Destaques

Rogério abandona Masterchef (com biografia e receitas)

A competição que pretende encontrar o grande Masterchef português continua. Na quarta emissão, Rita, Rogério e Sónia foram os aspirantes a masterchef que menos sucesso tiveram na prova de invenção. Acabou por ser Rogério a ter de abandonar a competição, despindo o emblemático e simbólico avental. Contudo, não sai em vão: a sua irreverência marcará para sempre o programa.

Sobre ter sido o primeiro finalista a ser eliminado do programa, Rogério disse, numa conversa descontraída, a Sílvia Alberto que “gostaria de poder continuar no programa”, mas que também não está propriamente desolado pois a eliminação foi “justíssima”, revelando até que se desconcentrou na prova e que lidou mal com o tempo para escolher os ingredientes. Rogério considera ainda não ter posto em prática aquilo que talvez fosse a sua mais-valia no programa, o lado mais artístico e teatral do prato. Para ele, a parte pior foram os minutos iniciais em que os concorrentes têm de lidar com uma série de factores, como sejam controlar o tempo, escolher os ingredientes iniciais, lidar com o feedback dos júris, etc.

Rogério conversou sobre a eliminação e a sua experiência com Sílvia Alberto, num vídeo exclusivo na web acessível no site da RTP, através deste link.

Biografia de Rogério Costa
Rogério Costa tem 32 anos e é artista. Vive em Amares, distrito de Braga. Aos 18, foi estudar para a capital jornalismo e começou a fazer teatro amador. Em 2003, começou a fazer as próprias peças em que a culinária marcava presença. Nas suas performances, Rogério cozinhava para a plateia. Para ele, os restaurantes de qualidade são autênticos teatros de sensações. Adora ler sobre culinária. Regressou, depois de ter estado alguns anos em Lisboa, a Amares, para se dedicar ao estudo da gastronomia da zona. Rogério tem ainda a sua própria horta. Das suas preferências culinárias fazem parte a cozinha alentejana, gourmet e molecular.

Perfil Gastronónimo – Três Receitas de Rogério Costa*
1. Britney Spears vs. Lady Gaga
(Uma sobremesa que é uma verdadeira indústria criativa)

No filme de 2007 do realizador brasileiro Marcos Jorge (“Estômago”), conta-se a his- tória de como um vagabundo acabado de chegar do campo à cidade se transforma num chef de cozinha. Durante uma das aulas, o tutor explica-lhe o porquê da cozi- nha ser considerada uma arte, dando para tal o exemplo do pintor que gasta 100 reais em tintas, para depois vender o quadro por 100 mil. “Isto é arte!”, diz ele entu- siasticamente. E continua, afirmando que na cozinha acontece exatamente a mesma coisa: o célebre “Romeu & Julieta” (queijo Minas com goiabada Cascão) transforma- se em “Anita & Garibaldi” com a simples substituição do Minas por um Gorgonzola. E é assim que um doce de “boteco” se transforma numa sobremesa sofisticada, permitindo ao dono do restaurante poder quadruplicar o preço sem grandes traições morais. Não se trata aqui de vender gato por lebre, trata-se sim de fazer ascender o gato à categoria de lebre, o que é bastante diferente. Inspirando-me nestes pressu- postos, decido agarrar em dois produtos massificados da cultura pop contemporâ- nea, que competem arduamente pelo pódio, anulando-se por isso dialecticamente, para criar uma sobremesa que vive no atrito simbiótico de um amor impossível entre duas coisas que na verdade são uma só. Mas como o que importa na gastronomia (tal como na arte) é a assinatura, então não mudo rigorosamente nada à receita, só o invólucro exterior (título + legenda). Assim sendo, “Britney Spears vs. Lady Gaga” são 3 discos de goiabada e 3 discos de Gorgonzola de dimensões o mais idênticas possível e sobrepostos em torre. Assinado por baixo: Rogério Nuno Costa. Mas sendo isto uma receita-readymade, gosto de lhe adicionar um último elemento disruptivo e irónico: arranco a coroa a uma Nossa Senhora de Fátima de plástico e coloco-a em cima da torre.Caberá agora ao espetador/comensal decidir quem é o queijo e quem é a goiabada. Comer ao som de um mashup qualquer. Só assim a arte poderá um dia ascender à categoria de gastronomia.
2. Espetáculo de Teatro
(Uma cabidela a querer ser fine cuisine, ou uma cabidela-ficção)

É importante começar por matar a galinha, com determinação e sem medo de ser humilhado publicamente pela Sociedade Protetora dos Animais ou outro organismo qualquer que gosta de comer carne sem lhe ver o sangue. Não é concebível a con- fecção de cabidela sem uma galinha criada no campo, de preferência pela própria pessoa que a vai cozinhar; de outro modo, não será uma cabidela, será “sangue co- zinhado”. Existem várias técnicas para degolar uma galinha, sendo que a mais efi- caz é a que introduz a cabeça do animal numa espécie de funil de plástico, assim permitindo aproveitar todo o sangue. Este é de imediato misturado com vinagre de vinho tinto e colocado num recipiente fechado, longe da luz e do calor. A galinha é depois carinhosamente depenada e escaldada. Parte-se o bicho em “rações”, que se limpam de peles. Para esta receita, aproveito só os peitos do animal e as miude- zas (o resto congelo). Faz-se um refogado forte com cebolas, alhos, colorau, louro e azeite, no qual se cozinham as partes do frango até que fiquem douradas. Molha-se com vinho verde de Amares, reduz-se o lume e tapa-se, deixando cozinhar durante mais 20 minutos. Retira-se o frango da panela, desfiando os peitos e picando as miudezas. Reservam-se. Retira-se a folha de louro da calda onde o frango cozinhou e tritura-se tudo com a varinha mágica. Acrescenta-se dois a três copos de caldo de galinha morno, até se conseguir uma mistura líquida, mas aveludada. Faz-se aqui um pequeno intervalo no espetáculo para tomar um café e esticar as pernas. A se- gunda parte é mais emocionante, porque é nela que a galinha portuguesa vai querer voar mais alto do que a tradição lhe permite. Numa outra panela, refoga-se meia ce- bola picada em partes iguais de azeite e manteiga, juntam-se 4 chávenas de arroz arbóreo e deixa-se crepitar durante alguns minutos, mexendo sempre. Quando o arroz abrir, molha-se com um copo de vinho verde de Amares e deixa-se evaporar. Coloca-se a calda de frango novamente no lume brando, aquecendo-a. A partir des- te instante, vão-se adicionando conchas de calda ao arroz, nunca parando de mexer até que o líquido evapore e a mistura peça mais, mas sempre com bastante delica- deza pós-dramática. Quando faltarem duas conchas de calda, mistura-se o frango desfiado e as miudezas picadas no arroz, mexendo bem. Uma concha de calda de- pois, juntam-se 3 colheres de sopa bem cheias de queijo mascarpone e envolvem- se no arroz. Por último, coloca-se o sangue avinagrado e deixa-se que o mesmo dê uma acentuada cor acastanhada ao risotto. Testa-se a consistência do bago e se ainda precisar de mais algum tempo de cozedura, coloca-se mais calda. Caso con- trário, retira-se do lume e deixa-se descansar durante 5 minutos, tapado. Entretanto, misturam-se 2 colheres de sopa de queijo parmesão com 1 colher de chá de farinha e outra de sangue avinagrado, até se conseguir uma pasta ligeiramente granulosa, que se leva a derreter numa frigideira anti-aderente até se conseguir a forma de um pequeno crepe, que se aloura dos dois lados. Retira-se imediatamente do lume e, com a ajuda do rolo de cozinha, dá-se-lhe a forma operática de um cilindro. Deixa-se arrefecer, até se transformar num crocante. Coloca-se uma porção do risotto de ca- bidela num prato fundo, decora-se com o crocante-farinhato e termina-se com uma chuva contida de salsa picada. É muito importante dar este prato a provar sem ex-plicar rigorosamente nada; é que os espetáculos são como as salsichas: é melhor não sabermos como são feitos! Este risotto-ficção é bom para comer sentado no so- fá a ver o Masterchef.

3. Cultura de Massas
(Ravioli ampliado, com um ícone pop lá dentro)

Depois de lermos os livros certos e abandonarmos a velha dicotomia que separa “high” de “low culture”, podemos entregar-nos sem preconceitos à confecção deste prato que pode ser uma entrada, mas também pode ser outra coisa qualquer. Tudo depende do contexto, como é evidente. Afinal de contas, já estamos a viver no futu- ro. É comum dizer-se que as latas de sopa Campbell’s são a máxima personificação da cultura pop associada ao universo da comida; é mentira! O ícone pop culinário por excelência é o ovo. Conferir, a este respeito, estudos sobre a semiótica do ovo, ou então o episódio 3 do Masterchef Portugal. Esta receita usa ovos de pato, porque são grandes. Já um ravioli ampliado é um ravioli visto através dessa lupa que é o olhar contemporâneo (pós-moderno): para ver melhor, é preciso ver de perto. Faz-se polvilhando 200 gramas de farinha com sal em cima de uma superfície de trabalho bem seca. Abre-se um buraco no monte de farinha e colocam-se lá dentro 4 gemas de ovo e 1 colher de chá de azeite. Quebram-se as gemas e começa-se a moldar a massa começando sempre pelo perímetro do monte de farinha para o interior onde estão as gemas, sempre com os dedos e ao som de uma coletânea em mp3 de italo disco a tocar em loop. Os ingredientes estarão devidamente homogeneizados quan- do a mistura for densa e maleável. É então que se dá à massa a forma de um retân- gulo com cerca de 1,5 centímetros de grossura, cobrindo-a com um pano e deixan- do-a repousar durante 30 minutos. Nesse tempo, prepara-se o recheio: 1 chávena de requeijão, raspa de 1 laranja média (de Amares, de preferência), um ramo de salsa bem picada, uma colher de sopa de queijo da Ilha ralado e uma pitada de pi- menta preta. Mistura-se tudo com um garfo e reserva-se. Corta-se a massa em duas metades iguais, achatando-as com a ajuda das mãos (molhar os dedos em água no caso da massa se mostrar muito seca). Depois passa-se cada metade na máquina de estender massa umas 5 a 6 vezes, até a mesma ficar bem maleável e com a grossura de uma folha de cartolina. Estendem-se as duas metades na mesa enfari- nhada e fazem-se 4 quadrados iguais. No centro de dois dos quadrados, coloca-se uma porção do recheio de requeijão, abrindo uma concavidade para nela introduzir uma gema de ovo de pato. Molha-se a extremidade de cada quadrado com água e cobre-se com o outro quadrado de massa, fechando os raviolis com a ajuda de um cortador. Guardam-se os dois raviolis ampliados no frigorífico. Entretanto, prepara- se um molho caloricamente contemporâneo com manteiga derretida, na qual se fri- tam folhas inteiras de salva e amêndoas previamente reduzidas a pó. Termina-se com algumas gotas de sumo de laranja de Amares e uma pitada generosa de par- mesão ralado. Quando o molho começar a ficar ligeiramente bronzeado, retira-se do lume. Levam-se os raviolis a cozer em água fervente com sal durante 3 minutos. Re- tiram-se e escorrem-se com cuidado. Leva-se novamente o molho ao lume com du- as colheradas da água onde cozeram os raviolis, até ficar com uma consistência cremosa. Coloca-se o molho no fundo de um prato, depois o ravioli ampliado e uma folha de salva frita por cima. Termina-se com um golpe subtil de azeite. Ao abrir o ravioli, a gema de pato tem que estar líquida, de forma a misturar-se levianamente com o molho de manteiga. Só assim a alta e a baixa cultura poderão viver felizes para sempre. Acompanha muito bem o ensaio “Sobre a televisão”, de Pierre Bour- dieu, reserva 1997.

* Estas receitas foram fornecidas pela produção do programa e estão também disponíveis para consulta no site oficial do Masterchef.

Categorias
DestaquesTelevisão

Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

Comentários