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Virgem Suta: «Somos gajos normais» (leia a entrevista)

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Os “Virgem Suta” abriram-nos a porta do seu “Doce Lar”, o próximo álbum a ser editado pela dupla de alentejanos segunda-feira (14). O Propagandista Social conversou com Jorge Benvinda e Nuno Figueiredo sobre o novo trabalho, as novas roupas, e aproveitámos para saber se é possível viver da música.

Propagandista Social (PS): Qual é o balanço que fazem do vosso percurso desde o lançamento do primeiro disco?

Jorge Benvinda (JB): É um balanço positivo. Nós viemos de Beja, éramos uma banda completamente desconhecida, tivemos muito tempo a trabalhar e a criar músicas, com vontade de editar um álbum. Queríamos aquele “pack”: conseguir ter uma editora, uma equipa, músicos para tocar e em quem pudéssemos confiar. Conseguimos ter um produtor incrível, o Hélder Gonçalves, com quem estávamos a trabalhar há algum tempo no primeiro álbum. Os últimos dois anos foram cheios de concertos, numa altura em que ainda não havia uma grande crise, com muita divulgação. Percorremos o país em promoção com a banda, fizemos festas de todo o género. Fomos a festas populares onde só ia música pimba e pela primeira vez, houve sítios onde puseram música portuguesa de outro género, com mais rock, pop. Conseguimos ir à Hungria, ao Canadá… Conseguimos divulgar, da forma que queríamos, a nossa música. Foi muita luta, tivemos que trabalhar muito para isso. Crescemos interiormente e musicalmente.

PS: Foi muito difícil encontrar uma editora?

Nuno Figueiredo (NF): Foi muito natural. Quando gravámos o primeiro disco, decidimos mostrar as maquetes. Já haviam algumas editoras interessadas antes até de mostrarmos – tínhamos gravado já um EP. Mas nessa altura nós resolvemos mostrar a várias, e depois foi escolher a melhor. Demorou muito até conseguirmos porque estávamos a trabalhar com música que, pelos vistos, ninguém ouvia. Tivemos a sorte de em 2009 muita gente se ter virado para este tipo de música, e foi muito mais fácil. Os agentes que promoviam música estavam todos virados para aquilo. Nos anos anteriores não estávamos a fugir muito a isso, e ninguém olhava, estavam-se borrifando para aquilo. Achavam foleiro. Foi tudo uma série de ‘sortes’ que se foram encadeando e levaram a isso. A editora até não foi das coisas mais difíceis, tivemos até possibilidade de escolher, mas uns anos antes, nem sequer queriam ouvir falar…

JB: No tempo das cassetes mandávamos para aquela lista de editoras, mandávamos para todas e ninguém queria saber…

NF: Andávamos a fazer coisas que ninguém queria saber, tinham outros objetivos.

PS: Em que se inspiraram para criar o “Doce Lar”?

NF: Este disco é o nosso abrir de portas e ver o mundo de outra forma. É diferente do ambiente do outro disco, que era um universo mais fechado. Todas estas experiências nestes dois anos foram muito mais o mundo, e sem querer dás por ti a falar de outras coisas, a imaginar a música e os ambientes também de outra forma. Acho que tudo isso influencia. Estamos sempre a crescer. A experiência que tivemos foi o que permitiu essa alteração neste disco.

JB: Também foi um olhar social. As histórias acabam todas por ter um lado social forte. Sem nos apercebermos, vamos escrevendo, compondo… Há sempre um olhar sob a forma de como vemos as histórias, o mundo , o nosso quotidiano português também. Criámos uma ligação um pouco ácida, irónica, não dando uma visão de “desgraçadinhos” às canções. Mas pretendemos espicaçar quem as ouve.

PS: De que falam as novas músicas?

NF: A ideia é fazer um disco que tenha alguma coisa a acrescentar e que não sejam meras faixas que vão passando. Não é que a tenhamos a presunção de estar a ensinar seja o que for, porque também não sabemos grande coisa. Mas o pouco que vamos observando, gostamos de materializar nas músicas… e que isso faça algum sentido para as pessoas mais atentas! Estas sei que ligam. Uma das dúvidas que tínhamos era se aquilo que fazíamos tocaria as pessoas. E percebemos que sim. No primeiro disco isso foi uma das coisas que mais tocou às pessoas. Enquanto criadores, é nosso dever acrescentar alguma mais-valia àquilo que vamos fazendo, seja música pop, tradicional portuguesa, o que for. Temos de completar, temos de ter sempre alguma coisa para dizer.

PS: Têm alguma favorita ou especial?

JB: Gosto de todas, mas há umas que me vão dar muita pica tocar. “Comer e Calar” é uma canção fabulosa. Se meteres a seguir o “Exporto Tristeza” e o “Se Deus Quiser” – tens aqui três canções que são muito fortes, em termos de letra, e que podem fazer pensar um bocadinho.

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PS: Além deste novo olhar sobre o mundo, também mudaram de guarda-roupa. Por alguma razão em especial?

NF: Foi completamente despreocupado (risos).

JB: Curiosamente até tínhamos lá mais uns fatitos, umas brincadeiras… Mas há coisas em que o guarda-roupa se vai misturando, vai havendo cidades em que me apresento com um casaco ou outro fato, e meto os sapatos… É também a vontade de brincar com outras peças. No meu caso, no primeiro álbum, uso um do meu pai em todos os concertos. A gravata também era sempre a mesma e era dele. Havia montes de gente a pedir-me a gravata e eu: «epá, não dá, isto é do meu velhote» (risos). Neste [álbum] andamos a brincar com algumas peças porque temos vontade disso. Há aí algumas canções que dá vontade de ter uma outra atitude. O importante é que nos consigamos sentir bem a tocar, que tenhamos a postura, e que o fato remeta a uma brincadeira com o público.

PS: No primeiro álbum colaboraram com Manuela Azevedo. Alguns planos para novas colaborações neste álbum?

JB: Para já ainda não sabemos. São coisas que já falámos, pensámos, mas que ainda estão guardadas.

NF: Temos músicos convidados no disco, isso temos. Temos o Nico Tricot, o Nuno Rafael, o Nuno Alvez, o Hélder Gonçalves e o Miguel Ferreira. Gostamos de partilhar. Quando apresentamos o disco,queremos que não haja elementos distratores. O disco quando surge somos nós: é o trabalho virgem, puro. Depois vamos completando. Houve participações musicais que não aconteceram e vamos contar com elas mais à frente. Vamos deixar a música amadurecer. Com o tempo percebemos que pode ficar bonito, e que pode ficar bem ouvido na voz de alguém.

PS: O que é que sentem prestes a lançar o novo álbum?

JB: Eu nunca perdi o nervosismo (risos). Isto mexe muito comigo. Sinto-me muito vivo. É das melhores coisas que nos podem acontecer. São sonhos, e todo este desenlace de álbuns e de experiências de contacto com pessoas, com jornalistas, com conversas, com câmaras, com uma série de coisas, e depois com os concertos… isto mexe muito connosco. Para nós é um orgulho incrível, e um gosto muito grande conseguir estar a mostrar as nossas canções. Temos uma adrenalina muito grande, isto é uma droga que nos consome muito tempo. Deixamos a coisa correr, e seja bem-vindo o erro, que na altura logo se resolve. Estamos desejosos de começar a tocar ao vivo.

NF: Uma das coisas que se sente é que até agora as músicas eram nossas, e agora deixam de o ser. Eu sinto que a partir de dia 14 elas passam a ser de toda a gente. Isso é engraçado se pensar como tudo nasceu: em casa, num processo muito solitário. Depois dás por ti, meses à frente, é de quem as agarrar! Mas é giro porque é algo que não se vê, mas que existe e que passa. É mágico. É algo que não se vê mas que toca as pessoas. Passa da nossa para a dimensão de toda a gente, o que é ainda mais fantástico.

PS: Agora vão iniciar a promoção do álbum…

JB: Agora é promoção e tocar. O que queremos fazer neste momento é divulgar este trabalho, divertirmo-nos, e as coisas vão surgindo gradualmente. Há coisas que gostaríamos de fazer: tocar lá fora, tocar em festivais. Ainda talvez novas parcerias com mais uma nova edição, mais alguma canção, algumas coisas à volta disto. É deixar tudo amadurecer.

PS: Acham que ainda é possível viver da música?

JB: Não sei se é possível viver da música ou não. Trabalho também com restauração – tenho duas tabernas em Beja – juntamente com a música. O que ganho com o restaurante permite-me investir na música, mas depois se o Verão é mau, a música manda para lá… Está tudo encadeado e é uma luta grande, sempre a meter o pescoço de fora, com colaboradores, e uma série de gente. Mas se tivesse a viver só disto, se calhar até dava, se calhar conseguia tocar mais, inventa-se mais, tinha que trabalhar ainda mais e de outra forma.

NF: Tem dias, é irregular, nunca se sabe. Depende do sucessos dos discos, nunca se sabe.

JB: É tudo uma questão do que tu gastas em relação ao que tu ganhas, a gestão é feita dessa forma. Eu como não tenho BMW, se calhar até dava. Nós acabamos mais por viver com, do que por viver de… Somos gajos normais (risos).

Consulte a agenda dos Virgem Suta:
14 de Maio – Showcase na Fnac do Chiado
19 de Maio – Mértola, na Semana da Juventude
23 Maio – Apresentação no TMN ao Vivo, com lançamento do vinho “Virgem Suta”
7 Junho – Concerto em Arraiolos
9 Junho – Concerto em Vila Nova de Milfontes (Feira de Turismo de Milfontes)
12 Junho – Concerto em Serpa (Festival “IX Encontro de Culturas”)

Veja o vídeo de “Beija-me Na Boca”, o primeiro single de “Doce Lar”:

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