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Quem tem medo de Virginia Woolf? – uma magistral ambiguidade

SONY DSCQuem tem Medo de Virginia Woolf é a mais recente produção do Teatro Nacional Dona Maria II e estreia no próximo dia 26, Sábado, na Sala Garrett.

Um dos grandes textos de Edward Albee, dramaturgo americano do século XX, chega assim à cena pelas mãos de Ana Luísa Guimarães nesta que é a última produção do Teatro Nacional nesta sala principal ainda com direcção artística de Diogo Infante.

Um elenco de luxo com Maria João Luís, Virgílio Castelo, Sandra Faleiro e Romeu Costa envolvidos, ao longo de três actos, numa verdadeira teia de ambiguidades e ilusões de uma violência extrema que interpretam com mestria.

Sinopse

SONY DSCA peça fala sobre os medos do homem, das ambiguidades verdade/mentira ou realidade/ilusão. Martha e George são um casal dos anos 60, numa América conservadora. Ela é filha do reitor da universidade local, e ele, professor de história. Martha não suporta que George seja pouco ambicioso, sonhava que ele substituísse o seu pai como reitor mas nem consegue chegar a chefe do departamento de história. George por seu turno considera Martha louca e desequilibrada mas ama-a demasiado e alinha nas suas loucuras e jogos perversos.

A cena passa-se na sala de estar do casal que chega depois de uma festa em casa do pai de Martha. A discussão começa acesa, dando ideia que já havia começado no caminho. Mas Martha e George não ficam sozinhos por muito tempo, depressa chegam Nick e Honey que tinham sido convidados a ir a sua casa durante a festa.

SONY DSCO casal chega a meio da discussão violenta. Eles são loiros, bonitos, jovens, recém casados e bem sucedidos. Exactamente o contrário dos anfitriões. O choque inicial com a discussão que se adensa a cada acto passa e o jovem casal começa a envolver-se na discussão. Uma noite de álcool e excessos que não poderá certamente acabar bem.

O Texto

SONY DSCO que tem de tão especial este texto do Albee é a intensidade da acção e o facto de os personagens, embora passados alguns anos, continuarem a representar na perfeição a natureza e o espírito humano da actualidade.

A ideia de trazer à cena “Quem tem Medo de Virginia Woolf” não foi imediata. Ana Luísa Guimarães tinha sido convidada por Diogo Infante para encenar um outro texto mas decidiu procurar outra obra:

“… tinha outro texto. Eu sugeri procurar um texto que gostasse e que me tocasse. Fui à procura e depois encontrei este da Virginia Woolf. Quando li o texto tive assim uma reacção emocional também forte e pensei: é este. Tive um bocadinho de receio, obviamente, porque este é um texto marcante, de um dramaturgo muito marcante, e ainda por cima teve uma representação muito famosa na América (…) depois o filme, o casal, não podia ser com mais estrelas. Portanto eu pensei:  estou maluca! Mas depois pensei: não, então esta peça é também sobre os medos e acabar com os medos, exorcizar os medos. Pronto, propus ao Virgílio, propus ao Diogo Infante e sobretudo o Diogo gostou imenso. Aliás a peça primeiro até a outra se tinha pensado para a sala pequena e ele disse logo: então vamos já para a sala grande, quero imenso fazer isso.”

SONY DSCPara a encenadora, esta não é só uma reflexão sobre as relações humanas, mas tem também uma conotação política em cada diálogo e na ambiguidade das acções, emoções e personagens:

“Acho que é uma peça que reflecte sobre as relações entre as pessoas mas também é uma peça muito política, é mais vasta do que isso. À primeira vista é sobre um casal e os seus convidados mas é de facto uma peça política e eu penso que também dá para pensar como está o país hoje em dia, o que é que pensamos das coisas…

(…)

Apesar de ter sido uma peça feita em ’62, continua muito actual. (…) É através deste casal e da relação deste casal que se fala de outras coisas mais vastas, do que é verdade, e o que é que é ilusão das coisas, o que é que é mentira e o que é que não é. Como é que as pessoas comunicam umas com as outras, com os jogos de poder, de manipulação, de mentira, de domínio do outro, nunca ouvir nem escutar a outra pessoa, e quando digo a outra posso dizer outros grupos de pessoas. Podemos transpor isto para uma coisa mais geral. Quando se quer aniquilar o outro e não se quer ver nem se quer ouvir, quer-se dominar e portanto as pessoas deixam de comunicar. Quando deixam de comunicar resulta nesta violência tremenda, emocional e física. São máscaras, são jogos, a verdade desaparece, as pessoas não se vêem e isto acaba sempre mal.

(…)

Estamos num momento em que não sei se nos estamos a ouvir todos uns aos outros, não sei se nos estamos a ver todos uns aos outros, se há alguém que nos anda a mentir ou não anda. O que é que é a realidade e a ilusão que esta peça levanta. Eu acho que nós não percebemos, pelo menos eu não percebo, no país o que é que é verdade e o que é que é  mentira, ilusão…”

O Elenco

Virgílio Castelo esteve escalado para o projecto desde a sua fase mais embrionária, mesmo antes do texto ter sido escolhido. Juntou-se Maria João Luís, foi escolhida Sandra Faleiro e foi feito um casting para encontrar Nick, cujo resultado foi a escolha do actor Romeu Costa.

SONY DSCPara Ana Luísa foi fácil dirigir o casal de protagonistas, no entanto o papel de Nick e Honey é também fundamental na acção e portanto não se pode falar numa peça a dois:

“Foi fácil no sentido de os dois… mas os outros dois também. Porque isto é uma peça que parece muito a dois mas é absolutamente a quatro. Se há alguém que falha, falha tudo. E mesmo quando alguém não funciona bem, mesmo agora falando do processo de actores, sente-se logo nos outros. É uma coisa imediata, têm de estar todos em sintonia e super concentrados.”

Virgílio Castelo interpreta George, consegue alcançar todo o desespero do personagem em amar e acompanhar as loucuras de Martha. Mesmo que isso coloque em causa a sua própria sanidade. Virgílio está seguro e agarrou este grande personagem, num texto que confessa que o assustou e que achou mais difícil do que previa:

“Foi muito mais difícil. (…) Não se suspeita. Quando se lê o texto fica-se muito entusiasmado. Eu vi o filme há trinta anos e depois nunca mais o revi. Fica-se muito entusiasmado com isto e não se tem noção do difícil e trabalhoso que isto é.”

Maria João Luís tem aqui mais um grande personagem. A desequilibrada e inconveniente Martha. São tantos detalhes e pormenores deste personagem que só alguém como a Maria João Luís poderia torná-la credível aos olhos do público. Uma verdadeira lição de representação com a loucura e sensibilidade nas doses perfeitas. Para a actriz foi uma experiência interessante compor este personagem e trabalhar com a Ana Luísa:

“É uma personagem extremamente interessante pelas variadíssimas nuances que tem e foi para mim um desafio enorme e ao mesmo tempo a descoberta de todo um processo e todo um grupo de pessoas que todos os dias ajudam a que as coisas evoluam de forma positiva. O encontro com a Ana Luísa é extraordinário.”

Sandra Faleiro é Honey, uma mulher aparentemente feliz com a vida. Mudou-se recentemente para a cidade e parece orbitar em torno do sucesso do marido. A actriz consegue na perfeição interpretar a ingenuidade de Honey e todas as suas fragilidades são exploradas de uma forma bastante inteligente.

“É o casal perfeito. Há essa ilusão. E de repente aquilo é o inferno. Começa-se a esgravatar e é o inferno. É uma mulher super reprimida. Vivia em função do marido e tinha de estar tudo perfeito.”

Romeu Costa com um Nick bastante seguro e convincente. Explora também de forma inteligente os dramas do personagem e consegue desmontar de forma bastante interessante o mito do casal perfeito e construir um personagem que reprime constantemente a esposa Honey. Em conversa o actor confessou que não conseguia prever o futuro do seu personagem.

“Nós a brincar perguntávamos o que vai acontecer com este casal depois de sair da casa do George e da Martha. Vão conversar? Não vão falar durante uma semana? E realmente não há respostas porque cada vez que fazemos é uma sensação diferente.”

SONY DSCOutra das questões amplamente exploradas por Albee na peça, e grandiosamente interpretada por Sandra Faleiro e Romeu Costa, é a existência da perfeição conjugal. Eles são loiros, jovens, um casal invejável. Mas será que a sua vida se resumo a uma perfeição irrefutável? Será que Martha e George são assim tão diferentes deste casal que irrompe no meio de tanta violência.

O Cenário

SONY DSCUma casa construída a partir de contrastes e contradições. As paredes são feitas de pedra e madeira, uma ambiguidade que se alarga da cena ao cenário. As traves do tecto projectam-se perante ângulos impossíveis de suster qualquer tipo de telhado, ao fim de contas a vida deste casal é exactamente assim, as vigas existem naquela relação mas não suportam toda a dimensão emocional que vivem e insistem em esconder a cada dia.

A ideia do cenário começou como um espaço abstracto mas depressa, durante o processo criativo, chegaram à conclusão que o cenário teria de ser um espaço concreto, tal como referiu o cenógrafo Fernando Ribeiro:

“Nós começámos o trabalho a pensar se iríamos ter ou não uma coisa mais abstracta, mais simbólica, mas chegámos à conclusão que tinha de ser realista. De qualquer das maneiras, sentimos, acho eu, os dois [cenógrafo e encenadora] que a coisa tinha de ser um bocadinho claustrofóbica, que tivesse uma tensão em cima deles e mesmo a questão da pedra, tinha de ser quase uma gruta.”

Todos os detalhes foram pensados numa base de contrastes, a pedra com a madeira, a madeira com a alcatifa, foi tudo projectado numa base de sair fora da zona de conforto de um casal que há muito a perdeu. A tensão visceral que se vive de forma tão intensa ao longo dos três actos precisava de um pouco de verdade num espaço real.

O Espectáculo

SONY DSCQuem tem Medo de Virgínia Woolf revela-se como uma tensão crecente ao longo de cada acto. Uma encanação brilhante num grupo de actores com prestações igualmente fortes.

A violência em cena é tal que passa para o espectador e não o deixa indiferente. Não é um espectáculo fácil de ser concebido por todas as particularidades que tem inerentes, mas o grupo sólido resulta muito bem em palco e convence o público.SONY DSC

Datas

26 nov’11 a 29 jan’12*

SALA GARRETT

4.ª a Sáb. 21h | Dom. 16h

* O espetáculo não se realizará nos dias 23, 24, 25 e 31 dez. e 1 jan.

 

Ficha Artística

de Edward Albee

encenação Ana Luísa Guimarães

tradução Ana Luísa Guimarães e Miguel Granja

encenação Ana Luísa Guimarães

cenografia F. Ribeiro

figurinos Isabel Branco e Pedro Pedro

desenho de luz Nuno Meira

música e sonoplastia Filipe Raposo

maquilhagem Sónia Pessoa

cabelos Luís Lemos

com Maria João Luís, Romeu Costa, Sandra Faleiro e Virgílio Castelo

assistente de encenação Daniel Gorjão

produção TNDM II

M/ 12

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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