Peça portuguesa-brasileira questiona verdades públicas num formato participativo
No coração do Festival d'Avignon, que decorre este mês em França, a criação Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, da encenadora Christiane Jatahy com os actores e autores Wagner Moura e Lucas Paraizo, coloca o público no papel de juiz. Apresentada entre 11 e 22 de Julho, a peça parte do clássico de Henrik Ibsen e volta a tematizar a tensão entre verdade e interesses económicos, numa adaptação que não se limita a reproduzir o original mas propõe uma continuidade dramática para Thomas Stockmann.
O dispositivo cénico inclui um tribunal popular composto por 11 espectadores sorteados, que sobem ao palco para decidir o desfecho — há dois finais possíveis. A montagem aprofunda questões citadas pelos autores: a erosão da verdade no espaço público, a circulação de fake news, a polarização nas redes sociais e os riscos à democracia quando princípios são instrumentalizados.
- Criação: Christiane Jatahy, Wagner Moura, Lucas Paraizo
- Inspiração: «Um Inimigo do Povo» (Henrik Ibsen, 1882)
- Local e datas: Festival d'Avignon — 11 a 22 de Julho
"A verdade acabou"
Essa frase, citada na apresentação do espectáculo, é emblemática da abordagem: não se trata apenas de um problema artístico, mas de um assunto público. Para Moura e o distrito de Beja, onde iniciativas culturais e cívicas procuram reforçar o debate comunitário, a peça funciona como reflexo e convite à discussão sobre responsabilidade coletiva, transparência e os limites do discurso público.
O formato participativo pode interessar agentes culturais locais — companhias amadoras, agrupamentos de teatro e o público municipal — por mostrar formas de envolver espectadores na construção do sentido dramático. A escolha de levar espectadores ao palco como júri reabre a questão de como a arte pode criar «pequenos espaços de deliberação» na sociedade e testar práticas de participação cívica.
Para além do repto estético, a montagem realça uma dicotomia familiar a comunidades dependentes de actividades económicas localizadas: a proteção da saúde pública e do ambiente perante interesses económicos que sustentam meios de vida. Embora a acção se reporte ao universo ficcional de Ibsen, os dilemas trazidos à cena repercutem-se em decisões locais sobre desenvolvimento, emprego e bem-estar coletivo.
| Elemento | Detalhe |
|---|---|
| Apresentação | Festival d'Avignon |
| Período | 11–22 de Julho |
| Autores / Criadores | Christiane Jatahy; Wagner Moura; Lucas Paraizo |
Para os leitores em Moura, a estreia em Avignon constitui uma oportunidade de acompanhar como a cena contemporânea responde a desafios sociais, e de refletir sobre formas de mobilizar a cultura local para fomentar literacia mediática e participação cívica. Companhias e instituições culturais do concelho podem inspirar-se no modelo para promover debates públicos e projectos que aproximem cidadãos das decisões que os afectam.