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Estado da TV # 17

 

A “mãe” do daytime

 

Chegou hoje ao fim, após 19 anos no ar, o emblemático programa matinal da RTP “Praça da Alegria”.

Em 1995 Anabela Mota Ribeiro e Manuel Luís Goucha abriam as portas da praça mais famosa da televisão. Num estúdio que pretendia reproduzir o largo central de uma qualquer cidade portuguesa falava-se de diversos assuntos da actualidade (politica, saúde, cultura) e partilhavam-se grandes histórias de vida (não daquelas de choro fácil que hoje preenchem o daytime). Quem tinha algo de interessante para contar ia à “Praça da Alegria”. Goucha, na altura um apresentador mais rígido e menos descontraído do que hoje é, conseguia dar um tom informal às conversas sem nunca cair numa aproximação “popularucha”. Culto e bem preparado, o apresentador primava pelo rigor e conseguia como ninguém fazer a ponte entre a vertente pedagógica do programa e os gostos e interesses do público que via televisão de manhã. É importante lembrar que todos os principais nomes do daytime da televisão portuguesa actual (Júlia, Fátima, Jorge Gabriel, João Baião e Malato, só para mencionar os veteranos) surgiram associados a este tipo de programas após a “Praça da Alegria” da RTP. Goucha foi o grande pioneiro dos apresentadores de daytime em Portugal. Foi e continua a ser a grande referência.

Não tenhamos dúvidas de que a “Praça da Alegria” se tornou o programa mais carismático da RTP graças ao estilo único e inconfundível de Manuel Luís Goucha. Após a sua saída, e apesar de ter sido sempre entregue a bons profissionais (tal como Sónia Araújo, que se formou como apresentadora na “Praça”), o programa foi perdendo relevância e sobretudo identidade. A machadada final para esta perda de identidade foi executada em 2013 quando o programa deixou os estúdios do Porto (uma “marca” importante da “Praça ”) e foi transferido para Lisboa. A televisão mudou, a concorrência aumentou, e a “Praça da Alegria” perdeu-se pelo meio. Não foi capaz de renovar o seu público nem de se ajustar aos gostos actuais dos telespectadores. Por isso não foi com surpresa que soube da decisão da RTP em terminar com este programa marcante. Era preciso assumir que o programa já não fazia qualquer sentido nos moldes em que estava. Era preciso terminar o ciclo para dar início a outro.

Na história da televisão em Portugal o “Praça da Alegria” terá certamente um lugar de destaque, pela sua longevidade, por ter sido a “mãe” dos programas de daytime da televisão actual, e claro, por Manuel Luís Goucha. Cabe agora à RTP construir o futuro.

 

 

Até para a semana.

Filipe Vultos

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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