Cinema

Crítica: Apollonide – Memórias de um Bordel

Foi na passada Quinta-feira, dia 12, que estreou na salas de cinema nacionais Apollonide – Memórias de um Bordel, o mais recente filme do francês Bertrand Bonello, tendo sido considerado por vários meios (como Cahiers do Cinema), como um dos melhores filmes de 2011.

O filme consiste precisamente no que se refere o título: é a mostra de memórias, em modo intimista, de um bordel de Paris, no fim do século XIX/ início do século XX. Vemos assim as rotinas do quotidiano nesta casa, o acordar, o pentear, o lavar, o comer, o esperar que a noite venha para que se inicie o negócio.

Há apenas um local de acção, uma maison close, lugar com sofás de veludo e móveis com ostentação de luxo, com ourivesaria fina e até uma pantera negra (verdadeira!). Contudo, é um local sem janelas e sem qualquer comunicação com o exterior, onde a noção do tempo, do dia e da noite, se perde. Portanto, o tempo está suspenso, preso naquelas quatro paredes, assim como o mundo do erotismo e do desejo. A realidade dos homens que entram por aquelas portas, essa sim, é que fica lá fora.

Esta fita apresenta-se assim com contornos diferentes do que outros filmes nos têm habituado; aqui não há linha de acção nem narrativa (as cenas são várias vezes complementadas com flashbacks e repetições). Aqui também não há distinção entre personagens principais e secundárias; conseguimos vê-las a todas com o mesmo grau de intimidade, observando as suas vidas e dramas com a mesma profundidade; no fundo, contribui igualmente para tal indistinção o facto de terem o mesmo sonho: libertarem-se daquela casa e daquela vida.

Bertrand Bonello poderia ter-se limitado à mera apresentação das histórias de um bordel do século XX e ter-se ficado por esse período da história. Mas não. Em vez disso, ao ter tomado a (corajosa) decisão de acrescentar a cena final, instalou uma correlação com a actualidade e com a profissão a que achou corresponder nos dias de hoje: a prostituta. Permitiu, deste modo, que se abrisse um debate de ideias sobre “a mais velha profissão do mundo”. Há alguma diferença entre a prostituição de há 100 anos e a de agora? Alguma coisa mudou? O cineasta conseguiu, por este meio, elevar o nível de interesse da sua obra.

De facto, muitos filmes sobre prostituição nos têm aparecido nas salas de cinema. Mas este acaba por se destacar, sem dúvida, pela diferença, na medida em que não mostra a nudez com o sentido de a celebrar ou de a pejorar; apenas mostra a realidade como ela é, aprofundando o conceito desta profissão,  ao reconhecer a prostituta como pessoa, digna de uma das características humanas mais puras: o sofrimento.

De referir ainda a direcção fotográfica (a cargo de Joseé Deshaies, mulher de Bonello) pelo seu trabalho impecável, conjugando os ângulos de câmera, a luz, o guarda-roupa e o cenário de forma harmoniosa, de modo a tornar esta obra uma autêntica poesia visual.

Acaba por ser um filme de época mas bem actual nos dias que correm. É caso para dizer que a história sobrevive ao tempo.

Classificação: 4,5/ 5

httpv://www.youtube.com/watch?v=n2lwMeeoaPU

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