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Catarina Furtado fala sobre “Príncipes do Nada”

Catarina Furtado apresentou a terceira série de “Príncipes do Nada”, que estreia esta segunda-feira, dia 26 de março, e o Propagandista Social quis saber como tem sido esta experiência, que conta já com sete anos de existência.

A abertura da apresentação da terceira série de “Príncipes do Nada” foi realizada por Teresa Pinto Gomes, diretora do Centro de Acolhimento de Refugiados, na Bobadela, onde o programa esteve também presente para relatar uma história sobre a condição de se ser refugiado em Portugal.

Seguidamente, João Nuno Nogueira, diretor-adjunto de programas da RTP, salientou que este projeto se enquadra “numa linha de programação associada às causas sociais, ao desenvolvimento comunitário e à cidadania” e que se trata de “uma opção estratégica” que será reforçada com novo programas deste género, a curto prazo. João Nogueira aproveitou ainda para reforçar que dado o papel de responsabilidade social que este programa apresenta, é necessário que o programa seja exibido imediatamente a seguir ao Telejornal, reforçando essa responsabilidade.

A apresentadora da RTP mostrou-se entusiasmada e explicou a importância deste programa na sua vida: “estou muito contente por apresentar a terceira série deste programa que tem de facto mudado a minha vida e tem contribuído de uma forma decisiva para as minhas opções enquanto profissional de televisão, enquanto embaixadora das Nações Unidas para a População, enquanto mulher, enquanto mãe e enquanto cidadã”.

“Príncipes do Nada” é um “programa cozinhado” com uma enorme dedicação e empenho que exige uma pesquisa rigorosa, uma produção cuidada, o estudo dos dossiês que se debruçam sobre as diferentes temáticas do desenvolvimento e que exige deslocações, o visionamento das imensas horas de gravações, a escrita, a edição, o grafismo e “só depois de estar pronto é que é servido durante cerca de 25 minutos”.

A embaixadora das Nações Unidas agradeceu ainda aos vários membros que constituem aquela que apelida de sua “pequena-grande” equipa, na qual se incluem, entre outros, Ricardo Freitas, Hugo Gonçalves, Susana Santos, Sara, Marisa Feio, Susana Ferrador, Alice Frade, André Banza, Renato Silva e Tito.

Catarina Furtado reforçou que “Príncipes do Nada” tem a preocupação de traduzir para o telespetador, através das pessoas que sofrem e que dão a cara, o que são os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, uma declaração assinada no ano 200 0 por 189 Estados-membros da ONU, incluindo Portugal. Nesta declaração os países comprometeram-se a mover esforços para erradicar a pobreza, promover a paz e alcançar os direitos fundamentais para todos até 2015. “São todas estas razões que nos dão força para voltarmos sempre ao terreno e contar histórias com esperança”, rematou.

A ESTREIA | 26 DE MARÇO DE 2012

Na estreia da terceira série de “Príncipes do Nada”, marcada para esta segunda-feira, dia 26 de março, Catarina Furtado viaja até ao Sudão do Sul, o mais jovem país do mundo, cuja independência foi declarada a 9 de julho de 2011.

A cruel realidade das meninas sudanesas do sul que sofrem abusos sexuais ou são obrigadas a prostituir-se é-nos revelada pela organização não-governamental Confident Children out of Conflict (CCC).

No primeiro episódio, Catarina Furtado entrevista mesmo algumas destas meninas de rua que, ainda crianças, estão habituadas a achar que não têm direitos e que não podem gostar nunca de si próprias. Há ainda espaço para acompanhar o trabalho que a ONG faz no terreno, tirando as meninas destes ambientes e permitindo que possam ir à escola, com o objetivo de que, um dia, também elas venham a ajudar o seu país a desenvolver-se.

A ENTREVISTA

O que variou esta das outras séries? A realidade foi mais dura do que as anteriores ou foi simplesmente diferente?

Foi simplesmente (não sei se “simplesmente” é uma palavra que se adeque) diferente porque nós nesta terceira série decidimos ir para países não de expressão portuguesa para percebermos e dar a perceber às pessoas que estas dificuldades, estas carências, estas necessidades não são exclusivamente dos países de expressão portuguesa. (…) Escolhemos o Haiti para vermos como é que um país muito pobre que ficou ainda mais pobre está a sobreviver depois de uma catástrofe. Fomos ao Sudão do Sul, sendo a primeira equipa portuguesa a fazer uma reportagem neste país que é o mais novo do mundo. Quisemos ir sentir essa energia da independência e como é que um país independente com tanta guerra para trás está a sobreviver, onde há muita muita pobreza. E a grande dificuldade nesta série está na parte técnica, uma vez que estas pessoas não falam o português. No Haiti foi o francês, no Sudão do Sul o inglês, mas sempre com tradutor e quando há tradutor há uma espécie de barreira dos afetos. Eu estou habituada a comunicar com as pessoas tocando, falando e abraçando e com o tradutor torna-se mais complicado. Mas em termos de histórias e na sua riqueza não se perde nada nesta série. Há talvez histórias mais duras e mais violentas, mas é a prova de que o mundo não tem fronteiras e há pobres em todo o mundo.

Referiu que estes sete anos a tornaram uma mulher e uma mãe diferente. Sente que o “Príncipes do Nada” a tornaram uma educadora mais rígida?

Sim, eu acho que fiquei mais exigente, ainda que a minha própria educação sempre tenha sido de alerta e muito pedagógica no sentido em que sempre me passaram valores de cidadania. É talvez essa uma das razões pelas quais eu faço este programa, porque eu acredito na educação pela cidadania e acredito que todos nós podemos formar seres mais responsáveis. Estas alturas em que me deparo com realidades tão puras são boas para refletir acerca daquilo que somos e o que podemos fazer pelos outros e consigo perceber que é preciso fazer um esforço para conseguir passar valores importantes na vida dos meus filhos. E portanto, sim, sou rigída e não tenho qualquer receio em mostrar-lhes as duras realidades que são apresentadas em “Príncipes do Nada”, ainda que faça um filtro, porque há coisas que são dolorosas demais.

Como é que consegue sair daquela realidade e voltar para cá e deparar-se com uma vida tão mais fácil e com tão menores dificuldades?

Eu acho que é uma oportunidade. Eu tenho uma oportunidade. Sou uma priviligiada no sentido em que tenho a oportunidade de poder contas às pessoas como é que outra grande parte do mundo vive. E por mais cansativo que seja, acho que seria de um egoísmo total eu deixar de fazer isto quando a RTP me dá esta oportunidade e portanto faço as minhas limpezas interiores e a minha gestão, conto aquilo que acho que devo contar, há coisas que não consigo contar, há coisas que só falo com o realizador. Há um certo isolamento, às vezes fico um bocado fechada. Mas como é que eu vou contar certas coisas às pessoas e à minha família? Há coisas que se vivem que nem se conseguem explicar.

Qual foi a história que mais a sensibilizou neste terceira série de “Príncipes do Nada”?

É difícil e sabes qual é o problema? O problema é que nós abordamos diferentes temáticas, dentro daquilo que é o nosso grande objetivo, apoiar as Nações Unidas nos oito objetivos de desenvolvimento do milénio e portanto tentamos abordar as várias áreas, desde a saúde ao ambiente, à educação, tentamos ir às mães, aos filhos, aos idosos… São várias temáticas que acabam por custar muito abordar. Mas se tiver mesmo mesmo de destacar um episódio, acho que este primeiro programa da terceira série é avassalador. É uma história sobre uma ONG, a Confident Children out of Conflit, que é absolutamente extraordinária onde nos deparamos com uma senhora Ugandesa que foi para o Sudão do Sul ajudar as crianças. Crianças de 5 e 6 anos que foram violadas e que me custa muito saber acerca das suas curtas mas já tão dolorasas vidas.

Abordar estas histórias de crianças tão pequenas é doloroso mas necessário?

Completamente. É uma necessidade enquanto cidadã e para a qual despertei há 11 anos quando fui convidada para ser embaixadora das Nações Unidas, onde me são dados dossiês que tenho obrigatoriamente de estudar e quando, de repente, vejo aqueles números eu quero não só decorá-los mas procurá-los e tentar, ao máximo, ajudar. Quando eu leio que há não sei quantas pessoas a morrer de SIDA e depois vou a Moçambique e vejo as pessoas a morrer e nem sequer é inicialmente de SIDA, é a falta de comida e depois se têm os anti-retrovirais não os conseguem absorver porque o organismo precisa de comida e portanto o estômago rebenta… São coisas que não se conseguem aceitar. Eu estudo os dossiês e quanto mais os estudo, mais quero trabalhar e mover-me por combater estas realidades. É uma missão. Este programa é uma missão para mim e confesso que é uma missão que tem de ser encaixada nos outros projetos que a RTP me dá e eu tenho de conseguir conciliar.

Consegue ver resultados na vida real deste programa e desta sua missão?

Imensos. E é uma das coisas que eu sempre disse que queria que acontecesse, que depois da transmissão do programa se vissem ações. E é uma coisa que acontece imenso. Quer na primeira, quer na segunda edição do programa nós tivemos dados concretos  do aumento do voluntariado, por exemplo, pessoas que telefonavam para a produtora e para a RTP a perguntar como poderiam voluntariar-se para projetos com os mesmos objetivos. Depois, só para teres uma noção, há todo um processo logístico, e ainda bem que agora temos o facebook e novo site do projeto, em que é necessário explicar às pessoas que eu não tenho armazéns. Porquê? Porque as pessoas querem dar tudo. E querem dar-me a mim como se eu tivesse um enorme armazém para por tudo. Portanto, vê-se as pessoas a querer dar. E, para além disto, as pessoas querem informar-se. Eu sou solicitada para ir falar a escolas e universidades sobre estas coisas e fico muito feliz por haver pessoas a querer saber mais.

Depois destes sete anos de tanto confronto com realidades tão distintas, o que mudou na Catarina Furtado, mulher, atriz, apresentadora de televisão?

Estou uma pessoa mais tolerante. Compreendo melhor o ser humano. Mas não me tornei mais tolerante em relação àquilo que vejo, tornei-me mais tolerante ao meu outro mundo. As pessoas são seres muito complexos e esta coisa de julgar as pessoas muito facilmente deixa-me incomodada. Para te dar um exemplo, ainda há pouco tempo estive a gravar uma reportagem para o programa na prisão de Tires e aquilo não é fácil. Eu estive a falar com as mulheres que lá estão detidas e que são mães. Portanto, falei com elas, percebi a realidade que as envolvia e segui-as até à Casa da Criança, uma instituição colada à prisão de Tires, para onde vão os filhos dessas mulheres. Imagina, as crianças ficam até aos três anos na cela (a lei agora vai mudar essa idade para os cinco anos, não concordo, mas é a minha opinião), depois disso vão para esta instituição e passam a ver a mãe à quarta e ao domingo… É uma situação muito complexa. Portanto, quando eu digo que me tornei mais tolerante é na medida em que oiço as pessoas e apesar de toda a sua realidade tento compreendê-las. Para além da tolerância, tornei-me mais impaciente. Nunca deixo para amanhã o que posso fazer hoje. O que é horrível, quando tenho toda a gente à minha volta que me diz exatamente o contrário. Mas eu não consigo, é mais forte do que eu. Tornei-me mais elástica. E, apesar de gostar muito do meu país, abri as minhas fronteiras. Percebo hoje que as fronteiras têm de desaparecer para podermos ter um equilíbrio neste mundo.

No sábado, dia 17, parte rumo à Índia para mais gravações. Expetativas?

Tenho muitas. Primeiro porque tenho uma ligação muito especial à Índia, porque tenho antepassados de Goa, mas depois porque vamos andar por muitos sítios e acompanhar a rota de alguns portugueses que também estão lá. Mas pronto, não vai haver muito tempo para respirar. Às vezes as pessoas perguntam-me se eu não vi determinado monumento e eu tenho de responder que não, porque nós saímos cedo e andamos todo o dia a trabalhar para conseguir fazer boas histórias de apenas 10 minutos.

 Não perca, “Príncipes do Nada”, segunda-feira, às 21h00, na RTP1. 

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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