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A minha televisão está avariada

Estou confuso. Não sei o que se passa na minha televisão. Eu bem mudo de canal, mas por mais que o faça, parece-me sempre que estou a ver o mesmo. Estará avariada?

Com um pouco mais de duas semanas de atraso, estou de volta com Estado da TV. E dado o nome da rubrica, pensei que podia hoje escrever de uma forma mais genérica e menos direcionada para uma estação televisiva ou para um programa de televisão e falar, portanto, do “estado” do panorama atual da televisão generalista portuguesa.

Sinto-me frustrado. E quero que todos os outros se sintam de igual modo. Só assim saberei que a televisão não tem os dias contados, isto é, aquela que eu julgo ser a televisão com alguma qualidade. Quero focar-me em dois assuntos, e digo-o para sumariar e não me perder pelos enredos da escrita. O primeiro foco da minha abordagem prende-se com a semelhança de formatos e géneros, nos mesmos horários, nos três principais canais generalistas. A segunda questão prende-se com uma discussão sobre aquilo que será, porventura, uma televisão com qualidade informativa e entertenimento. Por estar com duas semanas de atraso, o primeiro assunto será discutido no dia de hoje e o segundo será apresentado ainda esta semana.

“Mudaste de canal?”, pergunto-me vezes sem conta a cada vez que me canso de ouvir a Conceição Lino e as suas piadolas ou a Leonor Poeiras com os seus envelopes recheados de dinheiro virtual. RTP1, SIC ou TVI funcionam do mesmo modo: “bora dar-lhes o que querem?”. Ele é telenovelas, ele é talk-shows de duas e três horas, ele é queijos e presuntos, ele é música popular, ele é programas de música, ele é reality-shows, o que “ele” não é é inovador.

Tu Cara Me Suena, que é como quem diz em Portugal A Tua Cara Não Me É Estranha, tem sido um fenómeno audiométrico. Mas, e apreciando o formato, o que traz ele de novo à televisão portuguesa? Tem música, tem humor, tem um júri, tem concorrentes, tem público para os aplausos e para os “uu”… Mas o que tem de novo? A caraterização? Já foi feito. É com famosos? Quantos programas do mesmo género já foram idealizados com famosos? Perdi-lhes a conta.

Agora diz que vem a quinta edição de Ídolos. A sério que o senhor diretor Luís Marques não consegue inovar, um bocadinho que seja? Os orçamentos estão apertados? Não me parece uma desculpa aceitável. Dizer que a criatividade já viu melhores dias, sim. Sempre é uma “desculpa” que não sendo compreendida se aceita.

(GRITO DE CONTESTAÇÃO)

Espera lá! Então e A Voz de Portugal? Não disseste/escreveste já tu muito bem sobre este formato? Escrevi e voltaria a escrever. Ainda que seja a mesma lengalenga, isto é, um júri, uma apresentadora, concorrentes e música, o programa consegue surpreender. Diria que era mais atrativo aquando da primeira fase da chamada Prova Cega, por ser, de facto, o pormenor mais curioso e distinto do programa. Representa aquilo que penso ser a inovação desejada em televisão? Não, de todo!

O que mais me aborrece é a falta de pessoas em televisão com vontade de mudar. Nuno Santos e José Alberto Carvalho surgiram como defensores de novas linhas editoriais e nova diretrizes para a Informação da RTP e da TVI, respetivamente. Mas, sinceramente, pouco mudou. Isto é, houve grandes alterações e algumas bastante proveitosas. Mas a essência da informação a que atrevidamente vou chamar de “cancro” da informação mantém-se. E que “cancro” é esse? O mediatismo. O jornalismo televisivo tende a perder a noção real dos valores-notícia e a massacrar os mesmos assuntos. E atenção que quando digo massacrar é realmente massacrar, dando conta da mesma informação vezes e vezes sem conta, ao invés de se explorar a informação. Ou seja, tende a perder-se o conceito de “notícia” – acrescentar algo de novo àquilo que é já do conhecimento geral.

Dizia hoje Francisco Sena Santos, num seminário de jornalismo, que a informação tem de ser nova e interessante. Explicava que o verdadeiro trabalho jornalístico se prende com o “contar de histórias” com interesse e que acrescentem, verdadeiramente, novas realidades à realidade, que é como quem diz, acrescentar novo conhecimento ao conhecimento. É disso que a televisão generalista está a precisar. E isto não se aplica somente à informação mas também ao entertenimento.

E se o mediatismo, na minha opinião, é o cancro da informação nas televisões, no entertenimento há também um cancro: os talk-shows. Até há outros cancros… Demasiados, até! Mas foquemos a nossa atenção nos talk-shows. Não está este formato demasiado consumido pelas grelhas generalistas? Sejamos francos… O que seria da TVI sem o Você na TV? O que fazer naquele espaço de três horas? Repito, três horas!? O talk-show está para a televisão portuguesa como um livro está para uma estante. Isto é, o livro até pode não estar na estante… Mas o hábito força-nos a considerar um erro não tê-lo numa estante. Mas o grande problema, no meu entender, não reside na existência factual dos talk-shows. O problema está no conteúdo dos “nossos” talk-shows. Mudam-se-lhes o nome, uma ou outra rubrica, os cenários, os apresentadores e, quando se consegue, os convidados e o resto é “vira o disco e toca o mesmo”.

Vou recusar-me comentar a “ficção nacional”. Mas digo-o sem pudores: é um cancro televisivo.

Repito, sinto-me frustrado. E quero que todos os outros se sintam de igual modo. Só assim saberei que a televisão não tem os dias contados, isto é, aquela que eu julgo ser a televisão com alguma qualidade.

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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