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TNDMII estreia “As Três Irmãs”

Estreia amanhã no Teatro Nacional Dona Maria II pelas 21:30 a peça de Tchekhov, As Três Irmãs.

Com encenação de Nuno Cardoso, As Três Irmãs encerram assim com um ciclo que se iniciou com Platonov e passou pel’A Gaivota.

Olga, Macha e Irina são as personagens chave deste drama da era moderna. Fazer Tchekhov imagino que seja sempre um desafio imenso, quer pela sua profundidade quer pela sua consistência e até mesmo pela sua incoerente coerência.

A primeira sensação que se tem com o início do espectáculo é mesmo o cenário. Algo de vertiginoso promete acontecer. Uma superfície nada plana, com zonas inclinadas e sinuosas, um lustre clássico que controla a luz da cena e uns figurinos que revelam o próprio perfil dos personagens. A cena inicial é soberba e a sua imponência capta a atenção e curiosidade. Nuno Cardoso não seguiu o caminho do óbvio, tal como incita a obra Tchekhoviana. Ao fundo vê-se Macha com a sobriedade de um longo vestido preto, à esquerda Olga e no seu vestido branco a inocente Irina. Mais junto à boca de cena, a tocar violino vê-se o irmão Andrei.

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Toda a peça é uma verdadeira viagem ao mundo dos sonhos que é destruído a cada cena, a cada diálogo. Vemos isso pelos personagens das irmãs. O sonho de ter uma vida melhor e ir para Moscovo a cada dia que passa torna-se mais distante e a esperança torna-se cada vez mais ténue.

Uma infância feliz, mas que esteve altamente marcada pela austeridade e disciplina imposta pelos pais. A sua morte funcionou como um catalisador de sonhos. Julgaram que a partir desse momento estariam livres para viver tudo o que haviam projectado. Deparam-se com o mundo e a sua crueza. Afinal as coisas não são como sonharam.

A vida nos confins da Rússia não era fácil e a felicidade torna-se um conceito cada vez mais difícil de viver. Afinal onde para a verdadeira alegria de estar vivo, será na incerteza do futuro ou na esperança de dias melhores?

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Em termos cénicos, destaco o uso das cadeiras como adereço chave, funcionam como um elo entre os personagens e são reveladoras do seu estado de espírito. Adquirem um relevo especial quando se fala de Irina que nunca fica indiferente e constrói sempre uma forma de se relacionar com o espaço físico e as cadeiras. Segundo o encenador:

“As cadeiras são uma espécie de rasto, de peso, de material de jogo que eu tenho para Tchekhov. (…) Quando uma pessoa se senta numa cadeira, senta-se em frente a outra pessoa ou senta-se sozinha e consegue-se perceber pela forma como está sentada como é que está.

Uma família abastada que de repente se vira totalmente ao contrário, a vida não é linear e é exactamente esta queda vertiginosa, que se vai desenrolar em quatro actos.

Para o encenador, esta peça revela a essência do momento em que atravessamos, é o verdadeiro espírito de perder tudo o que se tem e ficar apenas com a roupa que se tem no corpo.

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Quando questionado sobre qual o espectáculo da trilogia de Tchekhov que mais foi difícil de encenar, Nuno Cardoso é peremptório em escolher As Três Irmãs:

Este foi um espectáculo torturado. Por um lado tinha pouco tempo e por outro, uma pessoa não pode deixar de ficar contaminada por aquilo que lê. E o que lê é duro… A pessoa leva aquilo para casa, tem de pensar numa cena e a primeira sensação é partir as cadeiras. É muito difícil trabalhar este tipo de energia que é em cima do lúdico misturando com uns pozinhos de psicológico.

É realmente uma peça bastante interessante e que vale a pena ver, não perca até 22 de Maio. Fique aqui com mais fotografias:

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INFORMAÇÕES:

14 de Abr a 22 de Mai 2011

SALA GARRETT
4.ª a Sáb. às 21h30 e Dom. às 16h

FICHA ARTÍSTICA

de Anton Tchekhov
tradução António Pescada
encenação Nuno Cardoso
cenografia F. Ribeiro
figurinos Storytailors
desenho de luz José Álvaro Correia
sonoplastia Rui Dâmaso
assistência de encenação e movimento Victor Hugo Pontes
estágio de encenação Ricardo Braun
com Daniel Pinto, Isabel Abreu, João Grosso, José Neves, Luís Araújo,
Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Maria do Céu Ribeiro, Micaela
Cardoso, Sara Carinhas, Sérgio Praia, Tónan Quito, Vítor de Andrade

coordenação de produção Mauro Rodrigues
produção executiva Carla Moreira
co-produção Teatro Nacional D. Maria II, Ao Cabo Teatro

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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