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Orpheu: 100 anos depois

“De resto, Orpheu não acabou. Orpheu não pode acabar. Na mitologia dos antigos, que o meu espírito radicalmente pagão se não cansa nunca de recordar, numa reminiscência constelada, há a história de um rio, de cujo nome apenas me entrelembro, que, a certa altura do seu curso, se sumia na areia. Aparentemente morto, ele, porém, mais adiante — milhas para além de onde se sumira — surgia outra vez à superfície, e continuava, com aquático escrúpulo, o seu leve caminho para o mar. Assim quero crer que seja — na pior das contingências — a revista sensacionista Orpheu.”

Assim escreveu Pessoa a Santa-Rita Pintor, o último a desistir de Orpheu, não sabendo a importância que teria para a literatura portuguesa. A 24 de março de 1915 nasce a controversa revista, com o lançamento do seu primeiro número, fruto da coragem da “Geração d’Orpheu”, responsável pela introdução do modernismo nas artes e na literatura em Portugal. Dela faziam parte poetas como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, e pintores como Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor.

O objetivo era “dar uma bofetada no gosto público”, como afirmou Almada Negreiros, mais tarde e recorrendo a uma citação do então revolucionário russo e maior poeta do futurismo Vladimir Maiakovski, para caraterizar o grupo de pensadores e escritores. Apenas com dois números publicados a revista concretizou as razões que levaram à sua origem: agitar as águas, subverter, escandalizar o burguês e pôr todas as convenções sociais em causa, razões que, aliás, conduziam à introdução na corrente de pensamento modernista e futurista num país enterrado nas memórias do passado.

ORPHEU

Essa é aliás a origem do nome “Orpheu”, nome do mítico músico grego que, para salvar a sua mulher Eurydice de Hades, deus dos mortos, teria de a trazer de volta ao mundo dos vivos sem nunca olhar para trás: a metáfora que importava aos pensadores da revista – não olhar para trás, esquecer a memória presa ao passado e concentrar as atenções no caminho futuro e, como disse Negreiros, na “edificação do Portugal do século XX”. A “Geração d’Orpheu” não contribuiu só para a modernização da arte em Portugal mas foi também responsável pela divulgação de alguns dos melhores artistas do mundo.

Sem um número três publicado, houve lugar ainda, em novembro de 1917, para a publicação de Portugal Futurista, a verdadeira percursora de Orpheu, que foi apreendida pela polícia pouco depois de posta à venda, na sequência de uma denúncia da “linguagem despejada” do texto “Saltimbancos”, de Almada Negreiros. Somente doze anos depois a importância de Orpheu passaria a ser reconhecida pela “segunda geração modernista” nas páginas da revista Presença, publicada em Coimbra de 1927 a 1940, que contou com grandes nomes da literatura portuguesa como José Régio, Miguel Torga e Vitorino Nemésio.

A comemorar o centenário, Orpheu ainda vive e assim continuará porque, mais do que uma publicação, representa a constante mudança, a desconstrução literária, a abertura artística e o pensamento do Homem com os olhos postos no futuro.

PESSOA

Comemorações Casa Fernando Pessoa

Para comemorar o centenário da revista que revolucionou a literatura portuguesa, a Casa Fernando Pessoa preparou uma exposição do artista Pedro Proença intitulada de “Os testamentos de Orpheu”, que inaugura esta quarta-feira, dia 25 de março, pelas 19 horas.

Também amanhã poderá acompanhar a conferência “Orpheu – 100 Anos depois. A grande mudança na literatura” conduzida pelo jornalista António Valdemar, pelas 18 horas, na Biblioteca-Museu República e Resistência, em Lisboa.

No sábado, dia 28, a iniciativa “Café Orpheu” recupera o espírito dos pensadores do século XX colocando artistas contemporâneos espalhados por vários estabelecimentos no Chiado: Andresa Soares, Filipe Pinto, Lígia Soares e Miguel Castro Caldas ocupam “A Brasileira”; Miguel Loureiro, Sara Graça e Victor d’Andrade estarão no café “Fábulas”; Sílvia Real, Sérgio Pelágio e Mariana Ramos no café “Vertigo” e Os Possessos no “Kaffeehaus”. No mesmo dia,  terá início um novo programa de visitas temáticas à Casa Fernando Pessoa com o nome “Almada em Pessoa”, inspiradas no retrato de Fernando Pessoa de Almada Negreiros.

A comemorar o centenário nasce também a parceria entre a Casa Fernando Pessoa e o Instituto Camões da Cooperação e da Língua (ICCL), que conduzirá a uma exposição itinerante chamada “Nós, os de Orpheu” que está a circular nacional e internacionalmente na rede do instituto e que inclui documentos originais relacionados com os dois números da revista.

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Se o Jornalismo não se pode considerar uma ciência temos certamente de olhá-lo como uma arte. A arte de saber contar estórias e marcar a história. Estudante de Jornalismo (ESCS-IPL)

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