O Professor Fernando Seabra Santos, antigo reitor da Universidade de Coimbra e especialista em hidráulica, afirmou que o sistema do Mondego não pode ser tratado como um fenómeno natural isolado e que a sua condição atual resulta de décadas de manutenção insuficiente. As declarações foram prestadas no programa Praça da República da Rádio Regional do Centro, onde se apresentou também o trabalho do grupo de especialistas reunido pela Universidade após as cheias de 2026.
Um sistema “obra de engenharia” com sinais de abandono
Segundo o especialista, o Mondego deixou de ser um «rio natural» há mais de dois séculos, tendo sido progressivamente transformado por intervenções humanas: canalização entre Coimbra e a Figueira da Foz, e a construção de diques e leito central do Baixo Mondego nas décadas mais recentes. Essas intervenções exigem manutenção contínua — algo que, na opinião de Seabra Santos, tem sido deficitário.
“O sistema está, em grande medida, abandonado há mais de 40 anos.”
O professor sublinhou que a responsabilidade formal pela manutenção passou do INAG para a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Não obstante o reconhecimento das competências técnicas existentes, apontou limites nos recursos e na capacidade institucional para gerir um sistema com as exigências do Mondego.
O que o grupo de especialistas analisou
O painel de investigação, constituído por docentes e investigadores — sobretudo das áreas de Engenharia Civil e Matemática —, procurou quantificar e explicar os factos hidrológicos que levaram à crise: como se verificou a chegada ao Açude-Ponte de Coimbra de caudais na ordem dos 2.100 m³/s e por que razão ruiu o dique face a esse afluxo. A equipa utilizou conhecimentos de hidrologia, hidráulica e engenharia fluvial para fundamentar conclusões orientadas para decisores.
- Intervenientes: docentes e investigadores da UC das áreas de Engenharia Civil e Matemática;
- Focos de análise: caudais extremos, estrutura dos diques e manutenção do leito fluvial;
- Contexto histórico: episódios relevantes em 2001, 2016 e 2026 que exigem memória técnica institucional.
Seabra Santos advertiu para um padrão recorrente em que cada evento grave é tratado como um problema novo, sem aproveitamento institucional do conhecimento produzido em ocorrências anteriores. A falta de continuidade administrativa e de mecanismos estáveis de manutenção foi apontada como um dos factores que agravam a vulnerabilidade do sistema.
| Elemento | Referência mencionada |
|---|---|
| Caudal crítico referido | 2.100 m³/s |
| Período de intervenções no rio | ~250 anos de modificações |
| Tempo desde abandono relativo | ~40 anos |
Para a população do distrito de Coimbra e os municípios ribeirinhos, as conclusões científicas têm implicações práticas: exigem que as autoridades competentes disponham de planos e meios técnicos permanentes para manutenção dos diques e do leito, além de decisões de investimento com horizonte prospectivo.
Durante a entrevista, foi ainda referida a proposta de soluções estruturais de maior escala. Entre estas, Fernando Seabra Santos apontou a Barragem de Girabolhos como a única intervenção capaz de devolver, em tempo útil, níveis de segurança aceitáveis ao sistema do Mondego — uma sugestão que implica análise política, financeira e ambiental aprofundada por parte das autoridades locais e nacionais.
O relatório e as recomendações do grupo de especialistas da Universidade de Coimbra devem agora servir de base para o debate técnico e para a definição de medidas que reduzam o risco de novas inundações e protejam populações, infraestruturas e atividades económicas ribeirinhas.