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Loucos, todos somos um pouco

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A loucura, só assim referida, remete-nos para uma descrição incorreta daquilo que, de facto, representa o substantivo. O que é um louco? Como definimos e quando reconhecemos a presença de um louco? Após a leitura de Jerusalém, mais uma obra da coleção dos “livros pretos”, de Gonçalo M. Tavares, atrever-me-ia a constatar que reconhecemos um louco quando identificamos, no outro, caraterísticas nas quais nos reconhecemos.

Gonçalo M. Tavares é um autor reconhecido na literatura portuguesa, ainda que a sua primeira obra publicada nos remeta para 2001. “A imaginação e o gosto pela palavra”, que José Saramago reconhece no escritor, fez com que o prémio Nobel da literatura o anunciasse como um possível sucessor no mesmo prémio. Ainda assim, o autor foi já reconhecido com vários prémios literários nacionais, entre os quais o Prémio José Saramago, atribuído em 2005 em consequência do romance Jerusalém.

É muito provável que Bertrand Russell, prémio Nobel, célebre filósofo inglês contemporâneo, não apreciasse esta obra. Russell defendia em 1998, em A Última Oportunidade do Homem,que “o nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. (…) se insistirmos em demasia nos [sentimentos] negativos, nunca sairemos do desespero.” Em Jerusalém, Gonçalo M. Tavares parece contrariar esta ideia, incitando a falta de humanidade que assola as pessoas do nosso século e a perversidade da mente humana. No fundo, esta obra revela-nos que a loucura é uma constante no quotidiano de todos nós, salvaguardando, claro, a intensidade e o pormenor com que cada situação é retratada. Para além da loucura, temas como a religião, o sexo, a guerra, a morte e, claro, o amor, são retratados no livro que se apresenta como um romance mas que, ainda assim, não é o típico romance em que o amor é enaltecido e agradavelmente representado.

São sete as personagens que protagonizam esta viagem pela obscuridade da mente humana: Theodor Busbeck, um conceituado médico, investigador na área da psiquiatria e filho de Thomas Busbeck, um político reconhecido e que estima o nome de família; Mylia, a mulher de Theodor que sofre de esquizofrenia e que, por isso, é internada no hospício Georg Rosenberg; Kass Busbeck que, apesar de ser filho de Mylia e de Ernst Spengler, um outro doente do hospício, vive ao cuidado de Theodor; Hinnerck é um ex-combatente que, vítima da guerra, sofre de “uma sensação constante de medo” (p.65) e se faz acompanhar permanentemente da sua pistola. Há ainda Hanna, uma prostituta que garante o sustento de Hinnerck, e, por fim, Gomperz, o diretor do hospício onde estão internados Mylia e Ernst.

Esta é uma obra que exige atenção e uma leitura ritmada, isto porque os avanços e recuos no tempo, tal como a sucessão de espaços, são constantes e forçam-nos a uma adequação lógica dos contextos e das situações, o que só se consegue com alguma concentração e entrega, tornando-se quase que um desafio à própria mente do leitor. Consequência do que é referido anteriormente, é caraterística desta obra de Gonçalo M. Tavares a sucessão de capítulos e subcapítulos que quase nos remete para uma obra cinematográfica com a constante sucessão de planos sendo que o silêncio, não podendo ser atentado numa obra literária, se impõe à passagem das situações, quase que aguardando por mais história. Poderá dizer-se, portanto, que Jerusalémé uma obra que nos deixa curiosos e interessados.

Em todo o livro, há uma única referência ao título: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita” (p.170). Cada leitor fará a sua própria interpretação deste título e desta referência, mas há que salvaguardar a interferência religiosa que a compõe, isto é, a citação anteriormente transcrita não é mais do que um salmo que se apresenta na Bíblia. Denotar que Jerusalém é a cidade onde se cruzam as grandes religiões do mundo e é, por excelência, nomeada como “cidade da paz”. Mais à frente na obra, perto do fim, consegue ler-se: “A tua mão direita não secou. Vês a minha? Também não secou.” (p.238) Esta passagem remete-nos para um tempo anterior, contextualizando-nos, e marca um momento de reencontro entre Mylia e Ernst. Interpretando a citação podemos especular que o título representa a esperança, que ainda se tem, para lá da loucura e da insanidade que nos são apresentadas ao longo de toda a obra.

Pensar em Jerusalém como uma leitura agradável é induzir-nos em erro, isto porque ao concluir a esta leitura surge uma sensação de alívio e de “missão cumprida”, como se tivéssemos saído de um turbilhão de emoções e reviravoltas inesperadas. Esse alívio pode significar também que a loucura, presente em cada um de nós, foi posta à prova na medida em que o nosso julgamento se estabelece a cada situação que Gonçalo M. Tavares apresenta. Este é um livro cuja apreciação crítica nunca poderia ser semelhante em todos os casos uma vez que cada leitor fará uma leitura pessoal, de acordo com os julgamentos que estabelece. Ainda assim, é um livro de cuja leitura todas as pessoas deveriam ter oportunidade porque as introspeções são necessárias e loucos, todos somos um pouco.

Vítor Carvalho

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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