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Estreia dia 9 no TNDMII: Horror ou breve estudo sobre a Paralisia

IMG_3688“O nosso tempo não está para Tchecóv
Ilson
Racine
Gil Vicente
Ésquilo
David Mamet

O nosso tempo é do nosso tempo
Que se dane a analogia

Enquadrado na 3ª Edição do Ciclo dos Emergentes, Horror ou Breve Estudo sobre a Paralisia estreia no próximo dia 9, Quinta-Feira,  na sala estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II.

Um projecto que nasceu em seis semanas pelas mãos de John Romão e Mickael de Oliveira e apenas com uma ideia: trabalhar com jovens intérpretes. As ideias foram surgindo e chegou-se a um consenso, este seria um espectáculo essencialmente físico e seria explorado o conceito de paralisia física através do bloqueio de partes específicas do corpo. O corpo é visto como uma entidade social, carregada de toda a tecnologia e informação inerentes. A actualidade é dura e é então necessário um total desprendimento para regressar ao ponto de partida.

IMG_3462O espectáculo inicia-se com uma série de palavras e movimentos. Um texto original de Mickael de Oliveira que não é mais do que um momento do próprio espectáculo pensado exactamente nos actores que estão em cena e que foi surgindo como um todo, em conjunto com o movimento, coreografia, luz, som e tudo o que compõe a criação. O movimento vai adquirindo uma importância em crescendo até ao fim, e os jogos de movimento versus paralisia vão surtindo um efeito interessante no espectador. Uma reflexão sobre o que existiria no corpo e no ser sem movimento. A luz acompanha um ritmo que se torna cada vez mais frenético, como se de uma vertigem se tratasse.

“O que não queremos é a petrificação porque isso seria negar toda a história natural”

O texto escrito e a palavra dita vão surgindo em contraste com a coreografia de palco, num cenário simples, amplo e que segundo o encenador John Romão reforça a ideia de que se trata de:

“um espaço onde tudo está a acontecer à nossa frente, mas super amplificado. Um espaço é só um espaço.”

IMG_3455É bastante interessante o trabalho de som e sonoplastia que tem um papel fulcral ao longo de toda a peça. O ambiente proporcionado pelos microfones discretamente instalados por todo o cenário criam um eco muito interessante da respiração dos personagens que vai variando consoante a fluidez e as características das cenas tornando o espectador ainda mais próximo do que está a acontecer à sua frente.

O real torna-se cada vez mais distante, e para isso as cenas vão recorrendo a uma espécie de destruição de paradigma sucessivos numa vertiginosa viagem a caminho do básico e do simples. Os animais representam a natureza na sua mais ingénua vertente.

“Não quero ícones nem iconoplastia, quero simplesmente provocar amnésia.”

O objectivo dos quatro personagens surge como o esquecer de tudo o que ficou para trás e o seguir de uma utopia difícil de encontrar. É quase necessário um renascer, porque os tempos actuais assim o obrigam. A actualidade tem aliás uma presença muito forte em todo o espectáculo que não esconde um cariz marcadamente político, com duras críticas ao momento que vivemos e às soluções que escolhemos.

“Aqueles que partem regressam sempre para serem enterrados.”
Portugal está a tornar-se num grande cemitério.”IMG_3612

Quando desprovido de toda a humanidade, o ser encontra as suas origens onde até o animalesco se apresenta como mais digno da condição da vida. A simplicidade começa a ser condição necessária para o natural e até as palavras ou até o isento olhar provoca a poluição do simples. É fulcral chegar ao nível zero, destruir todas as características que atribuímos às coisas de forma pouco isenta para escapar ao horror.

Tem especial destaque o desespero dos personagens pela ausência de utopias que credibilizem a sua existência. É então construída uma tentativa de esvaziar todas as imagens e todos os objectos como que empilhados numa frágil pirâmide. Trata-se de um conceito muito físico já que apenas a utilização das coisas é que lhe confere um lado mais obscuro.IMG_3637

Debatem-se nesta peça conceitos muito interessantes que revelam bem a gravidade dos momentos que passamos. O facto de serem corpos jovens perante toda aquela agonia física e psicológica a que estão sujeitos demonstra a injustiça dos tempos. Resta a ingenuidade inerente aos jovens como forma de conseguir impor a mudança através da transformação.

Trata-se de uma peça bastante interessante que estuda de uma forma jovem e descomprometida o flagelo do estado a que chegou o nosso país mas de uma forma contemporânea e vanguardista. Vale a pena assistir ao espectáculo e apreciar também as boas interpretações de Mariana Tengner Barros, Miguel Cunha, Bernardo Rocha e João Folgado. Não perca.

 

9 a 26 Jun 2011

SALA ESTÚDIO

4.ª a Sáb. às 21h45 Dom. às 16h15

FICHA ARTÍSTICA

criação, direcção e espaço cénico JOHN ROMÃO

textos originais MICKAEL DE OLIVEIRA

música e desenho som DANIEL ROMERO

desenho de luz JOSÉ ÁLVARO CORREIA

colaboração coreográfica ELENA CÓRDOBA

com MARIANA TENGNER BARROS, MIGUEL CUNHA, BERNARDO ROCHA, JOÃO FOLGADO

co-produção TNDM II e COLECTIVO 84 / PENETRARTE – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

M/16

Veja aqui mais fotos de Horror ou Breve Estudo sobre a Paralisia:

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Fotos: David Viegas | Propagandista Social

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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