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Diário do Rock in Rio: Dia 2, o dia do "Oceano Pacífico" (ou de Stevie Wonder) (crítica)

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O penúltimo dia do Rock in Rio Lisboa 2012 terá sido uma maravilha para os ouvidos do locutor João Chaves, afinal o Palco Mundo mais pareceu ser uma das emissões do famoso programa de rádio "Oceano Pacífico". O dia começou com os portugueses The Gift. Seguiu-se a doce mas poderosa Joss Stone e o não menos romântico Bryan Adams. Para o final ficou reservado um dos  ou mesmo o maior nome desta edição do festival: Stevie Wonder.

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Palco Mundo

The Gift

O dia prometia ser de inverno mas os The Gift trouxeram a “Primavera” para o Parque da Bela Vista. O sol deu à luz, tal como Sónia Tavares que obrigou à paragem do grupo por alguns meses. O regresso não poderia ser melhor: a estreia no palco principal do RiR. “Driving You Slow” conduziu centenas de pessoas para a frente do Palco Mundo – estava a começar o concerto. Seguiu-se  “RGB” e “Made For You”, faixas do álbum “Explode”. A música cheia de alegria e cor prolongou-se ao look e aos instrumentos dos músicos e contagiou as dezenas de milhares de festivaleiros. O ritmo acalmou com “Fácil de Entender” cantado em uníssono pelo coro da Bela Vista (com dezenas de milhares de pessoas desde cedo!). Ora estando na mira de tantos olhares, Sónia Tavares não deixou passar a oportunidade e apelou à solidariedade dos festivaleiros para ajudar a “Casa do Gil” (afinal também disso se faz o espetáculo). A música voltava com “Ok! Do You Want Something Simple?” e “Film” do velhinho disco “Vinyl”. De álbum em álbum, os The Gift voltavam a “Explode” para o eletrizante (não fosse a música dos anúncios da EDP) “The Singles”. Nuno Gonçalves não resistiu e saltou do piano para juntar-se a Sónia, a quem dedicou a música que se seguia: “Primavera”. O concerto que passou num instante terminou com mais um êxito, “Music”, que fez Sónia ajoelhar-se perante o público que cantou e encantou a uma só voz.

Poderia ser coincidência mas o mais provável será não ser. Aconteceu ontem com os Expensive Soul e hoje com os The Gift: os habitantes da cidade do rock concentraram-se em frente ao Palco Mundo. É a prova de duas coisas: os portugueses gostam de ouvir boa música portuguesa; e os músicos portugueses têm categoria para estar no palco principal de qualquer festival.

No caso dos The Gift ficou provada a versatilidade da banda que apresentou em palco tanto músicas ritmadas como as mais intimistas, perfeitamente adequadas tanto a um CCB como ao RiR.

Joss Stone

Os fãs eram muitos, vindos de todos os cantos do mundo, mas qualquer viagem é justificável quando o motivo é Joss Stone. De pés descalços e com um comprido vestido lilás, a cantora entrou em palco de forma imponente mostrando desde logo a sua capacidade vocal.

Surpreendida com a quantidade de gente que a esperava no Parque da Bela Vista, Joss esteve em palco durante aproximadamente uma hora. Com os êxitos reservados para a fase final do concerto (o melhor vem no fim!), a princesa da Soul aproveitou a passagem por Portugal para apresentar algumas músicas do novo álbum “LP1”. “Stoned Out Of My Mind”, “Karma” e “Big Ol’ Game”, apesar de pouco conhecidos, arrancaram fortes aplausos aos festivaleiros sempre participativos e em sintonia com a cantora. A simpatia e e a pose descontraída de Stone são de facto um dos seus trunfos para conquistar o público, e ela sabe usá-los como ninguém.

A música seguia com medleys e covers pelo meio. Em “Don’t Cha Wanna Ride”, a cantora interpretou “You Got The Love” de Florence & The Machine (que atuam no Optimus Alive em julho). Houve ainda tempo para interpretar “Fell In Love With A Boy” dos White Stripes, música que a levou ao estrelato. Para o final estavam guardadas algumas das músicas mais conhecidas da britânica. “You Had Me” e “Right To Be Wrong” foram entoados a pulmões cheios pelo público do RiR.

Apenas com 25 anos de idade, há muito que Joss Stone conquistou o seu lugar na música. Ao longo dos últimos anos a cantora perdeu o protagonismo para a conterrânea Amy Winehouse mas manteve-se fiel a si mesma e hoje é uma cantora com cara de menina e voz de diva da soul.

Bryan Adams

Era um dos nomes mais aguardados da noite afinal Bryan Adams faz questão de alimentar uma relação cada vez mais íntima com os fãs portugueses. O concerto desta noite foi mais uma noite de amor que fica para a história.

Em formato de festival, Bryan escolheu para o concerto no RiR um alinhamento dominado pelos êxitos de uma carreira de 35 anos para gáudio dos portugueses. “I Do It For You”, “Summer of 69” e “Heaven” foram alguns dos temas que levaram o público do RiR a cantar em uníssono com o músico.

Esta foi uma viagem pelo tempo e, sem darmos por isso, aos primeiros instantes estávamos em plena década de 1980, ao som de “Somebody”. O tempo passa, mas não por Bryan que (pelo menos em palco) apresenta a mesma energia do antigamente correndo de um lado ao outro do palco, interagindo com o público, e fazendo vibrar o Parque da Bela Vista como poucos o fazem. É de mestre.

De mestre ou não foi também a escolha de Vanessa Silva para interpretar em palco com o cantor “When You’re Gone”. Ele perguntou quem queria subir ao Palco Mundo e de entre as dezenas de milhares de pessoas teve logo que escolher uma das mais poderosas vozes portuguesas da atualidade. No mínimo, suspeito!

Mais umas guitarradas pelo meio e o concerto entra na reta final com Bryan Adams em modo acústico e já sem banda em palco. Apenas ele e o público cantaram “All For You” para encerrar mais um espetáculo digno de alguns arrepios, tal foi a troca de energias entre o músico e os festivaleiros em sintonia em sucessivos coros.

Para Bryan uma pequena nota: o passado é de sucesso e continua bem presente na memória de todos, mas introduzir no alinhamento algumas novidades não seria má ideia, afinal um artista deste gabarito tem de renovar-se às vezes.

Stevie Wonder

No meio de tanta rock instalou-se no Parque da Bela Vista uma festa espiritual e de celebração da vida. Entre tantos artistas, só havia um capaz de o fazer: Stevie Wonder. O músico entrou em palco já a tocar passando depois para o piano, ao som de “Hot Sweet It Is”, música celebrizada por Marvin Gaye. Este seria apenas uma colaboração virtual com uma imensidão de outros artistas, não bastasse já o reportório de Wonder: para além de “Hello, I Love You” dos Doors e “Garota de Ipanema”, o público até teve direito a cantar “Você abusou, tirou partido de mim…” incitado pelo músico. O mesmo aconteceu com “The Way You Make Me Feel” de Michael Jackson.

Num alinhamento repleto de tanto êxito ouvido nesta noite, difícil é escolher. Alguns dos momentos da noite terão sido as interpretações de "Part Time Lover", "Master Blaster", "Superstition", "I Just Called To Say I Love You" e "Isn’t She Lovely" (dedicada à filha, Aisha Morris, que se juntou a ele ao piano).

Se este não foi o concerto mais marcante desta edição do Rock in Rio, só Bruce Springsteen o poderá superar (e duvido que o faça). Ao longo do concerto, Stevie não perdeu a oportunidade para exaltar o amor, a esperança e a alegria entre os presentes. Da mesma forma que calmamente entrou em palco, assim foi todo o concerto: sem pressas e para total desfrutação da música tão rica que os portugueses já ansiavam ouvir há mais de duas décadas. Bravo!

Fotos: Rock in Rio

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