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Artistas nacionais às avessas com a Secretaria de Estado da Cultura

“Loucura” foi a palavra encontrada pelo ministro grego para caracterizar a falta de um Ministério da Cultura em Portugal. Pavlos Geroulanos defende que os artistas são os melhores embaixadores de um país e “o melhor investimento” na sua imagem nacional.

No início da actual legislatura, o Governo português decidiu extinguir o Ministério da Cultura afirmando que este sector não justificava um ministério. E a nova Secretaria de Estado da Cultura gerou uma onda de indignação entre os artistas nacionais. O Propagandista Social entrevistou  Claudio Sá, Filipe Melo e João Lemos, que se sabem hoje mais desvalorizados.

Claudio Sá, realizador de filmes de animação que recentemente viu a sua curta-metragem “Lágrimas de Um Palhaço” ser seleccionada para Cannes considera que com a conjuntura económica que o país atravessa “o governo define outras prioridades e cada vez aposta menos na Cultura. E o pouco que há é sempre para os mesmos. Aos jovens resta uma longa batalha comandada pelo sonho e ambição”.

O realizador refere ainda que a desvalorização da Cultura não é apenas um problema do Governo. É também um problema das produtoras que preferem apostar no estrangeiro e parecem ter esquecido a velha máxima de que o que é «nacional é bom». “As produtoras deviam apostar mais nos jovens com ideias, assim como os festivais deviam divulgar sem medo os projectos de escola e sem orçamento. Nas salas de cinema antes de passar o blockbuster americano podiam cortar um anúncio publicitário e passar uma curta portuguesa…”

João Lemos, ilustrador português que já trabalhou para a Marvel e que no início deste ano participou na ilustração do livro de contos da série americana “Once Upon a Time”, sublinhou numa entrevista dada ao Propagandista Social há uns meses atrás que o maior problema é o distanciamento e falta de interesse dos portugueses em relação à Cultura. “Salvo um ou outro terraço nas costumeiras torres de marfim, estamos rodeados de uma postura marcada pela distância. Pior ainda, o português ainda tem medo de cultura, ainda sabe dos museus apenas através do relato, à hora do jantar, dos filhos que lá foram com a turma. O português médio esgota um coliseu para ver uma fadista aclamada ou entope uma exposição de pintura no último fim-de-semana porque o professor Marcelo assim o recomendou, como cabe aos patriarcas, mas não vai a uma casa de fados ouvir o que aí anda de novo ou a um dos belíssimos museus nacionais se não tiver cá uns amigos estrangeiros ou os primos da Suíça para passear.”

Para este ilustrador nacional o desinvestimento na Cultura começa em casa. “A ideia de que a cultura não diverte, não nos toca, nem nos deixa mais envolvidos com o mundo e nós próprios, que é um processo hermético para burgueses afectados” pode contaminar a intervenção artística. No entanto, João Lemos diz ainda que os criadores também têm responsabilidade e que não sabem atrair o público e mostrar o seu trabalho. “O público não sabe o que está a perder e, muitas vezes, os criadores não sabem dialogar com esse mesmo público.”

Filipe Melo, pianista de Jazz, realizador e autor de banda-desenhada já ganhou vários prémios, tanto a nível nacional como internacional, mas teve que abrir caminho para o seu trabalho através do seu esforço e persistência. “Sempre defendi que Portugal era um país de excepção para as pessoas ligadas ao meio artístico, por causa da diversidade estilística, do talento local e das oportunidades que existiam para a inovação e experimentação. Sinto que esse tempo acabou. Já não consigo defender ou elogiar o nosso país no que diz respeito ao apoio às artes, com imensa pena. Soube há dias que os concursos pontuais e anuais para apoios financeiros às artes foram cancelados. Há poucas semanas, as notícias informavam do congelamento dos apoios do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA). É, em suma, uma mensagem do Governo para todos os artistas: “Get a job.” Mas o descontentamento dos artistas portugueses não fica por aqui, Filipe continua: “Para fazer cinema, música, teatro, é preciso ter investimento. É o que acontece nos países civilizados. Há o espectáculo que sobrevive da bilheteira (e, mesmo assim, agora é difícil, porque o público tem os tostões contados), mas o outro, que vive da paixão de minorias, como o jazz, no meu caso, fica agora marginalizado nos clubes e não aos auditórios das Câmaras Municipais, onde era regularmente apresentado com a merecida dignidade.”

Tem sido muito discutida a extinção do Ministério da Cultura e a sua actual designação de Secretaria de Estado, que demonstra o valor que a classe política atribui à Cultura. O Ministro grego criticou, e os artistas nacionais protestaram. Filipe Melo não considera relevante a discussão da designação dada à pasta da Cultura. “É importante ir ao fundo da questão, que é a total falta de respeito pelo meio artístico demonstrada pela classe política. Porém, mais tarde ou mais cedo, as consequências vão surgir. As artes dão um rumo à vida das pessoas – como artistas, espectadores ou ouvintes. Uma sociedade que não investe nas artes é como uma sociedade que não investe na Saúde ou na Educação. Vai, sem qualquer dúvida, tornar-se uma sociedade pior, onde a qualidade de vida se degradará, e onde, num curto espaço de tempo, esta infelicidade e falta de criatividade influenciará todas as outras áreas que preocupam a classe económica. É, resumindo, um grande tiro no pé (e, visto que Portugal está coxo, não é uma boa ideia).”

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Jornalista Estagiária numa publicação mensal e amante de Cinema e da Cultura nacionais

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