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O Fado é de todos nós

Se me perguntassem há três ou quatro anos o que pensava eu do Fado e da sua ligação à tristeza e ao destino do infortúnio a minha opinião era muito clara: não oiço porque não aprecio. Com o tempo e com o surgimento das novas vozes do Fado a minha opinião mudou.

Carlos do Carmo não é o fadista do momento. Foi e é uma das grandes vozes deste nosso país e tem o talento que ninguém ousa duvidar, mas o Fado cresceu e o fadista agora reconhecido com o Grammy Latino representa-o de uma forma belíssima, tendo sido até um dos responsáveis por seis anos de trabalho para a conquista do título de Património Imaterial da Humanidade, mas este prémio não é só do fadista, é dos portugueses e de todos aqueles que não deixaram morrer esta arte.

Vozes como Carminho, Mariza, Raquel Tavares, Gisela João, Cuca Roseta, Kátia Guerreiro ou Mafalda Arnauth, como amostra desta representação, são o exemplo daquilo em que o Fado se tornou. Não esquecendo nunca a voz de Amália e os poemas que cantava, o Fado tornou-se a “música de todos” que alcança diferentes gerações, sendo o público mais jovem a grande novidade dos “novos” apreciadores desta arte tão portuguesa.

O reconhecimento do Fado pelo mundo mostra-nos que Portugal não ficou esquecido na era dos descobrimentos e do caminho marítimo para a Índia e das suas especiarias, Portugal tem muito para dar ao mundo e o mundo tem muito para aprender com os portugueses. A capacidade de reinventar tornou-se uma especialidade na cultura e arte portuguesa. Somos cada vez mais originais e cada vez menos iguais ao resto do mundo. Não só na música, mas também na literatura, artes plásticas e teatro, os portugueses têm sabido encarar os escassos recursos e têm conseguido criar a verdadeira arte. Gostaria de aproveitar este momento em que celebramos a cultura e os portugueses para destacar a desilusão pelo fim do Teatro Rápido, em maio deste ano. Um projeto que tinha tudo para crescer e ensinar, lá fora e cá dentro, como reinventar o teatro.

O Fado renasceu e não só é para todos como é de todos. A poesia articula-se com as melodias sofridas, que já não pedem só dor e sofrimento, mas, com as novas vozes, dão-nos agora alguma esperança e vontade de acreditar no amanhã. O Fado canta, cada vez mais, o amor, a saudade, a esperança e a alegria do dia de amanhã. O destino do infortúnio perdeu terreno para a arte de cantar o Fado em tom meloso. Se outrora as casas de Fado de Alfama ao Bairro Alto, passando pela Mouraria, enchiam portugueses e turistas de consolo para a alma, hoje o Fado pode ser cantado num grande palco, em jeito de espetáculo, porque hoje o Fado é a arte não só de quem o canta mas também de quem o aprecia.

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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