Singular

Singular: Inês Afflalo

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Para usar as palavras deste célebre heterónimo de Fernando Pessoa, ser bailarino é mesmo isso! É conseguir retirar tudo deste pleno nada de que são feitos o cheiro e o suor, a dor e a paixão, o fervor e o gesto graciosamente violentos que o olhar encanta e incendeia a alma. É amar e odiar em uníssono e perfeito equilíbrio, ser a silenciosa voz do corpo, arte per si, nudez pura e ténue da inocência…

Reabrimos as portas do Singular para aprender que, ao passo que a virtude encontra refúgio na imagem e a beleza se esconde nos versos, a ousadia de pertencer ao mundo do espectáculo acalenta a sua reunião, ilustrada na experiência de alguém que vê a Dança como «uma forma de estar na vida; um vício» do qual dificilmente se consegue desprender. Melhor pessoa para fazer transparecer isso por palavras é Inês Afflalo, uma bailarina lusitana formada em Hip-Hop, Jazz e Dança Contemporânea.

1 – Na tua opinião, a dança é  arte ou desporto?

Na minha opinião a dança pode ter muitas semelhanças com o desporto, mas julgo que tem também um conjunto de conceitos associados que  a faz pertencer ao núcleo artístico, onde não cabem os desportos. No entanto, os benefícios físcios e emocionais da prática de dança são semelhantes à prática desportiva.

2 – O que significa a dança para ti?

A dança aparece na minha vida e torna-se a minha vida! Muitas vezes digo que a dança escolheu-me e só depois a escolhi como forma de vida.

3 – Como seria viver num mundo sem dança?

Seria um mundo ainda com menos tempo, com menos amor e com menos consciência pessoal. Seria um mundo sem partilha, sem aplausos, sem palcos grandes.

4 – Se não fosses dançarina, que outra profissão escolherias?

Sou licenciada em Ciências da Comunicação e trabalhei algum tempo como jornalista. A área da comunicação, entretenimento e publicidade também me fascina pois corresponde a um outro modo de comunicar.

5 – Como foi pisar um palco pela primeira vez e mostrar a tua graciosidade através dos movimentos corporais?

Posso dizer que foi uma experiência maravilhosa marcada por uma inexplicável e altamente viciante sensação. A luz, o cheiro, o calor e os aplausos fazem-me vibrar cada vez que piso um palco.

6 – Normalmente, diz-se que o verdadeiro artista tem de, essencialmente, agradar a si próprio e, acima de tudo, confiar nas suas escolhas. Aquando da participação no programa “Achas que sabes Dançar”, as tuas prestações estavam constantemente a ser avaliadas pelo olhar sábio e atento do júri e, infelizmente, nem sempre foram dotadas de elogios. Como era enfrentar as duras críticas e, como se viu ao longo do programa, transpor as barreiras e, deste modo, de “coelhinha” metamorfoseares-te num verdadeiro “animal de palco”?

Na minha vida convivi sempre com as prestações perante um jurí quando estudei no Conservatório. A vida de bailarina foi infelizmente pautada de avaliações. Considero que não tem de ser sempre assim. Contudo, no programa que eu escolhi participar tive de ter força para manter vivas as minhas escolhas. Não foi fácil, tive muitos momentos com lágrimas nos olhos, mas não podia ir abaixo, estava a viver um sonho e o amor pelo palco e pelo momento falou mais alto que todos os obstáculos. Tive também muito apoio da minha família e de dois grandes amigos que me “treinavam” para cada gala.

7 – Na tua opinião, que importância trouxe o “Achas que sabes Dançar” não só para a tua carreira mas também a nível de reconhecimento de todos os dançarinos nacionais?

Penso que, para além de o programa ter revelado uma classe de bailarinos diferente, evidenciou que há dança de qualidade em Portugal e não apenas um registo de dança comercial “pimba” que se tornou frequente no nosso país. Veio também prender as pessoas à arte que é a dança mostrando-lhes a capacidade de trabalho e dedicação que são necessárias para se ser bailarino de qualidade, demarcando que dançar é uma profissão de risco.
Quanto à minha carreira teve também um papel importante, uma vez que foi revelador. Posso dizer que me deu a oportunidade de mostrar a um público ainda mais alargado as minhas capacidades e a minha dedicação. Ajudou-me a ser reconhecida pelo meu trabalho e a criar mais confiança nas minhas relações profissionais.

8 – À parte do programa da SIC, qual foi a tua melhor performance como dançarina? E a pior?

Sinceramente não sei responder.

9 – Quanto a novos projectos, que podes dizer-nos?

Neste momento tenho um projecto pessoal partilhado com mais dois bailarinos participantes no programa, o qual nos tem dado imenso trabalho, mas felizmente tem sido muito compensador. LEGACY é o nosso nome e andamos pelo país a tentar chegar a quem gosta de dançar mas nem sempre tem oportunidade de aprender nas escolas dos grandes centros urbanos. Para além disso temos espectáculos, criações coreográficas, etc. Em breve tudo estará no nosso site, ou visitem a nossa página no Facebook,  http://www.facebook.com/itslegacy.

10- Para todos os que partilham o mesmo sonho de um dia ser reconhecido pelo seu trabalho como dançarina, que conselhos deixas?

Para os que partilham deste sonho digo, e a minha opinião tem obviamene o valor que lhe quiserem atribuir, que o trabalho árduo, a dedicação, a humildade, a capacidade de empreendedorismo e mudança, devem ser alguns dos conceitos-chave que devemos carregar ao peito.

11 – Quem gostarias de ver entrevistado numa próxima publicação do “Singular”?

Gostaria de ver um(a) coreógrafo(a) português(sa).

Agradeço imenso à Inês pela entrevista e aproveito para lhe desejar muito sucesso em todos os projectos que está a desenvolver.

Quanto a si, caro leitor, relembro que poderá sugerir artistas cujo trabalho que gostaria de ver destacado neste espaço enviando-me mensagens para a Caixa dos Segredos ou para [email protected].

Vamos juntos lutar contra o abandono da Arte em Portugal e provar, de uma vez por todas, que o talento existe… basta saber apreciá-lo e atribuir-lhe o devido mérito!

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