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«Memórias de uma Mulher Fatal» regressa ao palco do TNDMII trinta anos depois da estreia

DSC00872«Memórias de uma Mulher Fatal» é o novo espetáculo do Teatro Nacional Dona Maria II, trinta anos depois da sua estreia. Um texto atual e uma interpretação de Rogério Vieira que merece destaque de quarta a sábado às 21h15 e domingo às 16h15 na Sala Estúdio.

O teatro absurdo torna-se aos dias de hoje cada vez menos absurdo. O que há trinta anos se considerava longínquo, distante e sem sentido, é hoje uma realidade. O absurdo é atualmente o alimento dos humoristas e uma peça como estas não deixou de ter sentido à luz do hoje, tal afirma o protagonista:

“Hoje em dia esta peça não é premonitória, é a realidade.”

DSC00834Espera-nos em cena uma mulher fatalmente poderosa. O seu poder acaba onde começa a sua própria memória. Um objectivo simples: escrever as suas memorias. Olinda é o seu verdadeiro nome, mas a sua própria condição fê-la esquecer-se de quem é.

As máquinas alimentam a sua superioridade e a sua própria fatalidade. Olinda desliga-se das suas origens e da própria realidade através delas.  «Olinda é o meu verdadeiro nome», chega a personagens à conclusão enquanto tenta escrever as suas memórias. Mas afinal que memórias tem esta mulher para deixar? Aquelas que viveu e quer contar, aquelas que viveu e não quer contar, ou aquelas que simplesmente não viveu?

DSC00592O cenário é austero e anguloso. As folhas manuscritas no chão remetem-nos para o passar dos anos e para tudo o que a personagem viveu. O ator fica mais exposto e o contacto com o público torna-se imediato, como afirma Rogério:

«Estamos a viver tempos muito complicados e não vale a pena estar a mascarar as coisas.»

Trinta anos depois a inspiração para o personagem deixou de ser Margaret Thatcher. É uma figura sólida, sem nenhum modelo e que constrói o seu próprio espaço em cena. A estranheza inicial de vermos um homem a interpretar esta mulher fatal desaparece e Olinda torna-se indubitavelmente credível.

DSC00665A ironia marca o texto, e é impossível não tirar fragmentos do nosso próprio quotidiano de cada fala de Olinda. O texto ficou mais denso e politizado, opção da própria encenação, trata-se de uma mulher de peso.

O caminho de a personagem toma é o da loucura, um lado mais pesado e sombrio que depressa se instala, com uma ajuda preciosa das luzes. A obsessão pela vitória torna-se incómoda e desconcertante.

Augusto Sobral concebeu esta peça a partir do início do fenómeno dos travestis. Para o dramaturgo, é curioso que numa época em que as mulheres começaram a ganhar mais poder numa sociedade machista, os próprios homens começaram a vestir-se de mulher.

«Memórias de uma Mulher Fatal» estará em cena até ao dia 23 de setembro.

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FICHA ARTÍSTICA

de Augusto Sobral
encenação e interpretação Rogério Vieira
conceção cénica e pintura Renato Godinho
figurino Maria Gonzaga
desenho de luz Paulo Graça
montagem digital de imagem Jaime Graça
tratamento sonoro e síntese de voz Carlos Zíngaro
fotografias e diapositivos Laura Castro Caldas, Paulo Cintra Gomes
cabeleira Manobras D’Arte
produção Rogério Vieira
M/12

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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