Flanelas e sistemas digitais: realidades paralelas no estacionamento de lazer do Rio
A introdução de um modelo de estacionamento rotativo pago exclusivamente pelo aplicativo Jaé na Lagoa Rodrigo de Freitas convive, na prática, com a persistência da cobrança irregular por flanelinhas em várias áreas de lazer do Rio de Janeiro. Uma reportagem de campo realizada num domingo verificou abordagens presenciais e pedidos de valores muito acima da tarifa formal em pontos do Centro e da Zona Sul.
Nos locais visitados — incluindo Cinelândia, Glória e Urca — foram registados pagamentos solicitados entre R$ 20 e R$ 40 por vaga pública, frequentemente sem talão ou qualquer identificação oficial. A abordagem era, muitas vezes, feita antes mesmo do condutor estacionar, transformando uma simples procura por lugar em situação de desconforto para o utente.
Na Cinelândia, junto à Praça Deodoro, um dos guardadores correu ao lado do veículo da reportagem para indicar uma vaga e exigiu R$ 20. Questionado sobre emissão de talão, respondeu:
“Talão? Aqui a gente não trabalha com talão não. Nem de segunda a sexta.”
No entorno do Memorial a Getúlio Vargas e na Rua do Russel, por volta das 13h30, várias pessoas circulavam entre carros parados no trânsito a oferecer vagas; um dos intervenientes justificou o procedimento dizendo que o pagamento "vai do coração" e que, por ser domingo, não fornecia talão.
O cenário na Urca mostrou outra face: agentes da Secretaria de Ordem Pública (Seop) fiscalizavam a circulação, um reboque municipal percorria o bairro e, em pontos como o acesso à Praia Vermelha, foi indicado que a tarifa era de R$ 2. Ainda assim, nas ruas internas — Ramon Franco, Odílio Bacelar e Urbano Santos — havia guardadores sem uniforme ou identificação levando a práticas não uniformes.
| Local | Observação | Valor pedido |
|---|---|---|
| Cinelândia (Praça Deodoro) | Abordagem antes de estacionar; sem talão | R$ 20 |
| Memorial a Getúlio Vargas / Rua do Russel | Vários flanelinhas atuando no trânsito; sem talão | R$ 20–R$ 40 |
| Urca (acesso à Praia Vermelha) | Fiscalização da Seop presente; tarifa oficial indicada | R$ 2 |
O que isto significa para quem quer aproveitar a cidade
Para quem pretende usufruir das áreas de lazer sem surpresas no bolso, há algumas orientações práticas: conhecer as zonas onde existem modelos digitais de pagamento (como a Lagoa), preferir estacionamentos credenciados quando disponíveis e, sempre que possível, utilizar o aplicativo indicado pela autarquia. A presença de fiscalização varia consoante o local e o horário, pelo que a segurança jurídica do estacionamento nem sempre está garantida.
- Verifique se a área tem sistema digital (ex.: Jaé na Lagoa) antes de aceitar ofertas de terceiros.
- Exija talão ou identificação do prestador do serviço; a ausência é sinal de irregularidade.
- Prefira locais com fiscalização visível ou estacionamento credenciado para evitar cobranças abusivas.
O contraste entre a operação do novo sistema na Lagoa — que funcionou em quase todos os pontos testados — e as práticas informais noutras zonas evidencia um desafio de implementação e fiscalização para a cidade. Para quem organiza a visita, saber onde existe cobertura digital e onde subsistem práticas informais pode reduzir o risco de conflitos e despesas inesperadas.
Além do impacto direto nos bolsos dos motoristas, a persistência de cobranças ilegais afeta a perceção de segurança e ordem nas áreas públicas de lazer, com reflexos no turismo e na mobilidade urbana. A articulação entre tecnologia, fiscalização e políticas de sensibilização aos utentes será determinante para que o pagamento de estacionamento deixe de ser um problema recorrente no circuito de lazer carioca.