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Luísa Sobral em entrevista: «Lu-pu-i-pi-sa-pa» “é um disco muito sincero”

Luísa Sobral acaba de lançar o seu terceiro disco «Lu-pu-i-pi-sa-pa». Com uma sonoridade semelhante aos seus trabalhos anteriores mas com a temática do mundo das crianças, a cantora traz-nos as suas memórias de infância num disco que considera “muito sincero” e no “timing perfeito”.

Estivemos à conversa com Luísa Sobral e trazemos-lhe uma entrevista exclusiva.

«Lu-pu-i-pi-sa-pa» é o seu novo álbum com uma inspiração marcada nas temáticas infantis. Com «O Bairro do Panda» já tinha tido um primeiro contacto com as crianças. Era um desejo antigo explorar o universo dos mais pequenos?

Eu sabia que durante minha carreira ia querer fazer um disco de crianças. Sempre soube só não percebia ainda qual era a altura certa. Agora com dois discos já consegui mostrar o meu som. As pessoas tinham de reconhecer o meu som e partir daí depois fazer uma coisa diferente. Se fizesse logo um disco para crianças depois ficava como Luísa cantora de crianças e não era essa ideia. Então eu agora, depois de achar que já tinha espaço e que já tinha essa credibilidade, podia experimentar fazer coisas diferentes. Tinha também tempo, não ia ainda fazer o meu terceiro disco, o segundo ainda está a sair lá fora por isso também não fazia sentido estar a gravar o terceiro. Achei que era o timing perfeito.

Como decorreu o processo criativo do disco?

Fui pensando um bocadinho no meu passado, nas coisas que me angustiavam quando era mais nova, nas coisas que hoje em dia eu vejo nos miúdos e digo: eu era igual. As coisas que eu percebo que também eram transversais e que são de todas as gerações. Então fui pegando assim nessas coisas que me faziam gozar comigo mesma quando eu era mais pequenina. Olhar para trás e gozar com a Luísa que era. Fui compondo a pensar nessas coisas.

A opção de lançar um disco em português foi também pensada?

Não, eu nem pensei. Isso nem sequer foi uma opção. A partir do momento em que pensei fazer um disco para crianças, vivendo em Portugal e para as crianças do meu país nem ponderei em fazer o disco noutra língua. Para mim foi logo óbvio que seria português.

Quase exclusivamente em português, temos um tema na língua dos Pês. Que memórias de infância colocou neste trabalho?

Eu acho que quase todas são as minhas memórias de infância, as que estão nas canções. Por exemplo a da primeira canção é aquela coisa de não gostar que os meus pais me deixassem mesmo à porta da escola porque não queria que ficassem olhar pra mim.

Os meus pais em casa sempre me chamaram “Bim”, é um nome que não tem nada a ver com Luísa mas porque a minha mãe também se chama Luísa. Então sempre me chamaram um nome assim queridinho. Eu odiava quando eles me chamavam isso à frente dos meus amigos, porque à frente dos meus amigos eu era a Luísa. Lembro-me que isso me angustiava imenso.

E todas as miúdas gostarem do mesmo rapaz, a uma certa altura. A língua dos Pês é outra. Aquela coisa que é muito de miúdas, há sempre uma altura em que uma das nossas amigas de repente acha que é muito mais velha e que as nossas brincadeiras são de criança. Pode ser porque tem uma prima que é mais velha ou uma coisa assim. É a Ana que já não quer brincar às barbies.

São assim essas coisas que eu agora me rio quando penso. São quase todas memórias minhas. O bullying, graças a deus eu não fui vítima. O cão eu também não tive um quando era mais nova mas acho linda a amizade entre as crianças e animais de estimação. Por isso mesmo, aquelas que não são minhas, são coisas que eu fui observando durante a vida.

O tema “Todos Gozam” transmite uma mensagem marcada contra o bulying. Achou importante marcar posição nesta matéria?

Sim, até foi mais ideia da minha mãe. A minha mãe é que disse: olha, se vais escrever um disco para crianças devias falar sobre o bullying. Foi ela que me deu a ideia, eu nem tinha pensado na altura. Até porque eu como fui muito buscar as minhas memórias de infância não tinha pensado muito nisso.

Mas de facto, cada vez mais se fala no bullying, e é cada vez mais um problema, porque eu acho que é cada vez mais agressivo e então quando a minha mãe me deu a ideia achei que fazia todo o sentido.

O que motivou a escolha do tema “João” para single do novo disco?

É uma das canções mais orelhudas. Fica mais na cabeça, é uma canção com a qual eu acho que muita gente se pode relacionar, muitas raparigas. É uma canção que mesmo instrumentalmente acaba por ser uma boa amostra do resto do disco.

Às vezes isto não dá muito para explicar, nós ouvimos as canções e pensamos também naquilo que pode passar na rádio. Não é necessariamente a canção que mais gostamos. Por acaso eu gosto muito desta canção. Muitas vezes as canções que nós mais gostamos são aquelas mais complicadas e depois vamos às rádios e ninguém as toca. É necessário um compromisso entre uma canção que nós gostamos e uma canção que nós achamos que também vai passar para chegar às pessoas. A decisão do que é single não é assim tão bonita, é mais racional.

Que expectativas tem em relação à reação do público para um álbum que marca um novo percurso na sua carreira?

Eu acho que o som do meu disco é bastante coerente com aquilo que eu tenho vindo a fazer como Luísa Sobral. Eu acho que na maior parte das canções, se eu tivesse uma letra que não faz lembrar a infância, se calhar nem sequer percebíamos que era um disco para crianças. Eu acho que o público que gosta das minhas músicas vai gostar deste disco. É coerente com a minha música, não se vão sentir defraudados. Também porque o disco é todo em português, e as pessoas que gostam da minha música em Portugal gostam que eu cante em português. Eu acho que até vai ser uma mais valia.

É um disco muito sincero e eu acho que quase toda a gente se pode rever nestas histórias. Quando somos crianças temos as mesmas angústias e a mesma felicidade com pequenas coisas e por isso acho que as pessoas se podem identificar.

Podemos contar com espetáculos ao vivo, ou alguma digressão relacionada com este trabalho?

Sim, vamos fazer. Nós agora temos planeado Lisboa e Porto para fevereiro. Ainda não sabemos as datas exatas mas será em fevereiro. Depois vamos ver… Eu quando fiz este disco nunca pensei muito em tocá-lo ao vivo. Sabia que queria fazer pelo menos dois concertos grandes mas de resto não pensei muito em tocá-lo ao vivo. Sempre pensei que fosse um disco para se ouvir em casa, ou no carro ou em família. E não é porque eu não quisesse, é só porque imaginei-o mais assim. Por isso o que eu gostava era fazer estes dois concertos grandes em fevereiro e depois perceber qual é a reação do público. Se as pessoas querem concertos, se há essa procura. Não queria que fosse uma coisa impingida. A ideia é se eu perceber que há procura, então obviamente que quererei tocar as músicas para as pessoas.

natal

O tema “Natal Mais uma Vez” é agora lançado em disco depois de ter sido single em 2012. Esta é também uma temática que gostaria de abordar em álbum?

Não sei…. Eu nunca gostei muito de canções de natal. Não é canções de Natal em geral, mas eu nunca fui grande fã do disco de Natal. Eu nunca comprei um disco de Natal mesmo que fosse um cantor que eu gostasse. Não gosto muito quando é muitas músicas de Natal juntas, cansa-me um bocadinho. Eu adoro o Natal mas tenho um primo que a partir de outubro já está com discos de Natal no carro e só ouve aquilo. Eu gosto de algumas canções de Natal mas quando é muitas coisa junta já não gosto tanto. Por isso não acredito que vá fazer um disco de Natal, não me parece. Mas gosto de fazer canções de Natal, todos os anos faço uma qualquer e gosto.

Falemos então sobre o seu percurso artístico. Qual foi a importância da sua participação na primeira edição do programa Ídolos?

Eu acho que não foi nenhuma. Para mim quase nenhuma. Não acho que tenha sido algo que tenha mudado a minha vida em nada.  Talvez a única coisa foi que aprendi melhor a dar entrevistas e a falar em público. Mas eu sempre fui muito extrovertida. Acho que o que me deu foi a noção que ainda tinha muito para trabalhar e isso foi bom. Foi a partir daí que decidi ir para o Estados Unidos estudar. Tive a oportunidade de gravar um disco depois do programa e eu escolhi não o fazer. Eu acho que então se calhar isso foi uma das coisas que me deu: a noção que não estava pronta para começar a minha carreira na música. De resto não acho que me tenha dado nada. Acho que sinceramente estes programas não dão nada. Acho que as pessoas vão muito iludidas, e eu cada vez tenho percebido mais que estes programas são feitos completamente para as pessoas que estão a ver em casa e nunca para as pessoas que estão a participar. Nós ouvimos falar muito no vencedor, e na semana a seguir começa outro programa e já ningém quer saber do vencedor no programa anterior. Por isso, acho mesmo que esses programas são muito feitos para as pessoas que estão em casa, para terem audiência e depois eles não querem muito saber do cantor. Só nós pensarmos em todas as pessoas que tiveram nesses programas e conseguiram alguma coisa na música não há ninguém. Por isso acho que esses programas não trazem grande coisa…

Num mercado saturado, e com tantos talent-shows a explorar o universo da música, quais são os ingredientes para um intérprete vingar no meio?

Não sei se há muito espaço para intérpretes em Portugal, isso é que talvez seja o problema. Nós somos um país que não tem muitos compositores, muita gente que componha para outros. Essa é a maior diferença entre nós e os Estados Unidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguém acaba um programa desses de televisão e há logo alguém que possa escrever para essas pessoas. Em Portugal não temos disso, nós temos cantores que escrevem para eles mesmos. Temos alguns compositores que escrevem já com um nível, e que se calhar não vão escrever para uma pessoa que acabou de sair de um programa de televisão. Como por exemplo o Carlos T, o João Monge, são compositores que se calhar não vão escrever para uma pessoa que saia da «Voz de Portugal», por exemplo. Escrevem para pessoas de quem gostem e que lhe peçam porque já têm um nível que lhes permite fazer isso. Por isso os compositores que temos realmente bons que escrevem para outros são poucos e isso faz com que seja muito difícil vingar como intérprete. Há poucas pessoas em Portugal que tenham vingado como intérpretes. Por isso em Portugal as vozes mais conhecidas, temos o exemplo do Rui Veloso, que só escrevia música mas tinha o Carlos T como ele, temos a Sara Tavares, o Jorge Palma… É um país em que é muito difícil viver como intérprete, somos um país pequenino. O meu conselho é: tentem começar a compor. Ou então arranjem alguém que componha mas não é fácil.

No seu canal de Youtube estão presentes vários covers. Faz já 10 meses que o canal se encontra sem atividade. Podemos esperar novas versões de temas já conhecidos para breve?

Não tem atividade porque ando a fazer outras coisas. Por acaso no outro dia pensei fazer uma cover da música nova da Taylor Swift mas não me saiu grande coisa portanto decidi não pôr.

Mas também é porque andei a fazer outras coisas. Andei a preparar este disco e quando ando a fazer outras coisas também não tenho tanto espaço para covers. Mas por acaso estava ontem a pensar nisso, gostava de pegar numa coisa qualquer.

Normalmente também tem a ver com uma música qualquer que sai e me inspira para fazer. Agora também não tem saído nada assim. Saiu agora uma que eu acho muito gira “It’s all about that Bass”, mas já há uma cover muito boa de uma cantora de Jazz e por isso decidi não fazer.

Que projetos tem neste momento entre mãos e que nos pode revelar?

Eu agora ando a preparar uma tournée em janeiro, que vai ser assim a minha primeira tournée europeia grande. Mas continuo a compor para o meu próximo disco e já tenho bastantes coisas. Vou preparando o próximo e também esta tournée, além dos concertos deste disco das crianças, claro.

Deixamos um agradecimento à Catarina Salteiro que proporcionou esta entrevista.

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Estudante de Farmácia, amante das ciências e das artes. Gosto particular por entretenimento em diversas áreas: televisão, cinema, teatro, música.

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