, sem rodeios. O gosto pelo desafio é evidente. É capaz de dar o corpo às balas, de aceitar desafios que mais ninguém queira.

Dúvidas sobre si mesma? Não se questiona dessa maneira. Procura, todos os dias, surpreender-se a si própria, quer a nível pessoal, quer a nível profissional.

Quando Daniel Oliveira transporta a conversa para a esfera pessoal de Júlia Pinheiro e o seu relacionamento com Rui Pêgo, Júlia diz que sempre achou estarem destinados um para o outro. O seu marido é tudo para ela, ocupa “o espaço todo da afectividade, da intimidade” e isso não a poderia deixar mais completa a nível emocional. A intimidade é feita de silêncios, para ela, e costuma estar muitas vezes calada ao lado do seu marido. E diz ser confortável estar calada ao lado dele. O relacionamento que ambos construíram não tem a ver com a intimidade física, mas com entendimento, compreensão. Partilham o mesmo nível de “onda” e têm mais ou menos os mesmos interesses. O casamento de 26 anos “sustenta-se pela capacidade de resistirmos às nossas diferenças e se calhar às nossas semelhanças” e de ter “sempre a convicção mesmo que pareça intransponível que amanhã vai ser melhor”. Não se considera romântica mas adora o romantismo, como qualquer mulher, e preza muito os momentos em que o seu marido é romântico para ela.

“Criar uma família é conseguirmos aceitar também que a infância dos filhos é maravilhosa mas a adolescência não é”, diz Júlia. “Os filhos não são uma espécie de extensão de nos”, facto difícil de compreender por muita gente.

Quando Júlia diz que “não há maior teste ao nosso egoísmo do que a maternidade”, evidencia claramente a sua enorme paixão pelos seus filhos.

Os seus filhos dizem “horrores” sobre o trabalho de Júlia. E, quando declara isto, ostenta um sorriso de felicidade. Júlia gosta do espírito crítico e privilegia a sinceridade no seio familiar.

Nunca escondeu o seu sonho em ser arqueóloga. Por volta dos 10 anos, imaginava estudar arqueologia e, depois de completos os estudos, partir à descoberta, investigando pelo mundo inteiro. Chegou mesmo a fazer arqueologia mas acabou por ir parar à televisão. Há dias em que pensa no que teria sido enveredar por esse caminho.

O seu mais recente desafio profissional chama-se Querida Júlia e tem como principal objectivo devolver a liderança às manhãs da SIC, período em que a SIC perde para a concorrência já desde o programa Fátima. O que entusiasma Júlia Pinheiro mais é começar tudo de novo. Já fez um programa da manhã há 12 anos, também na SIC, logo após A Noite da Má Língua, um programa que ia para o ar também na SIC no período do late night. Os traços de sarcasmo e ironia que sempre a marcaram enquanto pessoa e profissional quase que constituíram um entrave na adaptação ao formato matutino, não tivesse conseguido dar a volta e não fosse uma excelente profissional. A autoria do nome do novo programa, Querida Júlia, é da própria. Pediu que o programa tivesse este nome porque queria apostar na afectividade e na proximidade com as pessoas. Sente que as telespectadoras lhe confiariam segredos.

Se Júlia é competitva? É. Ferozmente competitiva. Perde como toda a gente, mas lida bem com a derrota.

Não faz juízos de valor. Vê no facto de ser uma senhora com quase 50 anos, vivida, com uma carreira acompanhada por todos, o motivo pelo qual as pessoas confiam em si para desabafar. É natural que alguém da sua idade já tenha tido desgostos, alegrias, tristezas ou chatices. Reage com constrangimento quando lhe pedem dinheiro, e tenta encaminhar esses pedidos no sentido de minorar a dificuldade de quem lhe pediu ajuda monetária.

Fala muito alto e o tom de voz é uma das suas marcas pessoais. Revela que quando começa a moderar o registo vocal e a falar mais baixo é quando começa a sentir as emoções à flor da pele.

Não lhe interessa minimamente o que dizem e o que escrevem sobre ela. Quando dizem que não faz com a máxima seriedade o seu trabalho, irrita-se. É a única situação que a tira do sério. Encara sempre o seu trabalho com seriedade e profissionalismo, mesmo quando rebola no chão.

Júlia admite ter tendência para apagar mais de 70% do que escreve, mantendo com a sua escrita uma relação de amor e ódio. Já está a terminar o segundo livro e já tem história para um terceiro.

Reconhece que a televisão a tornou numa pessoa mais lúcida, informada, atenta e tolerante. Serviu para lhe por os pés no chão, ao contrário do que se costuma dizer acerca do deslumbramento provocado pela caixinha mágica. Desde que faz programas de daytime que tem um contacto muito directo com o público, com pessoas anónimas, o que lhe dá uma vivência “tremenda”. Adora a sensação de arrancar projectos novos e odeia sair com a sensação de não ter feito tudo o que podia.

Agrada-lhe a ideia de ser comparada a uma varina, porque, tal como as varinas, isto faz vê-la como alguém que vai à luta, que dá o máximo de si, que trabalha ao máximo para vender o seu produto.

Júlia não tem irmãos, mas gostava de ter tido. Perdeu o pai há pouco tempo, e arranja na conversa abundante sobre ele com os netos e a sua mãe uma forma de fintar as saudades. Manter o sentido de festa que o pai gostava é também um objectivo de vida. Como família,  fazem jantares à mesma, com gente à volta, conversam e riem.

Daniel Oliveira fecha a entrevista com a pergunta da praxe: “O que é que dizem os seus olhos?”. Júlia responde: “Provavelmente a verdade sempre com um traçozinho de ironia, o olhar desassombrado da desconstrução das coisas, de não levar demasiado a sério, não achar que as coisas são demasiado importantes, são apenas aquilo que são”.

 

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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