Estado da TV

Estado da TV # 18

 

Série ou Novela?

 

“Água de Mar” é a nova série da RTP e tem estreia prevista no primeiro canal para meados de Julho. Esta série “de Verão” é a primeira grande aposta da produtora Coral Europa na área da ficção e conta com muitos actores que desempenharam nos últimos anos papéis de grande destaque em novelas da SIC e da TVI, nomeadamente Pedro Barroso, Jorge Corrula e Mariana Monteiro.

A aposta da estação pública foi claramente num elenco capaz de atrair espectadores jovens, faixa etária que há muitos anos anda de costas voltadas para a RTP. O ambiente de praia com os habituais nadadores salvadores, o clássico bar da praia, e alguma nudez à mistura, dará certamente o cunho de “Baywatch” que qualquer série juvenil de Verão deve ter. Do ponto de vista do rejuvenescimento e do refrescamento da grelha da RTP a estratégia não podia ser mais acertada.

Esta nova série deverá coexistir na grelha de horário nobre da RTP1 com a veterana “Bem-Vindos a Beiras”. Aliás, não tenho dúvidas de que foi o sucesso da série ambientada na aldeia fictícia de Beirais que levou à aposta nesta segunda linha de ficção diária em prime-time. A RTP apelida ambas as produções de “séries” numa tentativa de se diferenciar das “novelas” dos canais privados. Mas quando temos o exemplo de “Bem-Vindos a Beiras” que é emitida diariamente, sem interrupção, desde Maio de 2013, é difícil fazer a distinção entre esta e as novelas dos canais privados. Uma série pode ser emitida diariamente, é certo, mas para funcionar como série e não se arrastar nos clichés habituais das novelas, tem de ter curta duração e  ter interrupções. “Bem-Vindos a Beiras” já deixou há muito tempo de ser série e passou a competir com as novelas dos canais privadas de igual para igual. “Água de Mar” ainda não estreou mas a designação de “série diária” já deixa antever que se tiver sucesso terá o mesmo destino. E isto tudo leva a um panorama que era impensável há uns anos atrás. A RTP prepara-se para ter não uma, mas duas novelas em horário nobre, deixando definitivamente de ser uma alternativa aos canais privados e dando uma machadada na sua própria razão de existir enquanto estação paga por todos nós.

Ainda me lembro quando a discussão era se a RTP deveria ou não ter uma novela portuguesa no ar perante as privadas entupidas desse mesmo género de ficção. A estação pública decidiu então apostar nos “Nossos Dias” seguindo uma tradição que se constata em muitas estações de televisão por esse mundo fora que exibem novelas que duram anos e anos no daytime. E nesse caso compreendia-se perfeitamente a aposta. Não havia nenhuma razão pela qual a RTP não pudesse ter a sua própria novela portuguesa. Não se entende é como é que de apenas uma, se passou para três, sendo que duas estão no horário nobre retirando espaço a concursos, debates, documentários e séries, que poderiam constituir uma verdadeira alternativa aos canais privados. Com esta estratégia, não sei que argumentos vão restar à RTP quando vier novamente à baila a grande questão “afinal, porque andamos todos a pagar para termos uma estação pública?”.

Até para a semana,

Filipe Vultos

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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