Estado da TV

Estado da TV # 14

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Tudo pelas chamadas

 

Em 2003 a TVI foi pioneira em Portugal com a estreia do “Quem Quer Ganha”, o primeiro concurso de call-tv em Portugal. O programa esteve no ar até 2010, passando por várias renovações de formato (chegou a ter duas edições diárias), e tornou-se um concurso mítico da estação de Queluz. Se no início parecia apenas um game-show inovador que dava oportunidade aos telespectadores de participar no jogo final através de uma chamada telefónica, a verdade é que este concurso foi o grande impulsionador do maior cancro que afecta actualmente o daytime das estações generalistas em Portugal.

As vantagens do conceito call-tv para uma estação de televisão, especialmente em anos de crise no mercado publicitário, são facilmente compreensíveis. O investimento da estação é mínimo e o retorno das chamadas telefónicas proporciona grandes lucros de forma imediata. Em Portugal os telespectadores aderiram bem aos apelos das televisões e efetuam diariamente milhares de chamadas, na esperança de verem os seus problemas financeiros resolvidos.

O grande problema do call-tv foi ter passado de mero passatempo a conteúdo central de praticamente todos os programas de daytime da televisão portuguesa. Os apresentadores, convertidos em vendedores de chamadas telefónicas, passam mais tempo a apelar aos telefonemas do que propriamente nos outros conteúdos (cada vez mais inexistentes). Fica-se sem perceber se os programas existem para entreter (ou informar) os telespectadores ou se são apenas fábricas de chamadas telefónicas para as estações de TV. Para além de reduzir o papel dos apresentadores que têm de inventar mil e um motivos para convencer os telespectadores a ligar, o call-tv fez com que todos os programas, independentemente da estação, parecessem iguais. A originalidade e a criatividade foram definitivamente suplantadas pela capacidade de gerar chamadas telefónicas.

Tenho pena, em especial, que a televisão pública tenha também aderido a esta “moda” e que não tenha optado antes por um caminho diferenciador. Será que com o anunciado fim da crise do mercado publicitário as estações de televisão vão pôr um travão no call-tv? Esperemos que sim.

 

Até para a semana,

Filipe Vultos

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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