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KARNART apresenta: O Convento

No passado Domingo, dia 20, estreou no Teatro Maria Matos, O Convento, o espectáculo mais recente da KARNART, que estará em cena até ao próximo dia 28.

Desde 2001 que a associação KARNART, tem vindo a aprofundar o conceito Perfinst, trazendo peças que aliam a arte teatral clássica a outras vertentes artísticas, cujo o produto final consiste em objectos interactivos de grande dimensão estética e que têm, como intuito, transmitir um forte impacto artístico. Aborda então questões antropológicas, sociológicas, ou mesmo ecológicas. E O Convento não é excepção.

Tendo como ponto de partida uma residência da equipa na Serra da Fóia, em Monchique, o espectáculo centra-se no convento franciscano da Nª Srª do Desterro e numa particularidade interessante: o facto de, nas suas ruínas, habitar uma família.

Assim, reúne-se um conjunto de memórias dos artistas, vídeos, fotografias e som. Mas o som não se conjuga com o vídeo; são elementos diferentes, mostrados em alturas diferentes da peça mas, que, no fundo, se complementam. Desafia o espectador a experienciar cheiros, sabores e texturas, como se lá estivesse e, deste modo, estimula a criação de sensações, a sensação de estar ali, no convento e a sensação de estar a conviver directamente com a família.

Os actores: André Amálio, Filomena Cautela e Bibi Perestrelo

O Propagandista Social esteve à conversa com Luís Castro, o mentor e director deste projecto, que nos explicou melhor esta ideia, desde a sua origem até aos seus intervenientes/personagens:

Propagandista Social: Como surgiu esta ideia?

Luís Castro: Em 2010, a KARNART andava à procura de um pólo rural, um sítio na província onde pudesse trabalhar uma parte do ano, quando são fases de dramaturgias e leitura de texto, em que não precisamos de os fazer na cidade, queríamos faze-los no campo. Nessa procura passámos por Monchique acompanhados pela Directora Regional do Algarve e pelo o presidente da Junta de Freguesia de Monchique. Andámos à procura de espaços e um dos espaços foi o convento, que concluímos logo que não servia para nós, mas que suscitou curiosidade de criar um projecto por causa da família que lá vivia, adaptado, no fundo, à associação de passado, presente e futuro, que para nós era interessante, o facto de eles viverem naquelas ruínas, com aquela carga histórica; depois, de viverem em condições antropologico-sociológicas difíceis, sendo uma família de fracos recursos, e ao mesmo tempo com uma perspectiva futura de ecosustentabibilidade, fazendo o ciclo natural. Esta trilogia de passado, presente e futuro inspirou-nos imenso para fazermos um projecto, mas que ainda não sabíamos bem o que era. Fomos lá e percebemos que queríamos fazer uma residência dramatúrgica de 20 dias. Fomos ao convento e no final ficámos com tanto material que tivemos que escolher. Escolhemos representar objectos e personagens que imitassem os Monchiqueiros; portanto, usámos o lado mais performativo e o lado mais objectual e demos-lhes voz e imagem. Assim, focámo-nos no que eles nos tinham dito e no que nos tinham dado de imagens. Quisemos solidificar o projecto numa perspectiva mais visual e auditiva; no fundo, dar voz à família que vive no convento. E o projecto foi lançado com uma data de questões: como vivem, como sobrevivem, se as crianças vão à escola, como recolhem a àgua, como trabalham sem electricidade. Portanto, tínhamos uma série de questões às quais eles responderam e foi isso que quisemos transmitir, em vez de serem os actores a representá-los.

P.S.: Foi fácil levar este projecto para a frente? Apareceram restrições?

L.C.: O mais complicado foi quando chegámos da residência, pelo facto de termos de escolher e optar, já que tínhamos muita matéria prima e diversa. Tínhamos muitos objectos naturais recolhidos, tínhamos muito artesanato comprado, muitas fotografias, filmes, som, tínhamos histórias, tínhamos a história [do Convento]. O que foi complicado foi o momento da escolha, que teve em conta o palco onde que vai ser feito [o espectáculo].

P.S.: A família foi receptiva? Houve algum problema?

L.C.: De início não conseguimos entrar no convento. Não percebíamos porquê e chegámos mesmo a pensar que já saberiam que íamos lá e que não queriam falar mas, depois percebemos que tinha sido um mero acaso. Quando conseguimos encontrá-los, explicámos e eles aceitaram e receberam-nos muito bem, sempre. Aliás, toda a gente que entrevistámos em Monchique foram sempre bastante prestáveis e disponíveis.. E agora estamos com imensa vontade de lá voltar para lhes mostrar a peça.

P.S.: Foi possível perceber uma mudança de mentalidades na maneira como encaram a vida?

L.C.: Sim, é fantástico isso. Nós, por vezes, achamos que, como vivemos na cidade, temos mais informação, mas a verdade é que eles lá estão bastante actualizados, só que com outra postura sobre a vida, sobre a natureza e os seus ciclos; eles não estão alienados nem isolados, eles sabem das coisas, sabem de tudo o que se vai passando e têm opiniões muito específicas, o que se torna bastante engraçado.

P.S.: E como surgiram as petições?

L.C.: Uma já existia, que era das minas de Feldspato. A petição para travar a destruição do convento, criámos nós. Elas vão ser distribuídas ao público no final.

Pode ainda ver algumas das fotos do local pela a equipa do KARNART:

 

Luís Castro com D. Cândida Marques

Informações:

Teatro Maria Matos, Palco da Sala Principal (M/12)

20 a 28 de Novembro de 2011 (excepto dia 23) | diariamente às 21.30h, Domingos às 18h

Preço: 12€ / Com desconto 6€ 

httpv://www.youtube.com/watch?v=YdId6pqbkcA&feature=player_embedded

Ficha Técnica:

conceito, direção e instalação Luís Castro colaboração plástica e imagem para divulgação Vel Z produção executiva Rita Conduto interpretação Bibi Perestrelo, Filomena Cautela e André Amálio assistência dramatúrgica Claudia Galhós assistência à direção e recolha de som André Santos fotografia e vídeo Patrícia Rego, João Pedro Gomes e Vel Z reutilização/arte do lixo Teresa Campos iluminação Alexandre Costa sonoplastia Emídio Buchinho caracterização Ana Frazão assistência à instalação Inês Cruz e Pedro Caetano produção KARNART C. P. O. A. A. coprodução Maria Matos Teatro Municipal apoios Ana Castro, Câmara Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Monchique e Villa Termal das Caldas de Monchique Spa KARNART C. P. O. A. A. é uma estrutura financiada pelo Secretaria de Estado da Cultura/DGArtes (2011/2012)

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