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Ricardo Andrez | ModaLisboa Transfusion

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Ana Pinto @ ModaLisboa Logbook | dia 8:

Colecção que desafia contrastes, entre o primitivo e o sublime, entre sinais da natureza viva e da morte, através da combinação de varias cores e padrões.

LAVA

"Se eu pudesse, se ao menos pudesse, abrir um buraco na terra fresca – camadas de betão, cimento, alcatrão, borracha, corrente eléctrica, solo húmido colhido longe, sementes prontas para explodir em flor empacotadas  cuidadosamente – enterrar-te os pés junto à raiz inquieta do pinheiro bravo, plantar-me ao teu lado e regar-nos ferozmente duas vezes por dia, cresceríamos, tu e eu, semelhantes aos elementos primitivos que se fizeram caldo, que se fez matéria, que se fez nós? Seria o teu pensamento, o meu movimento, mais natural? Ou surgiriam dos nossos membros inexplicáveis extensões penetrando fundo a crosta, criando o deslocamento das placas tectónicas, ferindo o manto, atingindo o núcleo com o nosso bom sentimento, a nossa inexorável doçura humana, originando catástrofe e perda?

Um homem não é uma árvore. Mas não é também um cão nem um gorila, um alce ou um pato. Entre o primitivo e o sublime, uma distância que se mede em polegadas – penso agora – perscrutam-se sinais de natureza e morte. Pois nada além da morte e da distância nos faz tão ardentemente produzir tapetes de relva, animais empalhados, romãs de plástico, cães eléctricos, lâmpadas que imitam a luz e calor do sol, neve sintética, cartão com cheiro a pinheiro, bosques pacientemente planeados para que pareçam selvagens, gaiolas de pássaros, orvalho artificial, água do mar enfrascada ou Jardins Zoológicos.

E tudo o que em camadas se estratifica no interior das nossas cabeças, ao olharmos alucinados o percurso do rio, os deslizamentos de terras e o verso das folhas dos plátanos, nutre e embala o desejo de, sobre a nossa pele, se espelharem essas mesmas camadas de ideias. E delas fazermo-nos outros, tu e eu, inflamados desde a ponta dos dedos ao fundo das nossas coxas. Que a acumulação de matéria sobre os nossos corpos não é senão plano de escavação, forma de, couraçados, fazermos emergir o sangue e obstinadamente – gestos bruscos, olhos cristalinos varrendo os detritos e moldando o excesso – deixarmos que ele nos cubra, revelando aquilo de que somos feitos.
Entre o primitivo e o sublime".

Texto: Pedro Vaz Simões

CRÉDITOS
Ilustrações – Tânia Diospirro | Sapatos e Malas – Ricardo Andrez for Eureka | Cabelos – Pêlos Cabelos |
Maquilhagem – Antónia Rosa Atelier | Música – Fabulosa Marquise | Vídeo – Pedro Vaz Simões | Estagiária – Cláudia
Dinis | Imprensa – Álvaro Dols | Patrocínios – Acorfato; Faria da Costa; Orfama | Parceiros – Eureka; Olivia Ferraz;
Trl; Vicri | Agradecimentos – Ângela PM; Clara Silva; Cláudia Andrez; Nelson Vieira; Sebastian Marte

Fotos:

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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