O concurso público para a construção do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos de Girabolhos foi formalmente lançado esta quarta-feira em Gouveia, numa apresentação em que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) sublinhou o papel determinante daquela infraestrutura no controlo de cheias, na segurança de abastecimento de água e na produção de energia hidroelétrica para a região do Baixo Mondego.
O presidente da APA recordou os episódios de cheia que afectaram o Mondego nas últimas décadas e afirmou que a existência da barragem teria impedido os colapsos ocorridos em 2019 e em 2026.
“Se tivéssemos Girabolhos, eu não tenho qualquer dúvida que o colapso de 2019 e de 2026 não tinha acontecido”
Segundo a agência, o sistema hidráulico do Mondego foi concebido na década de 1970 e incluía, desde a origem, a construção de Girabolhos como peça essencial para reduzir o risco de cheias. Actualmente, a Barragem da Aguieira consegue regular cerca de 46% dos caudais do rio, deixando por regular o troço que provém do rio Seia antes da confluência com o Mondego.
Riscos detectados e limites do sistema
Durante a apresentação foi referido que o sistema foi dimensionado para que, em Coimbra, o caudal não exceda os 2.000 m³/s. Quando esse limite é ultrapassado, alertou a APA, “o sistema deixa de responder do ponto de vista estrutural”. No recente episódio de 2026 os caudais medidos a jusante de Coimbra chegaram aos 2.706 m³/s, valor que superou significativamente a capacidade para a qual o sistema foi planeado, algo que as autoridades classificaram como fonte de grande preocupação.
A APA realçou ainda que durante os episódios de cheia deste ano as equipas viveram momentos de tensão, com um risco elevado de consequências ainda mais graves: “Ninguém dormiu nesses dias. Ficámos a dois dias de uma situação muito mais grave”, disse o responsável.
Benefícios anunciados e impactos locais
Além da função de defesa contra inundações, Girabolhos é descrito como um aproveitamento multimodal: terá impacto na produção hidroelétrica e contribuirá para a segurança do abastecimento público de água e para a garantia de caudais ecológicos. Para os municípios ribeirinhos, incluindo Coimbra, a obra promete reduzir a exposição a cheias extremas e reforçar a resiliência face a eventos hidrológicos extremos.
- Concursos públicos: lançamento oficial em Gouveia.
- Capacidade de regulação actual da Barragem da Aguieira: 46%.
- Limite de projecto para Coimbra: 2.000 m³/s; caudal registado em 2026: 2.706 m³/s.
A concretização do projecto dependerá ainda dos trâmites administrativos e de execução da obra após o concurso. Para os moradores e entidades locais, a promessa de redução do risco de cheias e de maior segurança hídrica será acompanhada com atenção nas fases seguintes de avaliação ambiental, adjudicação e construção.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Regulação actual pela Aguieira | 46% |
| Caudal máximo de projecto para Coimbra | 2.000 m³/s |
| Caudal registado em 2026 (jusante de Coimbra) | 2.706 m³/s |
Os próximos passos passam por acompanhar a tramitação do concurso e as decisões subsequentes que afetarão prazos de execução e custos. Para já, a apresentação oficial e as declarações da APA colocam novamente na agenda pública a discussão sobre a infraestrutura hidráulica do Mondego e as medidas necessárias para proteger populações e bens na região.