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À conversa com Jorge Mourinha

Pode parecer mentira, mas não! O Estado da TV está de volta e desta vez parece que é para ficar. Na rubrica de hoje falamos de jornalismo e audiências, uma dupla cada vez mais mais dissociável, “para infelicidade de muitos”, diz Jorge Mourinha.

Estive aqui há uns dias num seminário sobre jornalismo com o reconhecido crítico de televisão, Jorge Mourinha. A conversa prolongou-se por mais de uma hora e meia e as audiências foram o assunto em foco nesta discussão.

É o jornalismo que é feito em televisão um trabalho sério e isento de assuntos desnecessários? A resposta a esta pergunta é simples e concisa: não. E este “não” é muito simples de se explicar. Não há em televisão espaço para fazer jornalismo sério e despreocupado com assuntos menos importantes e sensacionalistas. Porquê? Simples. O jornalista do Público parece ter a justificação adequada: explica-nos Mourinha que em televisão há uma preocupação fundamental que são as audiências. Audiências que captam a atenção da publicidade que, por sua vez, é responsável pelo salário dos jornalistas. O jornalismo em televisão é “mais do que jornalismo sério, é jornalismo de espetáculo, é jornalismo sensacional”, admitiu.

Esse é um problema do jornalismo? Não. O problema (será que deve chamar-se a isto um problema?) está na televisão, em si mesma. Desde sempre que a televisão se socorre das “sensações” para aproximar o público e  o jornalismo televisivo não é, não pode e não consegue ser independente da restante programação dos canais. E isso acontece porque em Portugal não se fazem noticiários. Não se fazem noticiários? Sim, não me enganei a escrever. Os jornais televisivos que passam diariamente às 13h e às 20h, em simultâneo nos três canais generalistas, não são noticiários. Para ser um noticiário, 30 minutos seriam o suficiente para apresentar todos os destaques informativos. O que acontece em Portugal, fruto de uma cópia do modelo de jornal televisivo espanhol, é que os telejornais são programas que misturam informação com entretenimento, contribuindo para aquilo que Jorge Mourinha apelida de “jornalismo de audiências”.

E o serviço público que supostamente não se devia interessar pelas audiências? Ainda que a RTP seja uma cadeia de canais de televisão de serviço público, não deixa de fazer parte do mercado audiovisual português e, por sua vez, de “competir” com as outras cadeias de televisão. Portanto, teoricamente, a televisão pública não devia preocupar-se nem com as audiências, nem com a publicidade, ainda assim, na prática, os diversos colaboradores da televisão pública são remunerados e, como todos estamos fartos de saber, o contributo que é dado por todos nós na fatura de eletricidade somado ao cada vez mais escasso apoio do Estado português não é suficiente.

Voltando à conversa com Jorge Mourinha lembro um exemplo a propósito do serviço público de televisão. Falávamos nós da RTP Memória. Surgiu o exemplo de uma avó que desde que aderiu ao serviço de televisão por cabo, não se desliga daquele canal que, segundo se fez constar, lembra programas que acompanhou e dos quais sente saudade, abdicando dos habituais talk-shows que “contaminam” as grelhas de programação dos canais generalistas. A propósito, falou-se de memória televisiva. Será que os programas de hoje preenchem o requisito? Parece-me a mim que o que acontece hoje é a criação de uma “memória artificial”, sobre assuntos sem conteúdo, regulada por uma pseudo-passagem do tempo que ganha um valor despropositado mas que, ainda assim, acompanha a tendência: a cada segundo, uma notícia.

Para concluir, quero abordar uma outra questão que surgiu na conversa sobre televisão, que diz respeito à educação (diferente de escolaridade) e cultura das pessoas que assistem a programas de televisão. O que eu penso é que a televisão tem hoje um papel meramente lúdico e muito pouco informativo e ou instrutivo. As pessoas ligam a televisão de uma forma instantânea, sem se preocuparem na realidade com aquilo que querem ver. Ou seja, as pessoas vêem aquilo que está a dar e não aquilo que querem ver.

Sinto, enquanto telespetador, que sou um caso cada vez mais raro, pois sinto cada vez mais a necessidade de utilizar a televisão somente como uma ferramenta de que me socorro, conforme as situações. A oferta da televisão generalista é zero, mas dentro do universo cabo (que não é mais do que uma “pequena cidade”, dada a também pouca variedade) consigo encontrar algumas opções para satisfazer as tais situações. Talvez isto aconteça porque a internet existe e assume um papel cada vez mais destacado perante os outros meios de comunicação, mas, pelo menos, na internet as pessoas vêem, lêem e ouvem o que querem (por piores que sejam as suas escolhas).

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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