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Estado da TV# 22

 

Tudo na mesma

 

No passado dia 13 ocorreu a final do Campeonato do Mundo de Futebol 2014 que durante um mês, dominou, de forma avassaladora, as audiências televisivas em Portugal. Este ano, o Mundial teve a particularidade de ser transmitido em exclusivo (em canal aberto) pela RTP1 o que impulsionou bastante as audiências da estação pública tanto em Junho como em Julho. Por outro lado, os canais privados, como já era expectável, sofreram com esta avalanche de futebol, embora o efeito nas duas estações tenha sido sentido em graus diferentes. Com o final deste evento importa analisar o que aconteceu nas audiências televisivas tanto durante como após a “Copa”.

Graças ao Mundial, a RTP1 conseguiu o feito de ultrapassar a SIC na média de audiências de Junho relegando a estação de Carnaxide para um humilhante terceiro lugar. Claramente que os fins de semana da SIC, com audiências miseráveis, foram o factor decisivo para este terceiro posto.  A estação esperava que o efeito “João Baião” surtisse algum efeito aos Sábados à noite e ao Domingo à tarde, mas na realidade, isso esteve sempre longe de acontecer. Tanto “Sabadabadão” como o renovado “Portugal em Festa” revelaram-se apostas fraquíssimas (falhadas mesmo). Outro programa que não entusiasmou os telespectadores foi o “Poder do Amor” que apesar de não se manter muito longe da concorrência, também não ajudou a SIC a resistir ao Mundial. Curiosamente, responsáveis da SIC têm vindo a dizer (já em mais do que uma ocasião) que as baixas audiências de “Sabadabadão” e do “Poder do Amor” se devem ao Mundial de Futebol. Esquecem-se que antes do Mundial estes programas já eram flops declarados, e que após o fim do Campeonato de futebol o fracasso tem-se confirmado. Talvez seja mais fácil atirar a culpa para terceiros do que admitir o falhanço dos seus próprios conteúdos. A estrela da companhia para os lados de Carnaxide tem sido “A Guerreira”. Uma surpresa, tendo em conta as audiências pouco (ou nada) entusiasmantes que teve no Brasil, a novela da Globo é o único programa da SIC que tem conseguido dar uma coça à TVI e registar audiências avassaladoras num horário tardio. Foi o que deu algum ânimo à SIC durante o Mundial e continua a ser, sem sombra de dúvidas, uma das bóias de salvação da estação de Balsemão. Veremos se “O Rebu” conseguirá manter os números.

No entanto, a alteração mais significativa nas audiências em Portugal que se observou durante o período do Mundial foi a queda de Sol de Inverno (SIC) e a ascensão do Beijo do Escorpião (TVI) ao primeiro lugar de audiências.  A TVI voltou a liderar a primeira faixa do horário nobre, de forma consistente, o que pode indicar que se avizinha um novo ciclo de liderança do prime-time de segunda a sexta. Acredito que o Mundial tenha estado longe de ser o factor predominante para esta troca (como já expliquei numa crónica anterior), o que não quer dizer que o seu impacto nesta inversão de ciclo seja totalmente desprezível.

A TVI no global resistiu bem ao “stress test” do Mundial, graças sobretudo ao forte daytime. Mais uma vez Goucha e Cristina foram os pilares que sustentaram a estação de Queluz de Segunda a Sexta (digo isto porque a liderança da TVI à tarde para além de frágil vive muito do demérito da concorrência). Na verdade, nos últimos meses, em que a estação de Queluz tem sofrido alguma fragilidade no horário nobre, tem sido o daytime, especialmente o “Você na TV!” a salvar a honra do convento. Ao Domingo, com as audiências pouco entusiasmantes do Rising Star, programa para o qual vai o título (até agora) de “desilusão do ano”, o “Somos Portugal” e o “Jornal das Oito” têm sido outras peças fundamentais nesta resistência (aparentemente inabalável) da TVI.

Para a RTP1, o Mundial de Futebol podia ter sido um game changer nas audiências e na dinâmica da grelha. No entanto, analisando as audiências destas duas semanas após o término da transmissão dos jogos de futebol, constata-se que o Mundial não deixou qualquer rasto na estação pública. Na verdade, a RTP voltou exactamente ao mesmo patamar onde estava antes da transmissão do Campeonato do Mundo. A “Copa” não serviu para impulsionar nem a informação nem os programas de horário nobre do canal. Terá havido má gestão da grelha durante o Mundial? Falta de visão? Não terá sido esta uma oportunidade de ouro perdida pela RTP para voltar a ser um competidor forte? “Água de Mar” (a grande aposta estreada após o Mundial), apesar de partir de um conceito atraente em tempos de Verão, tem-se revelado uma aposta muito fraca, e tem sido, até agora, rejeitada pelo público. O que não é de espantar tendo em conta a pobreza dos diálogos (alguns são mesmo de “bradar aos céus”) e as debilidades (mais que) evidentes na produção.

Passada a avalanche do Campeonato do Mundo de Futebol e com a aproximação do mês mais quente do ano (e mês de férias por excelência dos portugueses) as estações generalistas continuam no marasmo em que estavam no início de Junho. Sem criatividade e sem apostas que entusiasmem as audiências. Por tudo isso, e sem surpresas, avizinha-se um mês de Agosto passado (ainda mais) no Cabo.

 

Até para a semana,

Filipe Vultos

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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