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“Viajar? É encontrar o que não se procura!”

O que a move é a energia de testemunhar ao vivo e em direto as vidas de outros em outros locais. Começou na adolescência a sonhar com viagens e promete não parar. Tudo porque o mundo a faz trocar o iphone pela mochila

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Pipa Coutinho, 20 anos, embarcou no início deste Outono numa viagem de oito meses da Palestina às Américas. Estudante universitária, congelou a matrícula no último ano do curso de Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Nova de Lisboa. Para tornar este sonho realidade, a jovem trabalhou em restaurantes e em bares de forma a amealhar os custos da aventura. Depois deste retiro, Pipa espera trazer “um juízo claro e sólido do conflito, e factos para passar a mensagem”.

Como tem sido a sua estada pela Palestina?

Vou ficar por cá dois meses. Antes da Palestina andei por Israel, e espero ainda ir até à Jordânia… à turística Petra, mas também aos campos de refugiados sírios… tem sido uma aventura! Fui acolhida por uma organização ativista pacífica e isso facilitou muito o acesso aos locais. Ter alguém que me guie no meio dos confrontos, que me leve a conhecer as famílias vítimas de massacres, e sobretudo que me ajude a discernir esta realidade.

O que a levou a embarcar nesta viagem?

Li e estudei a Palestina durante muito tempo e o conflito nunca se tornou claro. Era demasiado longo para ser credível, demasiado escandaloso para continuar. Tinha de vir ver com os meus olhos e ouvir com os meus ouvidos. Nas primeiras horas em Hebron fui apanhada desprevenida pelos confrontos e pelo gás, e achei que tinha vindo parar ao meio da guerra. Nunca me vou esquecer do medo e da vulnerabilidade que senti.

Como tem superado o choque cultural?

Não tenho cá nada disso. É um prazer experimentar coisas novas e abarcá-las no meu quotidiano. Já estou acostumada a condições precárias, mas o que é muito difícil é ter estômago para lidar com a realidade da violência. O mais fácil tem sido fumar cigarros…  tinha deixado há uma ano, mas fumava socialmente. Com os árabes é impossível porque estão sempre a oferecer e um maço de cigarros enrolados custa 1€!

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Qual é o próximo passo depois da Palestina?

Como congelei a matrícula em Lisboa, tenho cerca de oito meses livres. Dois para o Médio-Oriente, os outros começam a contar a partir de Janeiro: atravessarei os EUA de Este a Oeste e rumarei ao sul até ao Brasil, atravessando toda a América central e o norte da América do Sul.

Quando é que isto tudo começou?

Quando tinha 10 anos decidi que antes de ir para a “universidade de jornalista”, ia um ano para África ajudar os outros. Não foi bem assim, mas a futilidade da sociedade satura-me e a inconsciência das pessoas revolta-me. Não julgo nem sou nenhum “bicho do mato”, simplesmente é-me difícil lidar com isso.

O que leva uma jovem a deixar de estudar e fazer um gap year?

Eu não deixei de estudar, apenas fiz um interregno. Acabei a escolaridade obrigatória com boas notas e, atingida a maioridade, todo o jovem deve ir espreitar o mundo. Não faz diferença acabar a licenciatura um ano mais tarde ou mais cedo, e apetecia-me ser livre um ano. Viajo sozinha até porque não tenho companhia e porque me faz estar mais aberta a novas experiências e pessoas.

E teve o apoio da família e amigos… fala com eles regularmente?

Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha um ano e sempre vivi com a minha mãe e padrasto. Embora sempre de coração nas mãos, apoiam-me. No início porque eram aventuras gratificantes para o  meu crescimento, agora porque é o princípio de uma carreira… Não como viajante, mas como escritora, como jornalista, como pessoa que anda pelo mundo. E sou estudante de Ciência Política e Relações Internacionais, portanto cada ano de viagens vale por 10 de universidade. Graças a Deus inventaram a internet, portanto falo tantas vezes quanto as desejadas!

Como conseguiu financiamento para estas aventuras?

Assim que terminei o semestre, comecei a trabalhar 12/14 horas por dia num bar e restaurante de praia. Geralmente só trabalho para viajar… mas entre ordenados e gorjetas,em seis meses consegui mais do que que precisava, cerca de sete mil euros. Antes já tinha passado por algumas capitais europeias, umas boas semanas em Itália, nas Canárias e em Espanha, assim como em Marrocos e Cabo Verde. Também quase seis meses no Quénia e Tânzania no meu gap year, fiz um interrail pelo leste da Europa (da Croácia à Turquia), trabalhei e vivi no sul de França e do nosso tão belo Portugal só me falta os Açores!

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Em que é que mudou após estas viagens?

Não sei se sou uma pessoa intrinsecamente diferente, mas sou certamente mais consciente do mundo. Seja a viver com a tribo dos Maasai ou com o rei das Arábias, precisamos de água, comida e um duche para nos sentirmos novos! Quando viajo não penso no que me falta, mas no quão grata me sinto por estar ali. Contacto puxa contacto e lá me vou safando. É muito importante trocar o iphone pela mochila!

Há alguma forma de seguir as suas viagens?

Tenho um blog – semcostumes e também os Diários de Viagem da Visão Online. Um livro? Talvez um dia…

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