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João Lemos – Entrevista

João Lemos é argumentista e ilustrador de BD’s, tendo trabalho em vários projectos para a Marvel Comics nos Estados Unidos. Recentemente integrou a equipa que ilustrou o livro de contos da série americana “Once Upon a Time” e esta semana concedeu uma entrevista ao Propagandista Social onde ficámos a conhecer melhor o trabalho deste artista português.

João começou a interessar-se por banda desenhada desde cedo: “desenhar e devorar livros ilustrados com os olhos é algo que faz parte das minhas primeiras memórias, e tendem a aparecer-me indistintas das de brincar. Não deposito em nenhuma escola ou estilo específicos a causa desse interesse. Fui coleccionando uma manta de retalhos visuais com fotos de sítios remotos da National Geographic, álbuns do Astérix, livros de pintura, comics americanos, a animação que nos era trazida pelo Vasco Granja, ilustradores victorianos, artes tradicionais, etc”.

 Estudou na António Arroio diversas disciplinas desde o cinema aos têxteis e tirou o curso de Banda Desenhada do CITEN, leccionado pelo famoso desenhador Diniz Connefrey. No entanto, João Lemos refere que foi um autodidacta e aprendeu a sua arte desenhando.

 

 

Quando questionado sobre as suas influências a nível artístico afirma que é uma lista muito extensa que inclui Claire Wendling, Klimt, Hugo Pratt, Kent Williams, Gustave Doré, Mignola, Moebius, Dulac, Rackham, George Pratt, Toppi, McKean, Urasawa, Sienkiewickz, Eisner, Jeff Smith , ou como o próprio diz “demasiada gente, e, por isso mesmo, nenhuma com um estilo próximo do meu. Devo também, e nunca por cortesia, porque estão todos longe de precisar, mencionar o quão inspiradores e influentes são os talentos de autores de quem tenho o prazer e a honra de ser amigo – Ricardo Tércio, Nuno Plati, Ricardo Venâncio, Filipe Andrade, Ken Niimura e David Lafuente”.

O sucesso do seu trabalho levou-o ao seu mais recente projecto: a participação como desenhador na recém estreada série americana “Once Upon a Time”.

 

O processo iniciou-se num momento de networking intra-corporativo. A ABC, a produtora da série, pertence à Disney que, como é sabido, é também a actual proprietária da Marvel Comics, para a qual desenhei e escrevi comics. O guião original do episódio piloto, que sofreu inúmeras alterações desde então, foi escrito por dois dos argumentistas da série Lost, a mesma dupla que escreveu o Tron: Legacy. Esse guião apoiava-se fortemente no livro infantil da personagem Henry, que servia de dispositivo narrativo para a transição entre os mundos “real” e dos “contos de fadas”. Quando a ABC reuniu com a Marvel, em busca de um desenhador que pudesse evocar um determinado estilo clássico de ilustração, terão posto sobre a mesa os comics da chancela Marvel Fairy Tales, que contém uma mini constelação portuguesa no universo Marvel (inclui duas histórias do Ricardo Tércio, uma do Nuno Plati e uma interpretação do Peter Pan minha). Acabou por me calhar a mim a rifa.”

O ilustrador conta que esta foi uma experiência muito diferente de tudo o que já havia experienciado. “Dava simultaneamente a sensação de que se estava a entrar num estaleiro em que muito já havia sido feito e no qual já se houvera erguido imenso aparato e, ao mesmo tempo, um quase pânico no ar com o guião ainda a ser questionado, o que se estendeu até às próprias filmagens. Os meus dias de trabalho dependiam antes de mais da comunicação com o Designer de Produção, Mark Worthington, que concebeu igualmente o episódio piloto de Lost.”

Todo este processo de produção levou a que apenas uma parte do trabalho de João Lemos tenha sido incluída no episódio piloto, e este diz ainda não saber que outros p serão incluídos, nem quando. “Alguns desenhos eram aprovados à primeira, outros eram alvo de um sem-fim de mini alterações. Infelizmente, à medida que a história do episódio se ia transformando, algumas cenas iam sendo postas de parte. No fim, ficaram apenas algumas imagens que são quase que decalques retocados de fotogramas dos momentos de transição. Essas são, de longe, as peças menos interessantes que desenhei para a produção. Mas o fechar destes projectos é sempre assim, principalmente quando não segue religiosamente um guião original – uma vaga de subtracção toma conta de uma enorme parte do processo, mesmo quando as coisas a que mais nos apegamos acabam, proverbialmente, no chão da sala de montagem. Não me deverei sentir pior, certamente, que os aderecistas, por exemplo, que decoraram cenários que acabaram por não se ver, no fim.”

“Em Novembro, perante o sucesso de visionamento do piloto (acima dos 12 milhões), foi dada luz verde para o prosseguimento da produção, agora com certas funções passadas para fórmulas e equipas mais fáceis de orçamentar, como é típico. Ainda há dias lia uma entrevista com o Rick McCallum, o braço direito de George Lucas, em que ele descrevia como muita da escala desta nova idade do ouro televisiva é aparente e insustentável. Sim, os standards de qualidade de séries como Mad Men, The Pacific ou The Sopranos são incríveis, mas a maioria dos espectadores não as estão a seguir em plataformas, legais ou não, com intervalos recheados de anúncios de quem realmente paga a produção, pelo que certos arrojos se revelam insustentáveis.”

 

Perante a situação económica do país e os cortes que têm sido feitos à Cultura, perguntamos a João Lemos se considera que se dá valor aos artistas no nosso país e o artista responde desta forma: “Eu tenho uma foto tirada pela iraniana Newsha Tavakolian junto ao meu estirador. É a preto e branco e mostra uma rapariga de Teerão, desfocada, a cantar numa sessão de Hip-hop com amigos. Estão numa cave, porque estão a cometer um crime. Se há lugar naquela cave, por mais esboroado que seja o pano da nossa liberdade, só por falta de visão é que nos poderemos queixar por aí além. Com isto, falo do acto pessoal de gerar arte. Se é fácil fazer da arte um ofício em Portugal? Não, nada. Quando os orçamentos das escolas e dos hospitais nacionais são o que são, estranho seria termos um Ministério da Cultura em permanente erupção cornucópica de apoios aos artistas da terra.

João acredita que o maior problema é o distanciamento e falta de interesse dos portugueses em relação à Cultura.

“Salvo um ou outro terraço nas costumeiras torres de marfim, estamos rodeados de uma postura marcada pela distância. Pior ainda, o português ainda tem medo de cultura, ainda sabe dos museus apenas através do relato, à hora do jantar, dos filhos que lá foram com a turma. O português médio esgota um coliseu para ver uma fadista aclamada ou entope uma exposição de pintura no último fim-de-semana porque o Professor Marcelo assim o recomendou, como cabe aos patriarcas, mas não vai a uma casa de fados ouvir o que aí anda de novo ou a um dos belíssimos museus nacionais se não tiver cá uns amigos estrangeiros ou os primos da Suíça para passear. Parabeniza-se pela idade do Manoel de Oliveira e pela lista gloriosa de recordes como a maior feijoada ou a maior Torta de Azeitão do mundo (quantos países estariam em competição?) mas estremece e persigna-se perante o conceito de ver cinema português. E há, nisso tudo, o passar de geração desta sensação de que a cultura não diverte, não nos toca, nem nos deixa mais envolvidos com o mundo e nós próprios, que é um processo hermético para burgueses afectados. É uma herança do Estado Novo, por mais que pregasse às massas, esta nossa visão monolítica dos conteúdos e agendas da cultura.

Agora que já somos todos, salvo alguns borbotos estatísticos como eu, aldeãos doutorados, é uma pena que essa outra Coimbra mítica, a do consumo cultural voluntário e acessível, ainda não nos tenha chegado. O público não sabe o que está a perder e, muitas vezes, os criadores não sabem dialogar com esse mesmo público. Andamos todos a perder. Corrijo, todos menos os centros comerciais. Dito isto, tenho dois irmãos, com menos de metade da minha idade, que seguem e adoram mais bandas portuguesas do que eu alguma vez ouvi com a idade deles. Alguma coisa quererá dizer.”

João Miguel Lemos terá um ano atarefado com vários projectos em mãos, como a ilustração de romances, a co-autoria de uma BD que se irá chamar “Mia” e uma colaboração com a Garden Films.

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Jornalista Estagiária numa publicação mensal e amante de Cinema e da Cultura nacionais

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