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“Morte de Judas” é resposto no Teatro da Cornucópia

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De regresso à cena para mais 11 representações do monólogo de Claudel, Morte de Judas é um espetáculo que a Cornucópia e Dinarte Branco apresentaram numa curta série de representações em fim de Março 2011.

O espetáculo extremamente radical na sua conceção cénica, foi um sucesso e deu a possibilidade a Dinarte Branco de realizar um trabalho de interpretação extraordinário. A versão traição de Judas, pouco canónica mas de um catolicismo exemplar, que o próprio Judas enforcado apresenta ao público, surpreendentemente tocou fundo o público que pôde assistir a essas representações.

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Morte de Judas é como uma carta do Tarot. Ao lado da cruz, imagem simbólica de uma História feita à luz da ideia de um Deus que se fez carne, num curto monólogo, Claudel mostra uma “carta” que não é a da cruz de Cristo, e outro madeiro, a figueira, onde Judas, o Apóstolo para sempre associado ao Mal, à Traição e ao Demónio, depois de trair Cristo, se enforcou. Faz o exercício de lhe dar voz, de, em oposição aos textos sagrados, contar a Morte de Cristo pelo ponto de vista de quem desencadeou toda a Paixão.

Ao contrário dos Evangelhos que mitificam a narrativa dos acontecimentos, Judas fala do lugar do Homem, fala enforcado, e resgata a sua condenação moral com um ponto de vista exemplarmente dialéctico em que demonstra como a sua traição serviu Deus. A figueira, árvore viva e de ramos em todas as direções torna-se no símbolo da crítica, da lucidez, do materialismo, do próprio “livre arbítrio”, do próprio Homem, e opõe-se para sempre à cruz, madeira já morta, indicadora do caminho da salvação.

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O resultado é um estranho e incómodo “objecto”, o monumento a que o Mal não tem direito. Essa estátua ali fica para sempre e afirma, por outras palavras a frase popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”. E que é o Homem quem trabalha para Deus.

Este Judas de Claudel não é como o pintaram na Bíblia. Este Judas não se arrependeu, enforcou-se, como tantos seres humanos, por vergonha, ferido na sua honra pelo desprezo dos fariseus. Por orgulho. Para ele, quem miseravelmente se arrepende é Pedro, o fundador da Igreja, fraco e humilde por oposição à força da sua coragem. Este Judas fala para além da Morte, já enforcado da figueira e orgulhoso da sua traição. Judas não tem quase voz nos Evangelhos, pouco dizia. Aqui estamos no teatro e ele fala pelos cabelos. Claudel inventa um homem para Judas, um homem importantíssimo na economia da Paixão. Aquele que corajosamente a desencadeou, escandalizado por razões próprias do Homem, utilização indevida da riqueza. E rendemo-nos à evidência humana do que diz. Claudel chegou a dizer que Judas é o materialismo, dentro da obra de Deus, evidentemente. Mas não é do materialismo oposto ao cristianismo que este texto fala.

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Dir-se-ia que este Judas não faz parte do mito, fala como um homem que vive sem transcendência, com o senso comum ou o materialismo do nosso tempo. É num ponto de vista totalmente humano, no mais inegável bom-senso e no mais lúcido realismo que se coloca o chamado “traidor”.

Morte de Judas de Paul Claudel (Tradução de Regina Guimarães)
Um espetáculo de Dinarte Branco, Luis Miguel Cintra e Cristina Reis

O espetáculo estará em cena de 19 a 29 de Janeiro, no Teatro do Bairro Alto.

De 3.ª a sábado às 21.30h e domingo às 16.00h

Preço dos bilhetes: 15,00 € com 50 % desconto para estudantes, menores de 25 e maiores de 65 anos.

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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