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Seremos todos Charlie?

Num atentado sem precedentes na história da liberdade de imprensa e da sua expressão no séc. XXI, o mundo assistiu, nos últimos dias, à corrente “Je Suis Charlie”. Mas o que queremos, afinal, mostrar com Charlie? Será que nos movemos por uma causa única ou cada um é Charlie à sua maneira e nos seus moldes?

Os jornalistas mortos na redação do Charlie Hebdo, em Paris, eram devotos praticantes de um humor frívolo cujo objetivo não seria tanto o de divertir, mas antes de informar. Porque o humor também é isso. É talvez um dos mais poderosos instrumentos de informação que temos disponível. Será a velha máxima “a brincar se dizem as verdades” assim tão desleal à realidade? A verdade é que não sabemos rir de nós próprios e o humor de Charlie era exatamente sobre isso, sobre rirmos de nós próprios e, ao mesmo tempo, criticar aquilo que de mais fundamental nos cerca.

Religião, política ou mesmo a sexualidade há muito tempo que deixaram de ser assuntos tabu. Pelo contrário, passaram a concentrar a nossa atenção e são o centro do nosso desconhecimento. E por isso a importância do humor e da sátira é fundamental para que sejamos devidamente informados (e quando escrevo “devidamente” refiro-me à heterogeneidade de abordagens e hipóteses sobre um mesmo assunto). Estou a lembrar-me, por exemplo, do momento da inauguração da estátua a Cristiano Ronaldo, na Madeira. Seria possível num telejornal abordar a proeminência genital da estátua? Pois claro que não. E os mais céticos dir-me-ão: Mas isso é que é a notícia? Com certeza de que não é. Mas a verdade é que foi o assunto mais falado acerca da estátua, assunto que, aliás, deu conhecimento a muita gente da sua existência e da devida homenagem. Ou seja, a missão da “notícia” foi cumprida.

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Mas ao que a Charlie Hebdo diz respeito, pergunto eu, seremos todos Charlie? Espero, sinceramente, que sim! Todos somos Charlie porque todos respeitamos o direito de em democracia cada um poder ser detentor de uma opinião. E as opiniões podem divergir, pode haver discussão, e é bom que haja, e pode mesmo existir discordância. E, felizmente, existem pessoas como o Gustavo Santos capazes de expressar a sua própria opinião e, sem receios, poder defendê-la, mesmo que meio mundo (e talvez mais uns quantos, eu inclusive) não concorde. Mas isso é a liberdade de expressão! O direito de cada um de nós manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos sem que isso seja a prática de um crime para com outros. E o que o que aquelas pessoas que mataram os jornalistas do Charlie fizeram não foi um direito que lhes assistia. Nenhum de nós será, neste momento, capaz de respeitar as convicções daquelas pessoas porque o direito à liberdade termina quando cometemos um crime. E não há maior crime do que o de terminar com a vida de alguém.

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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