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Diário do Rock in Rio: Dia 3, o dia do adeus ou do Boss (crítica)

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O último dia do Rock in Rio levou ao Parque da Bela Vista um público mais velho e mais heterogéneo, tal como o cartaz o indicava. Os Kaiser Chiefs abriram o Palco Mundo com uma viagem de slide, mas sem levantar poeria, afinal o público esperava pelos James que chegaram a seguir para um concerto revivalista. Os reis do rock português subiram ao palco com a categoria de cabeças-de–cartaz e Bruce Springsteen fechou a edição 2012 do festival com chave de prata, ouro e diamante.

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Palco Mundo

Kaiser Chiefs

“Never Miss A Beat” abriu aquele que não viria a ser apenas “mais um concerto dos Kaiser Chiefs em Portugal”. Tudo porque Ricky Wilson, o imprevisível vocalista do grupo, resolveu desta vez experimentar o conhecido slide que liga o Parque da Bela Vista de uma ponta à outra, enquanto cantava “Take My Temperature”, a penúltima música do alinhamento. Como se nada tivesse acontecido, o músico continuou a cantar, percorrendo novamente o recinto, enquanto o público continuava incrédulo.

Para trás no alinhamento ficaram temas tão emblemáticos como “Ruby” (o mais conhecido da banda a avaliar pela reação do público), “I Predict A Riot”, “Everyday I Love You Less and Less” e “Everything Is Average Nowadays”.

Para aqueles que não conseguiram assistir a mais um belo concerto (mas com sabor a pouco) dos Kaiser Chiefs não há que desesperar. Afinal eles estão de regresso em breve. O grupo atua no festival Marés vivas, em Vila Nova de Gaia, no dia 19 de julho.

James

Ironicamente, o melhor momento do regresso dos James a Portugal foi o fim. Não que o concerto tenha sido mau, mas porque para o final estava reservado “Sit Down”, música que ergueu os braços de uns e sentou outros no chão, a pedido do vocalista.

A comemorar 30 anos desde a sua fundação, os James transportaram o Rock in Riopara os anos 80 – e não é que o tempo não passa por Tim Booth?! Continua o mesmo – física e vocalmente – e isso viu-se (aquelas danças estranhas…!) e ouviu-se. “Ring The Bells”, “laid” e “She’s A Star” abriram o concerto que funcionou como uma jukebox dos 80’s e 90’s. Seguiam-se “Gettin’ Away With It” e “Out To Get” e a reação do público e, em particular, do grupo de fãs entusiasta na primeira fila repetia-se com aplausos e saudações pelo regresso da banda a Lisboa, depois da paragem de 6 anos.

A noite prometia não ser apenas de música e, do alto da sua experiência de palcos, o violinista do grupo, Saul Davies, com a frase “No Jobs 4 The Boys” inscrita no seu corpo, dirigiu-se ao público português: «Sou inglês mas a minha mulher é portuguesa» sentido-se portanto no direito de reclamar o preço da luz e o fecho das escolas do norte do país, onde vive. Aplaudido pela multidão que se havia reunido em frente ao Palco Mundo durante o concerto, Davies deixou recados ao primeiro-ministro português a quem chamou “Coelhinho”.

Nós deixamos um conselho aos James: apesar da má situação em que vivemos temos um público muito acolhedor disponível  24 horas por dia para aplaudir concertos destes… e de graça!

Xutos & Pontapés

Quais senhores do rock em português, os Xutos entraram em palco com categoria de cabeças-de-cartaz – em qualidade, em produção e em multidão que foi aumentando ao longo dia (porque será?!). Os efeitos pirotécnicos deram sinal para o início do espetáculo com “Contentores”.

Poder-se-ia dizer que este foi um alinhamento em modo “deja vu” dos outros concertos dos Xutos no RiR. Mas por mais que tente é impossível apontar o dedo a estes senhores. Certamente que muitos dos presentes na Bela Vista já terão visto os Xutos uma, duas, três ou até muitas mais vezes na vida, mas cada concerto parece sempre único e inovador. “À minha maneira”, “Homem do Leme”, “Circo de Feras” ou “Não sou o único” passados a um ritmo alucinante nas colunas do Palco Mundo e entoadas em uníssono pelos festivaleiros criaram uma atmosfera incrível – um dos momentos mais marcantes desta edição do RiR. Como se não bastasse havia mais: “Dia de S. Receber”, “A minha Casinha” e “Chuva Dissolvente” também lá estavam.

Uma das surpresas da noite estava bem guardada: Kalu juntou-se a Zé Pedro para um momento diferente: a interpretação de “Tonto”.

A pirotecnia voltou para marcar o ponto final do concerto… ou, diria, reticências. É que o RiR volta em 2014, ano em que o grupo comemora 35 anos carreira…

Bruce Springsteen

A par de Stevie Wonder, era o nome mais aguardado desta edição do RiR. O Boss voltou a Portugal e compensou a espera de 19 anos com três horas recheadas de espetáculo. Cabe-me a mim a ingrata tarefa de as resumir aqui.

Já tinha passado da meia-noite quando Bruce Springsteen e a E Street Band entraram em palco. “We Take Care Of Our Own”, do disco “Wrecking Ball”, é o mais recente êxito de Bruce e foi a música que abriu o concerto. Em tempos de crise, a receita para o sucesso é ficar do lado das vítimas, e Bruce sabe-o bem. Sempre defensor dos trabalhadores, “We Are Alive”, a música que dedica aos que perderam o emprego nos últimos tempo, não faltou no alinhamento. De resto, músicas com mensagens fortes, pouco vazias, e que Springsteen faz questão de explicar em palco, é coisa que não falta no seu reportório. “My City Of Ruins” é uma delas. A música teve direito a uma introdução em português pelo próprio cantor: «Esta música fala de olás e adeus e é sobre coisas que vão e sobre coisas que ficam para sempre». Resultado: a apoteose total em Lisboa.

É impossível encontrar defeitos na prestação do Boss em palco. Ele corre, passeia pelo corredor junto ao público, recolhe cartazes, dedica músicas aos fãs, convida admiradores para dançarem no palco e ainda “rapta” uma criança de tenra idade dando lhe a oportunidade pela qual muitos sonham há décadas: cantar o refrão de “Waiting On A Sunny Day”.

A meio do concerto seria natural que muitos fãs pensassem “então mas não canta esta?”. As músicas mais emblemáticas estavam todas guardadas para o fim. A última parte do espetáculo foi um cocktail de êxitos de uma longa carreira. “Born In The USA”, “Born To Run”, “Glory Days” e “Hungry Hearts” levaram o público ao rubro (se é que já não estaria num estado de loucura avançado). Chegava? Sim, mas o concerto ainda não tinha acabado.

“Tenth Avenue Freeze-Out” parecia ser a última música do espetáculo. Chegava? Sim, mas havia mais! Já a noite ia longa, mas ainda com muito bom-humor, o músico deitou-se no chão – é da idade… e do espetáculo – e um dos elementos da E Street Band refrescou-o, e ele recuperou. Veio o fogo de artifício. Era o adeus? Ainda não. Para o final estava reservada a interpretação de “Twist and Shout” em cima do piano. Agora sim, chega.

Isto só pode ser da música, ou do gosto pelo que se faz. À semelhança do vocalista dos James, também o tempo não passa pelo Boss. Com 62 anos, Bruce apresenta em palco uma resistência rara e digna de uma estrela e de um profissional como já não há. No fim do Rock in Rio Lisboa 2012, se este não foi o melhor concerto desta edição, então qual foi?

O RiR despede-se de Lisboa, mas no final fica promessa da Cidade do Rock voltar a instalar-se no Parque da Bela Vista. É só daqui a dois anos? Aposto como passa num instante.

Fotos: Rock in Rio

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