Cinema

“Assim é o Amor” (Beginners): uma boa surpresa fora do mainstream

Estreia hoje, dia 1, o filme do aclamado realizador Mike Mills, Beginners- Assim é o Amor, que esteve em destaque no Toronto Film Festival de 2010, constituindo uma das surpresas do ano, mas bem longe dos blockbusters.

Hal (Christopher Plummer), após um casamento de 44 anos e a morte da sua mulher, admite ao seu filho que é gay. Que tinha sido gay a sua vida toda. Sim, que havia vivido uma vida inteira com uma mulher que nem sequer amava. Conta igualmente que tem cancro em estado terminal. E agora? Bem, agora é tempo de recanalizar energias enquanto houver vida, reaprender a viver, aprender a amar, tentar chegar finalmente à felicidade, mesmo que efémera.

Mas, na verdade, este filme conta a história de Oliver (Ewan McGregor), o filho de Hal, um homem sério e soturno, que herda objectos, livros, cartas, recordações e o cão do seu pai, entretanto falecido. Sabemos da solidão de Oliver, quer pela casa silenciosa, quer pelas conversas que vai tendo com o cão. Sabemos que teve, inclusivé, quatro relacionamentos falhados. Até que um dia encontra Anna (Melanie Laurent), uma actriz divertida e curiosa, e decide recomeçar, como “iniciante”, naquele processo de aprender a amar.

Como poderia dizer a sabedoria popular, é de experiências passadas que definimos quem somos e planeamos as nossas acções. É da reflexão e introspecção que Oliver se serve para levar a cabo este novo amor; serve-se, deste modo, das memórias, enquanto criança, da tristeza da sua mãe, da ausência do seu pai, da desconfiança que tinha quanto ao seu casamento, dos limites e valores rígidos da década de 50. Mas também se serve das recordações mais recentes do seu pai, da sua nova realidade, da descoberta da paixão num homem mais novo, dos seus últimos momentos mais alegres.

Se formos ao cerne do argumento não deixamos de concluir que esta é uma história de amor. E apesar de alguns (poucos) momentos poderem roçar o chamado “clichê”, grande parte do filme mantém-se afastado da fronteira ténue entre a previsibilidade e a originalidade, abordando uma história diferente, de maneira diferente e original, sem nunca deixar de transmitir a principal mensagem do filme: no amor, na vida, por mais voltas que demos, continuamos sempre “beginners”, iniciantes, sempre necessitados de aprender com novas experiências.

Na sua segunda longa-metragem ficcional (que, na realidade, tem algum intuito auto-biográfico), Mike Mills assina uma obra de grande beleza estética, com uso de elementos técnicos afinados para que se crie uma atmosfera intimista. Na verdade, este filme até teve um baixo orçamento, contudo, não era necessário mais; os cenários, a música (ou silêncio), os jogos de luz, a fotografia, os flashbacks espontâneos, a leveza da narrativa e as excelentes interpretações dos actores se cruzam para criar um ambiente cativante. É impossivel não se criar empatia pelas personagens e de ter sensações alegres graças a certas situações cómicas e sensações tristes devido a certas situações dramáticas.

Deste modo, este filme acaba, curiosamente, por se tornar uma agradável surpresa, na medida em que foi lançado discretamente, sem (praticamente) qualquer publicidade, mas capaz de ter qualidade suficiente para ofuscar muitos blockbusters.

É uma brisa de ar fresco comparativamente ao que se tem visto ultimamente. Um filme a ver.

httpv://www.youtube.com/watch?v=H0QmG_Don4s

Categorias
CinemaDestaques

Comentários