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David Fonseca: «precisamos de uma cultura viva e presente no nosso dia-a-dia» (leia a entrevista)

David Fonseca 2 (bt Paulo Segad úes)

David Fonseca editou em março “Rising”. Em setembro chega “Falling”.  Entre as “Seasons” e a meio de uma digressão pelo país, o Propagandista Social falou com o músico sobre o novo trabalho discográfico, a digressão e os videoclips. Quisemos saber se no estado da cultura portuguesa se sente uma “Superstar” e sabe “What life is for”.

Propagandista Social (PS): “Seasons” é um “disco cronológico. Trata-se de um diário?

David Fonseca (DF): Sim, um diário em forma de música. Um recorte dos momentos fugazes que têm lugar durante um ano inteiro, uma tentativa de agarrar esse ano e transformá-lo numa história viva.

PS: Como foi o processo criativo e produção?

DF: Muito intenso e insistente. Adquiri uma certa disciplina ao longo do tempo e acabei por trabalhar de forma concentrada e direcionada todos os dias desse ano. Gravei centenas de ideias durante o ano e depois agarrei naquelas que me pareceram mais relevantes para o projeto.

PS: O que traz “Seasons” de novo relativamente aos álbuns anteriores?

DF: Em primeiro lugar, o seu ponto de partida. Em oposição à feitura de um disco mais tradicional, a forma que o gerou fez com que fosse a sítios completamente diferentes de outros discos no passado. Traz novas sonoridades, novas abordagens e alguns extremos que a minha música nunca havia experienciado.

PS: Para além do período de gravação, o que diferencia “Rising” e “Falling”?

DF: Diferencia-os os ambientes nos quais viveram, o primeiro escrito em plena digressão e o segundo num período mais calmo e caseiro. Isso determinou as vivências que os afectaram e a forma como soam no final, mas há uma grande linha de ligação entre os dois e que sugere uma certa ideia circular de todo o projeto.

PS: O novo álbum tem participações especiais de vários artistas. Como surgiram essas parcerias? O que acrescentam de novo à tua música?

DF: As parcerias surgem pela vontade de associar outros universos musicais ao meu. O Rui Maia trouxe o seu mundo electrónico, a Catarina Salinas trouxe a sua voz quente, o Filipe Melo veio com o seu piano etéreo e o Hélder Gonçalves dos Clã com o seu baixo irrequieto, tudo características que acrescentaram coisas diferentes aos temas. E também tive a colaboração de sempre da minha banda, Sérgio Nascimento, Nuno Simões, Ricardo Fiel, Paulo Pereira e Francisca Cortesão, que conhecem a minha forma de trabalhar e estão sintonizados nas minhas opções musicais.

David Fonseca 1 (by Paulo Segad úes)

PS: Escreves, compões, produzes todo o disco. Até que ponto podemos interpretar estas músicas como auto-biográficas?

DF: Todas as canções que faço têm um lado claramente auto-biográfico, não sei escrever de outra maneira. Por vezes acho que seria mais fácil criar personagens e levá-las a sítios diferentes, mas só me sinto confortável a cantar sobre algo que me motiva pessoalmente e que reflete as minhas vivências de modo direto.

PS: Para além da música, és também responsável por tudo aquilo que envolve imagens. Tal acontece porque não há ninguém que consiga expressar melhor a música que o seu criador?

DF: Não necessariamente por isso, porque a interpretação de outros pode ser muito interessante e trazer coisas novas ao meu trabalho, mas o facto é que estou sempre muito próximo de tudo o que se passa e torna-se fácil para mim abordar os vários pontos da minha atividade. Mas, acima de tudo, faço-o porque é muito divertido.

PS: Em criança querias ser carteiro por andar de um lado para o outro. De que forma é que a música veio colmatar esse desejo de mobilidade?

DF: De todas as maneiras, acho que esse desejo de mobilidade foi colmatado de forma bem mais gigante do que com a profissão de carteiro.

David Fonseca 4 (by Paulo Segad úes)PS: As tuas anteriores digressões tinham uma grande componente cénica. Já há planos para a próxima tour?

DF: Planos há sempre e estamos sempre a trabalhar para que as digressões sejam especiais. Esta não é diferente e estamos a caminho de encontrarmos algo que possa servir este disco e o espetáculo que vem com ele.

PS: Sentes-te uma “Superstar”?

DF: De todo. Sinto-me uma pessoa com sorte de fazer aquilo que gosta e de perseguir aquilo em que acredita todos os dias.

PS: O setor da cultura em Portugal não atravessa a melhor fase. A internacionalização é cada vez mais uma aposta?

DF: Trabalho na internacionalização há alguns anos e é sempre um caminho longo de percorrer, mas não é a solução para melhorar o nosso sector da cultura nem a minha profissão. Mais do que nunca, precisamos de uma cultura viva e presente no nosso dia-a-dia, como identificação do que somos e da nossa forma de estar. Mais do que internacionalizar a minha música, continuo a lutar para que ela esteja viva no nosso país e que possa continuar a fazer parte da vida de quem me rodeia de forma mais próxima.

PS: Afinal de contas, “What Life Is For”?

DF: Não sei, mas espero que a canção possa ajudar-me a descobrir.

Oiça “What life is for” de David Fonseca:

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