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Estado da TV # 23

 

Tubarões à vista?

 

Após várias semanas de rumores chegou agora a confirmação de que a SIC pretende efectivamente estrear a versão portuguesa do programa norte-americano “Shark Tank” em 2015.

O programa, que nos últimos meses tem conquistado milhares de fãs em Portugal através da sua exibição na SIC Radical, enquadra-se no conceito de reality-show empreendedor, género que teve origem no Japão e que desde 2005 tem percorrido todo o mundo, tendo a versão britânica (12 temporadas, BBC) e a versão americana (5 temporadas, ABC) conquistado particular sucesso tanto nos seus países de origem como a nível internacional. Para quem nunca viu o programa, em cada episódio concorrentes anónimos apresentam ideias de negócio (inovadoras) a um grupo de empresários de topo que após a apresentação decidem negociar ou não o seu investimento e a sua participação nos negócios propostos. O momento de maior adrenalina do programa é exactamente o da negociação em que muitas vezes os concorrentes são confrontados com decisões difíceis.

O conceito aparentemente simples origina um grande programa de televisão graças fundamentalmente a dois grandes aliciantes. O primeiro é a criatividade e a originalidade dos produtos e serviços apresentados pelos concorrentes. A triagem feita pela produtora do programa é fundamental para que só os negócios que possam causar alguma surpresa (ou mesmo momentos de comédia) cheguem à TV. O segundo aliciante é o carisma dos empresários que com as suas personalidades fortes e os seus discursos assertivos conquistam os telespectadores.

Na preparação da versão nacional é nestes dois pontos que a SIC deve concentrar os seus esforços. Em relação ao primeiro não tenho dúvidas que em Portugal existem muitas pessoas com ideias boas e criativas. Os portugueses são conhecidos por serem engenhosos e desenrascados e certamente que a SIC não terá problemas em encontrar ideias de negócio que sejam outside of the box. Já em relação ao segundo ponto tenho sérias dúvidas, fundamentalmente porque em Portugal os empresários de topo são em número muito reduzido e os que têm potencial televisivo são menos ainda. A escolha dos empresários será, na minha opinião, o que poderá fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso do programa em Portugal. Caso a SIC não consiga reunir um grupo de empresários que reúnam em simultâneo capacidade de investimento e carisma televisivo, o programa português corre o sério risco de se converter numa anedota. E nesse caso espero que haja o bom senso de não se avançar com o programa em Portugal.

Numa altura em que tanto se fala de empreendedorismo, um programa que estimula a criação de novos negócios é, sem dúvida, bem-vindo na televisão portuguesa. Acharia mais lógico até que o programa chegasse a Portugal pelas mãos da televisão pública dado o contributo que poderá ter na economia (e na moral) nacional. Para além disso, a chegada de “Shark Tank” a Portugal pode ser uma lufada de ar fresco (tal como foi este ano “Masterchef” na TVI) num mercado televisivo que ainda é dominado (tal como era há dez anos) por talent-shows e por reality-shows herdeiros do Big Brother. Só é pena não ter chegado mais cedo.

 

Até para a semana.

Filipe Vultos

 

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Farmacêutico de formação, químico de profissão, com interesse no mundo do audiovisual e da televisão em particular. Tenho uma visão crítica e analítica sobre a televisão em Portugal estando especialmente atento às estratégias de programação e de promoção.

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