Resolução da ONU propõe nova abordagem à cartografia escolar e institucional
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que aconselha a utilização de projecções cartográficas capazes de representar com maior fidelidade as áreas dos continentes, desafiando a predominância histórica da projecção de Mercator. A decisão, aprovada por 164 países, teve apenas os Estados Unidos a votar contra e contou com 6 abstenções, segundo agências internacionais.
A iniciativa não impõe a abolição da projecção de Mercator — desenvolvida no século XVI com fins náuticos — mas recomenda que escolas, organismos públicos e produtores de mapas considerem alternativas que reduzam as distorções de superfície. Uma dessas alternativas apontadas é a projecção Equal Earth, criada em 2018 precisamente para representar de forma mais proporcional as áreas dos territórios.
Porquê esta mudança agora?
A discussão ganhou força porque a forma como os mapas representam o mundo influencia percepções sobre dimensão e importância relativa de regiões e nações. A projecção de Mercator tende a exagerar o tamanho de áreas próximas dos pólos, fazendo com que ilhas como a Gronelândia apareçam visualmente comparáveis a continentes muito maiores — no caso referido pela imprensa, a África é cerca de 14 vezes maior que a Gronelândia na realidade física.
- Impacto educativo: currículos escolares poderão passar a adoptar mapas que transmitam proporções reais entre continentes.
- Dimensão política: países em desenvolvimento, designadamente da União Africana, pressionaram pela mudança alegando que a representação cartográfica também molda influências e narrativas.
- Implicações tecnológicas: plataformas digitais e produtores de cartografia terão de ponderar alternativas para uma representação mais fiel.
Votação e apoios
| Opção | Países |
|---|---|
| A favor | 164 |
| Contra | 1 (Estados Unidos) |
| Abstenções | 6 |
O projecto partiu do Togo e reuniu apoio de países da União Africana, que argumentaram que mapear de forma mais proporcional é também uma questão de justiça simbólica e de representação. O apelo inclui a adaptação do material pedagógico e a alteração de práticas em organismos internacionais e plataformas tecnológicas que costumam difundir mapas de referência.
Para além do debate técnico sobre projecções cartográficas, a decisão da Assembleia Geral da ONU coloca novamente a cartografia no centro de conversas sobre poder simbólico e conhecimento. Embora não imponha medidas legais vinculativas, a resolução funciona como um estímulo às instituições para que revejam as suas escolhas gráficas e pedagógicas, com consequências práticas para editoras, escolas e fornecedores de serviços digitais de mapeamento.
Num mundo cada vez mais sensível à representação e à narrativa geopolítica, a alteração do mapa que ensinamos e vemos diariamente pode não ser apenas uma questão de geometria: é também uma decisão com implicações civis e culturais.