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De VERMELHO se faz Arte


SONY DSCO Teatro Aberto estreou no passado Sábado VERMELHO com encenação  de João Lourenço e que retrata, em jeito de biografia, a vida do pintor russo Rothko contando no elenco com António Fonseca e João Vicente .

Mais do que uma peça, VERMELHO é um verdadeiro ensaio sobre a arte, uns minutos em que debatemos não só um pouco da obra do pintor mas também a sua visão sobre a arte de uma forma abrangente segundo o génio de um dos mais importantes representantes do expressionismo abstracto.

SONY DSCEsta proposta da Sala Vermelha do Teatro Aberto surgiu em linha de continuidade com as apostas biográficas que têm marcado a história daquele espaço como foi o caso de Werner Heisenberg ou Hannah Arendt, mas também pela curiosidade de João Lourenço pela vida e obra do pintor:

“Eu tinha uma experiência com o Mark Rothko nos anos 70, ainda na velha Tate. Entrei lá por uma portinha. (…) vi estes quadros enormes e não sei se a minha primeira reação foi gostar ou não gostar ou se aquilo era fácil de fazer. Sei que fiquei lá algum tempo e depois fui ver que aquilo realmente não era lá muito imitável porque nas transições haviam muitas camadas. Depois eram muito grandes. (…) Quando eu olhei para os quadros lembro-me de ter uma sensação, uma sensação qualquer…”

SONY DSCVermelho é uma peça de John Logan, guionista experiente de Hollywood e vencedor de dois Óscares da academia.

Rothko tem a característica de não deixar indiferentes aqueles que a sua obra contemplam quer pela sua aparente simplicidade quer pela fascinante escolha de cores marcantes e formas predominantes que incitam à reflexão.

SONY DSCO espectador é convidado a entrar dentro do atelier de Rothko, um ginásio Nova-Iorquino onde se destacam as telas de tamanhos grandes com as pinturas do artista no meio de bancadas com tintas, pigmentos, pincéis e os demais habituais materiais de pintura. A envolvência do cenário é um dos aspectos francamente positivos que cria dinâmicas cénicas bastante interessantes e permite aos atores em palco uma liberdade muito credível e merece o destaque do trabalho do cenógrafo António Casemiro. A adaptação ao cenário foi aliás um aspecto tido em conta pelo encenador, uma vez que era essencial que os atores trabalhassem neste atelier:

“Esse era o meu medo em fazer este espetáculo. Como é que eu conseguia que eles se movimentassem neste estúdio como se este estúdio fosse deles. É um bocadinho um estúdio à Rothko, não é exatamente o mesmo, não podia ser, não tínhamos essas dimensões mas é um ginásio. (…) Criámos um espaço que eu acho que, pelo menos o Rothko pintava aqui, se fosse vivo era capaz de pintar aqui.”

SONY DSCEm palco temos um confronto clássico, um mestre e um aprendiz que nos remetem para a antiguidade Aristotélica. Mas de clássica esta relação tem pouco. A personagem do assistente de Rothko é onde reside a arte do dramaturgo Loghan. É através da curiosidade deste personagem que é desenvencilhada a trama e carga dramática que envolve o pintor. Rothko tem uma entrega importantíssima: um conjunto de painéis para servirem de decoração ao futuro badalado restaurante Four-Seasons, meeting point da mais alta burguesia nova iorquina. Mas a arte do pintor é para si muito especial e todas as condições devem estar reunidas num equilíbrio bastante delicado para que sejam corretamente apreciadas, condições essas que não estariam reunidas neste espaço para onde foram encomendadas.

SONY DSCRothko surge em palco como um personagem com um grande mau feitio, é presunçoso e acha-se detentor da verdade. Julga-se um grande pintor e não se desliga de um imenso egocentrismo, como nos falou ator António Fonseca:

“Parece que também é histórico um certo mau feitio que é de resto também um estereótipo que é uma coisa comum nós pensarmos isso sobre os artistas. São pessoas muito imprevisíveis. Mas parece que é verdade.”

SONY DSCPor sua vez o assistente de Rothko (surge como um grande admirador da arte do pintor mas que a certa altura se vê confrontado com a falta de coerência entre o que o seu mestre defende e o que executa no mundo real, tal como nos revelou o ator João Vivente:

“Inicialmente ele chega ao atelier um bocado a medo, não sabe o que vai encontrar, ou melhor, desconfia que vai encontrar alguém difícil de alcançar mas acho que assim de tudo o admira.”

SONY DSCEm destaque novamente está a mestria da encenação de João Lourenço, bem como o rigoroso trabalho de dramaturgia que dá uma credibilidade ímpar aos personagens. As dinâmicas de cena já referidas traduzem-se em momentos muito interessantes onde várias ações e reações surgem em simbiose com um espaço dinâmico e perfeitamente integrado com a cena.

SONY DSCMais uma grande peça trazia à cena por João Lourenço com a marca de qualidade que o Teatro Aberto sempre nos habituou. Não perca!

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Ficha Artística
Versão
João Lourenço | Vera San Payo de Lemos
Dramaturgia Vera San Payo de Lemos
Encenação e realização vídeo João Lourenço
Cenário António Casimiro | João Lourenço
Figurinos Dino Alves
Supervisão audiovisual Nuno Neves
Luz Melim Teixeira
Com António Fonseca | João Vicente
Espectáculos
4ª a Sábado às 21h30
Domingo às 16h
M/12
NÃO HAVERÁ SESSÃO NOS DIAS 24, 25, 31 de Dezembro e 1 de Janeiro.

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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