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«Vénus de Vison»: um jogo de domínio em cena no Teatro Aberto

Trazido à cena por Marta Dias, «Vénus de Vison» é a nova aposta do Teatro Aberto para o ano de 2014.

A peça de David Ives conta com Ana Guiomar e Pedro Laginha e conta a história de um encenador, que depois de um dia de audições e já sem esperanças, recebe a visita de uma atriz que parece só mais uma que não se adequa ao perfil que procura. Tomás procura uma atriz jovem mas com maturidade suficiente para interpretar a complexa Wanda von Dunajew. A atriz parece partilhar o nome da protagonista (Vanda) e apesar de uma entrada atribulada revela-se a perfeita para o personagem.

Mas afinal quem é Vanda e o que motivou uma atriz que parecia desenquadrada e apenas à procura de um sonho fracassado a entrar num jogo de domínio e sedução onde os limites parecem ter ficado longe do aceitável? E quem é Tomas, o simples encenador, e que parece esconder em si um profundo fascínio pelo mundo de Masoch que pretende encenar?

Ana Guiomar assume aqui um personagem gigante e cheio de subterfúgios. A sua complexidade e profundidade revelam-se apenas dignas das melhores e Ana Guiomar consegue sê-lo. Uma Vanda credível, percebemos porque conseguiu conquistar o encenador e o papel. Enquanto publico, também ter-lhe-íamos também atribuído o personagem. Os jogos de domínio assumem em palco uma vertente interessante e a atriz é competente em conquistar a aceitação do público.

Tomás, interpretado por Pedro Laginha, é também aqui muito competente ao interpretar um personagem inicialmente mais flat. À medida que a cena avança, revela-nos uma fragilidade e uma subjugação que sabe explorar, apresentando por vezes uma posição de força que vai deixando cair ao longo da peça de uma forma muito interessante.

Sem dúvida que o trabalho de Marta Dias deve ser aqui relevado até porque a complexidade desta peça aumenta na medida em que temos teatro dentro do teatro. A própria encenadora reconhece os riscos da peça: “tem muitos riscos, de ter só uma leitura e eu não quis fazer isso“. Quanto à escolha dos protagonistas, Marta adianta que não foi um processo fácil: “A escolha foi bastante focada. Não há aqui zona de conforto. Tive muita fé neles e que eles confiassem em mim“. A dinâmica que criou entre os protagonistas, a forma como dirigiu os jogos do dominado é do subjugado e a subtileza com que nos vais deixando pistas sobre um final inusitado (“apostei muito na ideia de transformação“), fazem desta peça um bom resultado do bom teatro que se faz no Teatro Aberto.

«Vénus de Vison» está em cena de quarta a sábado às 21h30 e domingo às 16h30. Os bilhetes têm o preço de 15€, sendo 7,5€ para jovens até aos 25 anos e 12€ para séniores com mais de 65 anos.

Mais fotos aqui.

Fotografia: David Viegas

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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