O que é a «terapia dos espaços azuis» e por que importa a Lagos
A expressão terapia dos espaços azuis designa abordagens terapêuticas que utilizam a presença do mar, rios e lagos para melhorar o bem‑estar psicológico. Nos últimos anos a ideia tem ganho reconhecimento internacional, apoiada em estudos e em projectos que utilizam atividades aquáticas — como o surf terapêutico — para apoiar pessoas com trauma, ansiedade ou dependências. Para Lagos, cidade cujo território e economia se articulam com a orla marítima, estas práticas colocam questões sobre como valorizar os recursos naturais para fins de saúde pública e inclusão social.
O conceito atual teve forte impulso com o trabalho do biólogo marinho Wallace J. Nichols, autor de Blue Mind (2014), obra frequentemente citada quando se discute os benefícios neurológicos e psicológicos do contacto com a água. Desde então, o número de iniciativas inspiradas nestas ideias aumentou: em 2022 foram identificadas cerca de 50 iniciativas semelhantes numa conferência e, segundo relatos recentes, já existem mais de 100 projectos desse tipo em funcionamento pelo mundo.
Impactos citados e formas de intervenção
Os efeitos apontados pela chamada «blue mind» incluem a redução de níveis de cortisol (hormona do stress), maior sensação de calma e experiências sociais menos formais que facilitam a partilha e a confiança entre participantes e profissionais. Programas como o da organização norte‑americana Waves of Recovery utilizam o surf como ferramenta terapêutica integrada em circuitos de apoio a pessoas com dependências e problemas de saúde mental.
“Foi ao subir pela primeira vez para uma prancha de surf que voltou a sentir uma sensação de liberdade que julgava perdida.”
Frases como a supra citada, relatadas por fundadores de projectos, ilustram o impacto pessoal destas intervenções. Em termos práticos, as iniciativas combinam atividade física, contacto directo com o ambiente marinho e acompanhamento terapêutico, privilegiando um ambiente menos clínico que pode reduzir o estigma associado à procura de apoio psicológico.
- Benefícios: redução do stress, promoção do bem‑estar, apoio em processos de recuperação.
- Formas: surf terapêutico, banhos frios supervisionados, sessões junto à costa.
- Riscos e limites: necessidade de integração com cuidados clínicos, formação de técnicos e avaliação científica contínua.
O que isto significa para a política local e para a comunidade
Para Lagos, as evidências e experiências externas sugerem oportunidades concretas: integrar programas de «blue‑space therapy» em políticas locais de saúde mental, envolver associações desportivas e culturais da cidade, e articular com serviços de saúde para garantir encaminhamento adequado. A transformação de actividades de lazer em recursos terapêuticos exige planeamento — desde formação de monitores até segurança na água e avaliações de eficácia.
| Referência | Valor citado |
|---|---|
| Publicação Blue Mind | 2014 |
| Iniciativas identificadas em 2022 | ~50 |
| Programas activos hoje (estimativa citada) | >100 |
Os resultados internacionais encetam várias linhas de trabalho que podem ser exploradas em Lagos: parcerias entre ONG, clubes náuticos e serviços de saúde mental do ACES para criar programas piloto; utilização das infra‑estruturas já existentes para actividades supervisionadas; e campanhas de sensibilização para reduzir o estigma da procura de apoio. A conjugação da evidência científica com os recursos naturais locais poderá reforçar tanto a saúde pública como a oferta de actividades comunitárias.
Em suma, a terapia dos espaços azuis coloca Lagos numa posição favorável para promover iniciativas de bem‑estar ligadas ao litoral, desde que essas iniciativas sejam integradas, seguras e acompanhadas por avaliação clínica e social.