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Estado da TV # 20

 

A voz, desta vez, fez-se ouvir

 

Aos Domingos à noite, em frente ao televisor, Portugal assiste ao confronto entre os dois talent-shows mais badalados da actualidade: The Voice e Rising Star. Enquanto o primeiro já está instalado com enorme sucesso em múltiplos países, o segundo, apesar do sucesso internacional de vendas, ainda não demonstrou ter o condão de agarrar o público e de se converter num grande hit de audiências nos países em que estreou (com excepção de Israel, o seu país de origem). Com o inicio da fase das galas do “The Voice Portugal”, é altura de fazer uma análise acerca do comportamento do talent-show da RTP1 até agora.

Passados aproximadamente três anos do fracasso da primeira edição do The Voice, que detinha o nome “A Voz de Portugal”, a televisão pública decidiu apostar numa nova edição do programa de talentos. Em 2011 a RTP conseguiu o feito de ser uma das únicas estações de televisão do mundo em que o “The Voice” se revelou um flop (sobretudo dadas as elevadas expectativas) chegando a atingir valores irrisórios de audiência na fase das galas. “A Voz de Portugal” na RTP surgiu como um programa cinzento, empoeirado, com ausência de carisma (sobretudo ao nível dos mentores) e com o dia de exibição (Sábado) errado tendo em conta o público-alvo.

A pausa de três anos foi importante para a RTP identificar o que correu mal e para o formato amadurecer, e o “The Voice” que vemos em 2014 é substancialmente diferente do que vimos na altura. Pelas mãos de uma nova produtora com reconhecida experiência internacional (Shine Iberia, a filial ibérica da Shine), o “The Voice Portugal” apresentou-se aos telespectadores como um programa jovem, dinâmico e competitivo. Os programas gravados foram cuidadosamente montados de forma a manterem a emoção e o suspense ao longo de todos os episódios. Nesta nova edição, não houve pudor em mostrar o lado mais pessoal dos concorrentes e em fazer referência a alguns aspectos (algumas vezes dramáticos) da sua história de vida, para mais facilmente gerarem empatia junto dos telespectadores. Na verdade, esta componente de reality-show é cada vez mais uma tendência que se verifica nos talent-shows. A forte presença do programa nas redes sociais foi outra aposta acertada da RTP para captar a atenção do público mais jovem que habitualmente não vê o canal.

Quanto aos mentores, Rui Reininho foi o único que se manteve da edição de 2011, e continua no programa para agradar a uma faixa etária específica que aprecia a sua excentricidade. Marisa Liz é a mentora mais forte deste novo grupo. É incisiva, tem um discurso claro e fluido, sempre com recurso a argumentos válidos, demonstrando que sabe do que está a falar, e, muito importante, não se coíbe de mostrar as suas emoções em televisão, criando um cocktail de força e fragilidade que faz sempre magia junto dos telespectadores. Antevejo que será presença assídua neste tipo de formato nos próximos anos. Anselmo Ralph, com o seu estilo e expressões muito próprias, imprime um tom mais descontraído ao programa, enquanto Mickael Carreira, apesar de alguma falta de solidez no discurso, torna o programa mais popular junto das (milhares) de fãs do clã Carreira.

No passado Domingo, a primeira gala do “The Voice” surpreendeu pela excelente produção. Num cenário digno de um grande programa de entretenimento internacional, Catarina Furtado e Vasco Palmeirim foram os anfitriões de um grande espectáculo televisivo para toda a família. Num país em que existem poucos apresentadores masculinos capazes de apresentar programas de prime-time, Vasco Palmeirim foi uma descoberta importante por parte da RTP. Arrisco-me mesmo a dizer que Vasco é provavelmente o melhor apresentador da sua geração. A naturalidade em comunicar em frente às câmaras, a veracidade que transmite pelo ecrã, e o sentido de humor acutilante mas abrangente, tornam-no um valor a ter em conta no mercado televisivo português. Prova disso foram as notícias no início deste ano de que a TVI estaria interessada em Vasco para a apresentação de Rising Star.

Contudo, chegados à fase das galas, a RTP encontra-se perante o desafio de manter o interesse dos telespectadores. E este não é um desafio fácil de superar. Nos programas gravados, a montagem permite manter o ritmo e eliminar os tempos mortos. Nas galas isso não acontece. Na edição de 2011 foi precisamente nos programas em directo que as audiências derraparam ainda mais. No ano passado, o “Factor X” da SIC, após uma fase auspiciosa, também viu as audiências caírem a pique nas galas. A razão para tal pode prender-se com a elevada duração dos programas em directo. Três horas não serão demais? Galas mais curtas (à americana), mais directas ao assunto e sem tanta conversa fiada poderiam ser benéficas para o formato. A escolha das canções constitui outro ponto crítico. Para o espectáculo ser apelativo para o grande público as canções escolhidas devem ser, pelo menos, na sua maioria, músicas comerciais e conhecidas da audiência.

A julgar pelas audiências da primeira gala (e deixando o “Poder do Amor” da SIC fora desta comparação) os portugueses encontram-se divididos entre o Rising Star e o The Voice Portugal, o que para os padrões de audiência da RTP é uma excelente notícia (mas é uma péssima noticia para a TVI). Há muito tempo que a televisão pública não tinha um programa de entretenimento a disputar a liderança. No entanto, outro dado importante, é que nenhum dos talent-shows está a entusiasmar os telespectadores. No passado Domingo, nem o da TVI nem o da RTP conseguiu chegar à barreira do milhão de telespectadores. Números muito baixos para uma noite de Domingo (pela mesma altura, no ano passado, o Big Brother VIP registava 1,7 milhões de telespectadores). Será pelo facto dos portugueses estarem saturados de talent-shows?

Até para a semana,

Filipe Vultos

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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