Uma obra marcada pelo eclecticismo e pelo desapego
Luísa Costa Gomes figura, desde o início da década de 1980, entre as vozes mais persistentes e multifacetadas da literatura portuguesa. A sua produção atravessa géneros — romances, contos, peças de teatro, guiões, crónicas, libretos e livros infantis — e caracteriza‑se, segundo a autora, por um nítido desapego ao convencional e ao lugar‑comum.
Esse espírito é, aliás, visível na sua intervenção no domínio lírico: o libreto que escreveu para a ópera Relicário Perpétuo integrou as cerimónias oficiais do V centenário do nascimento de Camões e tem nova temporada marcada para setembro, no Teatro Nacional de S. João. A obra evidencia a vontade de trocar uma reverência formal por uma atitude mais inquieta e utilitária perante o património cultural.
Nova edição para público jovem e mudança editorial
O mais recente livro de Luísa Costa Gomes chama‑se Divertimentos e foi publicado pela Tinta‑da‑China, com ilustrações de Jorge Nesbitt. A entrada para o catálogo da editora representa, nas palavras da própria autora, uma escolha também estética — relacionada com a aparência física dos livros — e o culminar de uma relação provisória com outras casas editoriais.
Ao longo da sua carreira, a autora publicou em diversas editoras, entre as quais Bertrand, Difel, Quetzal, Relógio d'Água, Cotovia e Assírio & Alvim. A mudança para a Tinta‑da‑China não foi marcada por rupturas pessoais: manteve uma longa colaboração com a Dom Quixote, nomeadamente com a editora Cecília Andrade, que durou mais de trinta anos. A continuidade dessa amizade editorial é sublinhada como motivo para eventuais transições sem animosidade.
Revisitar o passado sem nostalgia
A antologia recente publicada pela Dom Quixote, Triunfo do triunfo, abre com um conto homónimo escrito cerca de duas décadas antes — datado de 2007 — e mantém uma actualidade inquietante: a banalização das reuniões, a procura de sucesso imediato e as dinâmicas das carreiras emergem como temas ainda pertinentes. A reaparição desse texto ilustra uma prática habitual na obra da autora: revisitar material antigo com um olhar crítico e atento ao presente.
“Olho para muitos dos meus livros como se tivessem sido escritos por outra pessoa”
Essa distância autoavaliativa traduz a recusa de um autor preso à reverência pelo canónico; ao invés, há uma aposta na ousadia e na utilidade da desordem formal, que se reflecte tanto nos textos para o público adulto como nas incursões dirigidas aos mais jovens.
- Géneros praticados: romance, conto, teatro, libreto, crónica, livros infantis.
- Editoras com que colaborou: Bertrand, Difel, Quetzal, Relógio d'Água, Cotovia, Assírio & Alvim, Dom Quixote, Tinta‑da‑China.
- Projectos em cena: libreto de Relicário Perpétuo, reapresentado em setembro no Teatro Nacional de S. João.
Impacto e expectativas
O movimento editorial e a continuidade da sua produção dramatúrgica colocam Luísa Costa Gomes no centro de debates sobre circulação literária, edições e apresentação de obras ao público jovem. A publicação de Divertimentos pela Tinta‑da‑China insere‑a num catálogo que a autora valoriza pela cuidada montagem gráfica, ao mesmo tempo que mantém laços com a antiga editora.
| Editora | Observação |
|---|---|
| Dom Quixote | Publicou colecções recentes como Triunfo do triunfo; colaboração prolongada com Cecília Andrade. |
| Tinta‑da‑China | Editora do mais recente livro Divertimentos, marca a entrada da autora no seu catálogo. |
| Outras editoras | Bertrand, Difel, Quetzal, Relógio d'Água, Cotovia, Assírio & Alvim: publicações ao longo da carreira. |
Ao privilegiar um percurso editorial plural e ao recusar fórmulas canónicas, Luísa Costa Gomes continua a produzir uma obra que desafia expectativas e reclama uma leitura atenta aos lugares‑comuns da sua época. A reexibição do seu libreto e a chegada de um livro novo para leitores mais jovens são sinais de uma obra em permanente reinvenção.