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Luísa Sobral: “Tento ver o lado bonito da tristeza” (Leia a entrevista)

Desde que se estreou em 2011, Luísa Sobral tem pisado palcos nacionais e internacionais, colhido elogios e conquistado fãs, inclusive alguns dos grandes nomes da música.
Com o novo álbum já nas lojas, There’s A Flower In My Bedroom, o Propagadinsta Social procurou saber como evoluiu a música da artista, quais as fontes de inspiração, e qual o processo de preparação do novo trabalho. Saiba tudo aqui!

Depois da tua participação no Ídolos foste para os Estados Unidos estudar. Como foi essa nova etapa?

Logo a seguir [ao Idolos] foi a altura do décimo segundo ano, e fui fazê-lo para lá. Foi uma fase diferente da minha vida. Fui viver para um país diferente, não tinha a minha família, não tinha os meus amigos… Tive de começar do zero. Acho que quando começamos do zero, com pessoas que não nos conhecem, acontece o seguinte: ou algumas pessoas ficam com uma personalidade completamente diferente, ou acabam por afirmar a personalidade que têm. Ali ninguém nos conhece, podemos ser o que quisermos. Eu não mudei a minha personalidade, mas afirmei-a e cresci. Nos liceus lá têm muitas coisas relacionadas com música, onde descobri um pouco o Jazz… Eles têm orquestra, coro, tudo. Isso foi uma grande mais-valia.

Marcou muito não só a tua personalidade, mas também a tua identidade musical? 

Sim. Aí só comecei a ouvir um pouco mais de Jazz, mas depois quando fui para a universidade é que acho que sim, que começou a mudar um bocadinho a minha identidade musical.

Como surgiu a oportunidade de lançares o primeiro disco, The Cherry On My Cake? Era em Portugal que pretendias começar a carreira?

Não, eu estava a viver em Nova Iorque, tinha terminado um EP e queria tentar arranjar uma editora lá. Depois vim a Portugal, trouxe o EP e dei-o a um organizador de festivais, o Luís Montês. Ele disse que ia estar com a diretora da Universal, que podia levar um CD. Ele levou e eles quiseram assinar um contrato.

O sucesso desse álbum trouxe-te novas oportunidades e reconhecimento internacional. Destacas algum momento especial até agora? 

Acho que talvez a ida ao Jools Holland tenha sido assim o momento mais marcante. De repente vimo-nos noutro patamar, eu acho. Pode ser ilusão, porque de repente podemos estar a fazer outro concerto qualquer que não nos interessa tanto. Mas sim, destacaria esse momento.

 Qual ou quais são os músicos, nacionais e internacionais, que te inspiram? 

Em primeiro lugar, os meus. O meus convidados no álbum, são músicos que me inspiram. Inspira-me muito Brad Mehldau, Keith Jarrett, Bob Dylan, Joni Mitchell, Patrick Watson, John Lennon, Paul McCartney…

A composição foi uma das coisas que aprendeste e afinaste nos Estados Unidos, ou sempre tiveste interesse? 

Sempre compus. Desde que comecei a tocar guitarra que sentia essa necessidade de escrever. Primeiro porque para mim não fazia sentido estar a pegar na guitarra e tocar sempre coisas dos outros. Eu começava a escrever uma coisa qualquer e começava a imaginar uma melodia para isso. Sempre fiz isto, desde o início. Obviamente que fui melhorando, crescendo. As composições não têm que ver só com a nossa técnica, mas também com a nossa maturidade e experiência de vida. As letras vão melhorando com isso. Mas sim, foi algo que melhorei lá. Também porque tocava com muita gente de países diferentes, e todas essas experiências enriqueceram-me muito.

Como foi o processo de concepção deste novo álbum? Sabias imediatamente o querias, ou foi um processo mais longo e pensado? 

Quando eu tinha lançado o primeiro já tinha começado a compor coisas para este. Eu não penso em álbuns tipo “agora vou começar a compor para este álbum”. É do género, “agora vou começar a compor”. Apetece-me compor e depois logo se vê se vai para o álbum ou não. Aliás, porque logo a seguir a compor um álbum e pensar imediatamento no segundo, não é algo muito natural. Depois quando começou a fazer dois anos, pensei que já podia começar a fazer o segundo. Tinha muito material que queria mostrar.

O processo basicamente foi juntar canções de que eu gostava, que já tinha tocado também com os músicos e que eles também gostavam, e começar a ensaiar e fazer arranjos. Depois foi marcar o estúdio.

O que é que distingue este trabalho do anterior? 

Por ter sido composto em dois anos e não em cinco como o outro, acaba por ser um disco mais homogéneo. Uma pessoa muda muito mais em cinco anos do que em dois. É mais coerente, homogéneo, mais melancólico que o outro. As personagens são um bocadinho mais profundas, pensei nelas e no que seriam mais profundamente. Outra diferença é que este foi um disco feito por nós, pela banda. Eu no outro, formei uma banda para gravar o disco, e depois para tocarem comigo. O primeiro momento juntos foi a gravar o disco, ainda não havia aquela ligação de banda. Agora já há, e quis dar-lhes liberdade para darem ideias e para porem o seu cunho pessoal. É uma banda de que gosto muito, por isso acabou por ser um disco também muito nosso.

There’s A Flower In My Bedroom parece denotar um espaço mais privado, mais íntimo… Porquê este título? 

São duas coisas diferentes.

A flor é porque quando penso neste disco, as canções são tristes e melancólicas, mas há sempre qualquer coisa de positivo, ou eu tento ver o lado bonito da tristeza. Não é uma coisa super deprimente. Há alguma coisa de bonito nessa tristeza. Gosto disso, de tentar encontrar a parte bonita da melancolia, a parte bonita da saudade. Acho que uma flor é isso: é uma coisa que torna o triste em algo já não tão triste. Também porque quando eu imaginava este disco, eu imaginava o início de uma Primavera. Era o início de alguma coisa, não cheio de flores, mas com uma flor a nascer.

Depois o quarto porque foi o primeiro disco que escrevi, “De Volta A Casa”. Então pensei numa parte da casa. Apesar de compor normalmente na minha sala, living room, acho a palavra bedroom mais bonita. E é realmente um sítio muito mais nosso, muito mais íntimo. Comecei logo a pensar na capa, o que eu queria…

LSB

Tens também esse lado muito visual… 

Sim, gosto mesmo muito desse lado das coisas. Eu acho que um artista deve ser um artista em geral. Não faz muito sentido eu dedicar-me à música, querer tudo lindíssimo na música, e depois não conseguir perceber nada de fotografia. Sou uma pessoa sensível, e sensível em geral. Eu gosto de estar a par de tudo o que se passa, que tem a ver com a minha música.

Descreveste o disco como um disco que fala sobretudo de amor. Falas de amor platónico, não correspondido, idealizado… De onde surgiu inspiração para falares de tantas facetas do amor? 

Filmes, livros, amigos meus… Duas canções são baseadas na história de uma amiga minha, que agora tem um namorado a sério, por isso já não me vai inspirar muito mais, provavelmente (risos). É inspirado em coisas que eu vejo, ou personagens que crio e acho interessantes tipo: “Ah, agora esta vai-se apaixonar platonicamente pelo Louis Armstrong!” (risos).

A Hello Stranger por exemplo, que fala sobre estar apaixonado por alguém que ainda não se conheceu, fez-me pensar em algumas amigas minhas. Acho que é coisa de mulher portuguesa, e como vivi fora, consigo ver isso de outra maneira. Muitas mulheres portuguesas têm esse objetivo, de casar e ter filhos… Às vezes torna-se um objetivo tão forte que idealizam até ao último pormenor o casamento, o marido, os filhos, o cão, a casa… e é um stress! Acho que isso costuma dar sempre para o torto, porque no fim ou encontram alguém que não tem nada a ver com o que elas idealizaram, e até é melhor; ou então casam-se com uma pessoa que tem a ver com aquilo e depois não são muito felizes. Não tem que ser sempre assim, mas acho que muitas vezes há essa obsessão com o casamento, e o dia do casamento, e ele vai-me pedir em casamento… Faz-me um bocado de confusão, e então escrevi essa música assim de forma sarcástica. Meti-me na pele dessa pessoa.

Como surgiu a oportunidade de colaborares com António Zambujo, Mário Laginha e Jamie Cullum? 

No caso do António, compus a canção já para ele cantar comigo. Eu fiz um concerto em Alcobaça sobre Inês de Castro, com essa temática, e convidei-o para vir cantar esta canção comigo. Ele veio, a partir daí cantámos a canção para aí mais umas duas vezes. Já não fazia sentido sem ele. Tinha-se tornado um dueto para mim.

O Mário, depois de compor a canção, ouvi-o logo na minha cabeça a tocá-la. Fez logo sentido, até porque o tinha conhecido há pouco tempo e tinha gostado muito dele como pessoa e como músico. Quis convidá-lo para isso e para fazer arranjos de cordas, que fez para três canções.

O Jamie, eu queria que ele estivesse no disco e pensei em que canção é que ficaria bem. Enviei-lhe a canção a ver se dizia que sim, e ele aceitou.

Porquê a escolha de “Mom Says” como primeiro single

No início quando compus o tema, e quando mostrei a toda a gente, foi uma canção de que gostei muito. Gosto muito de cantá-lo, apesar de não ser muito fácil. É muito agudo (risos). Foi logo uma das canções preferidas. Na verdade, não me parecia ter muito potencial para single. Só depois quando a começámos a tocar todos juntos, é que vimos que nos ficou a todos na cabeça. Começou aí a ganhar potencial de single. Quando acabámos o disco e olhámos para todas, então percebemos que era a que tinha mais. Fizemos uma votação também na editora, e ganhou. Mostra também um bocadinho o rumo que a minha música está a levar, ou pelo menos a diferença das coisas que tenho ouvido este ano: mais folk, mais country… Esta mostra um bocadinho de outras influências, e acho engraçado.

 Achas que ainda é possível viver da música em Portugal? 

Eu acho que sim. Eu vivo da música.

Tens algum sonho ou objetivo por concretizar? 

Quero ir tocar aos Estados Unidos. Sempre foi o meu objetivo, desde o início. Eu vivi lá, e durante algum tempo, em Nova Iorque. Em Boston vivi quatro anos. Em Nova Iorque nunca consegui tocar a minha música, porque eles pagam muito mal e eu tinha de trabalhar num café ao mesmo tempo. Não conseguia pagar a uma banda. Foi uma frustração, e é uma coisa que ainda tenho por resolver. É um dos meus maiores objetivos. Também adorava tocar em Itália, é o meu país preferido! Adoro a língua. É um país espetacular. Se for um sonho e mais perto, é esse!

Agenda:

09/Abr – Stans, Kollegium St. Fidelis
11/Abr – Lisboa, Ritz Clube
20/Abr – Estarreja, Cine-Teatro de Estarreja
03/Mai – Faro, Teatro das Figuras
04/Mai – Vila do Conde, Teatro Municipal de Vila do Conde
10/Mai – Águeda, Cine-teatro São Pedro
01/Jun – Torres Vedras, Teatro-Cine de Torres Vedras
04/Jul – Cascais, Cool Jazz
22/Ago – Figueira da Foz, Casino da Figueira

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