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SoundCloud: “MDNA” tem pouco ADN de Madonna (a crítica ao álbum faixa a faixa)

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Trinta anos depois dos primeiros sons, Madonna está de volta. “MDNA” é o 12º álbum de estúdio da cantora e chega às lojas a 26 de março. Eu já o ouvi na íntegra e, como prometido, partilho consigo a análise faixa a faixa.

“MDNA” tem muito pouco do DNA de Madonna. O álbum é mais do mesmo. Nada de novo para o que estamos habituados a ouvir da Pop contemporânea. Há demasiada música eletrónica, demasiados registos artificiais e muito pouca de natural. Madonna continua no registo eletrónico, rodeada de tecnologia, que por vezes resulta (“I’m Addicted” e “Girl Gone Wild”), e em outros casos nem tanto (“Turn Up The Radio” e “Superstar”). Salvam-se da fornada de música de dança as duas últimas faixas, “Masterpiece” e “Falling Free” (curiosamente, as melhores de todo o álbum, para mim).

Acontecem em “MDNA” duas coisas inesperadas. Primeiro, a excessiva presença de marcas dos produtores na maioria das faixas. É sempre enriquecedor ter em estúdio Martin Solveig, Benny Benassi ou William Orbit. Mas quando esses nomes se sobrepõem ao da artista principal, a questão é outra. Estas faixas demonstram de forma muito direta o que é o estilo de Solveig ou Benassi mas mostram muito pouco Madonna, a sua voz e interpretação. O que é estranho, afinal é ela a “rainha”… ou não é? Pelo meio de tanto instrumental, perde-se a letra, e perde-se o lado humano de Madonna. Os versos sobre o divórcio ou a religião, por exemplo, são engolidos por sons que chegam a ser violentos.

SoundCloud: Madonna, rainha da Pop… e do Marketing

Em segundo lugar, enquanto ouvia o álbum pensei algumas vezes “isto é tão Katy Perry/ Nicki Minaj/ Rihanna/ Gaga”. A tentativa de Madonna, de 53 anos, se aproximar da sonoridade de jovens com metade da sua idade causa-me alguma confusão. Será que Madonna não aceita a sua idade? Será que pensa que aos 50 anos não pode fazer música Pop? Eu acho que podia, e com autenticidade. Madonna sempre nos habituou ao melhor, à inovação, à vanguarda. Vê-la baixar de “referência” a “comum” é como ver o rating da dívida pública portuguesa descer (“nãããããão façam isso!”). É estranho, afinal é ela a “rainha”… ou não é?

Há ainda a acrescentar a falta de inovação em “MDNA”. A sonoridade, interpretação e mesmo as letras são mais do mesmo. E quando falamos de Madonna pensamos (ou pensávamos) em inovação, em novidade, em futuro. Ora, aquilo que se ouve no novo longa-duração é apenas a repetição dos últimos álbuns.

"Give me all your luvin'" é o primeiro single de "MDNA"

A análise de “MDNA” faixa a faixa:

Girl Gone Wild

O segundo single do álbum é a primeira faixa de “MDNA”, e não poderia ser outra. A música representa, no seu essencial, toda a sonoridade do disco. É Pop viciante, disco comercial, atrevido… e pouco mais. É Madonna. A batida de Benny Benassi é inconfundível, tal como o lado bad girl de Madge, desejosa por se tornar-se (ainda mais) wild… tal e qual como em “Celebration” de 2009.

“Gang Bang”

A faixa mistura os tempos mais obscuros e hardcore de Madonna (quando era considera inovadora!) com as batidas da Pop contemporânea. O ritmo da música é fantástico, mas mistura-se com uma letra tão estranha (escrita em conjunto com Mika)!Drive Bitch … Die Bitch” são só algumas das incitações de Madonna, de resto… só ouvindo. Não me surpreende que este seja um dos próximos singles: pelo som viciante, e pela letra provocadora… tão provocadora que não fará parte da versão clean do álbum.

“I’m Addicted”

Se há músicas em que a voz de Madonna surge robótica, está é uma delas. Os Daft Punk usaram todos os recursos possíveis e imagináveis para apetrechar a voz da rainha da Pop. O resultado, como a própria canta, é “something happens to me when I hear your voice and I have no choice”, e não há mesmo. Alerta para a possibilidade dos mais sensíveis ficarem verdadeiramente “addicted” pela música. Efeitos secundários: dançar sem parar. É a Pop a funcionar.

“Turn Up The Radio”

Se entre esta faixa e “Girl Gone Wild” tivessemos que escolher uma, a escolha seria fácil: tanto faz, porque são ambas muito semelhantes. O ritmo é parecido, a letra repete-se sucessivamente (“turn up the radio, turn up the radio, turn up the radio”)… o hit ideal para passar na rádio.

“Give Me All Your Luvin’” (com Nicki Minaj e M.I.A.)

O irritante “L-U-V-Madonna” foi uma má escolha para cartão de visitas de “MDNA”. A música é artificial, superficial e musicalmente pobre. Afasta-se de todo da linha seguida pelas restantes faixas. Nem a participação de Nicki Minaj e M.I.A. ajudam por tão curtas que são. Servem apenas para dizer que lá estão. De resto “Give Me All Your Luvin’” é “L–U–V-Madonna”.

“Some Girls”

Mais uma vez, não há marcas de Madonna, mas o estilo do produtor William Orbit (o mesmo de “Ray of Light”) é facilmente reconhecido. Da letra, nota-se uma inspiração no antigo reportório de Madge: “put your loving to the test”… outra vez “Express Yourself”! Para mim, é das músicas mais fracas do disco.

“Superstar”

A música resume-se a “Ooh la la, you’re my superstar”. Há referências a Marlon Brando, Michael Jordan e até Julio Cesar. Tal como “Turn Up The Radio”, esta é uma das músicas que se assemelha a outras tantas de cantoras como Katy Perry ou Nicki Minaj: repetitivas e com tão pouca coisa relevante em termos musicais. A pergunta é: para quê imitar as plebeias quando se é a “rainha”? Ou será que já não o é?

“I Don’t Give a F” (com Nicki Minaj)

Esta será provavelmente a faixa que mais “Madonna-factor” tem. A cantora fala sobre o seu divórcio e  diretamente para o ex-marido, Guy Ritchie: “tried to be the perfect wife (…) in the end it was a failure”. Madonna surge destemida e irreverente e para quem não perceber, Nicki Minaj deixa claro: “There’s only one Queen and that’s Madonna” (oh right!). A música termina com o som de uma orquestra imponente … mas que não faz sentido nesta música.

“I’m A Sinner”

Pouca Madonna, muito Orbit… mais uma vez! As marcas do produtor voltam a sobrepor-se à interpretação de Madonna (que deveria ser o principal certo?!). Ao ouvir “I’m A Sinner” é inevitável não nos lembrarmos de “Ray Of Light”, cujo produtor também foi Orbit, o que evidencia ainda mais a sua  importância, e a residual influência de Madonna. Mais uma para a reciclagem!

“Love Spent”

Apesar de não me soar muito bem, reconheço-lhe a qualidade. A letra coloca lado a lado o dinheiro e o amor (“I want you to hold me like you hold your money/ hold me in your arms till there’s nothing left”). Esta é das poucas músicas onde a letra e a voz de Madonna se sobrepõem ao instrumental (a fazer lembrar os anos 80)… e resulta. Porque é que não se lembraram de fazer isto em todas?!

“Masterpiece”

Já a conhecemos do filme “W.E.”, pelo qual venceu o Globo de Ouro para melhor música original. É das mais simples e, para mim, talvez por isso das melhores faixas de “MDNA”. Vale a interpretação de Madonna que sai favorecida pela sobriedade do instrumental, tão pouco eletrónico e tão orgânico. Bravo!

“Falling Free”

O álbum encerra com o reencontro entre Madonna e Joe Henry na escrita musical. Trata-se de uma balada (!) que nos embala do primeiro ao último segundo com passagens como “I let loose the need to know / we’re both free to go”. Na minha opinião não haveria melhor forma de terminar um disco tão agitado e com tanto lixo pelo meio.

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