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«Jangada de Pedra» em cena no São Luiz

E se de repente a península Ibérica se separasse da Europa e se lançasse numa viagem inesperada à deriva no Atlântico? É esta a premissa que dá o mote para o livro de José Saramago «A Jangada de Pedra» que o grupo de teatro «O Bando» traz à cena desde sexta no Teatro Municipal São Luiz em Lisboa.

Em conversa com o encenador João Brites, este revela que o texto, apesar da dimensão épica, tem também uma dimensão política: “O primeiro impulso foi ter um texto metafórico sobre os países do Sul e países do Norte (…) Parece-nos oportuno colocar questões: porque é que estamos tão perto da Alemanha? Porque é que não estamos mais perto do Brasil? E da América Latina? E dos povos do Sul?“.

Em palco, surge um cenário inusitado, uma abordagem literalmente vertical à obra de Saramago: “A viagem é feita na vertical. Tentámos humanizar e tornar mais densos aqueles personagens.” O cenário é suspenso, que representa esta Jangada de Pedra, que entre redes e plataformas pouco estáveis, nos remetem à nossa instabilidade. A ideia de andar à deriva é aliás  muito simbólica da realidade em que vivemos atualmente: “gosto muito desta ideia de deriva e foi um pouco em contraponto com o que se passa”.

Seis atores interpretam os personagens idealizados por Saramago: Anna Kurikka, Bruno Huca, Guilherme Noronha, Miguel Branca, Nuno Nunes e Sara de Castro; acompanhados por seis músicos ao vivo: Fábio Matias, Gabriel Gonçalves, Jaime Pascoal, João Ribeiro, Nuno Henriques e Sérgio Duarte; com música composta propositadamente para o espetáculo por Jorge Salgeiro.

O trabalho de encenação passou por dar destaque à narrativa épica que nos apresenta o escritor na sua obra sem esquecer as características das personagens :”Este é um texto mais narrativo que na nossa versão em Santa Maria da Feira tinha uma vertente assumidamente mais alegórica e portanto os textos narrativos tiveram a tendência de construir um espetáculo mais afastado das tensões, pulsões, das vísceras e dos sentimentos. Aqui no São Luís estamos a recuperar essa dicotomia dos personagens“.

Não há nenhuma lei no mundo que nos diga que não se pode viver sem Norte nas palavras de Saramago na obra, adquire uma interpretação mais ampla nesta versão teatral trazida à cena pel’«O Bando». Como diz o encenador: “o teatro transcende sempre aquilo que está no texto e as próprias intenções que nós temos“.

«A Jangada de Pedra» está em cena no Teatro Municipal São Luiz de Quarta a Sábado às 21h e Domingo às 17h30 até ao próximo dia 26 de Outubro.

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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