Resultados de cinco anos apontam pontos críticos e exigem revisão das práticas de gestão
Uma investigação do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente concluiu que as operações de limpeza realizadas após grandes festivais de música em praias não evitam a acumulação e a dispersão de resíduos. O estudo incidiu sobre três edições do festival RFM SOMNII, na Praia do Relógio, na Figueira da Foz, e baseou‑se em monitorização realizada entre 2019 e 2023.
Ao longo de cinco anos foram efetuadas 17 campanhas de recolha e análise antes e depois dos eventos, durante as quais os investigadores reuniram mais de 26 000 resíduos. Identificou‑se uma forte concentração de lixo nas zonas do palco e da área VIP, locais que funcionam como polos de geração e deposição de resíduos durante os eventos.
Do total recolhido, mais de 90% eram materiais plásticos, incluindo artigos de utilização única e fragmentos de pequeno porte que tornam a identificação e a gestão mais difíceis. Em várias edições os valores medidos ultrapassaram os limites recomendados a nível europeu para qualidade das zonas costeiras, segundo os autores do estudo.
"Conhecer os locais onde o lixo se acumula permite 'antecipar problemas', melhorar a localização dos pontos de recolha, direcionar as equipas de limpeza e realizar intervenções intermédias nas áreas mais críticas durante os eventos."
O estudo relaciona a distribuição dos resíduos ao comportamento dos participantes e a limitações na gestão da limpeza. Nos anos em que o festival não ocorreu (2020 e 2021), devido à pandemia de covid‑19, verificou‑se uma diminuição significativa da quantidade de resíduos e, em particular, dos plásticos descartáveis, reforçando a ligação direta entre a realização do evento e o aumento da poluição local.
Apesar da adoção pontual de materiais reutilizáveis, como copos plásticos reutilizáveis, os investigadores concluíram que isso não é suficiente para evitar o abandono de objetos na praia. Entre as medidas propostas estão o reforço das operações de limpeza, intervenções intermédias durante os eventos e ações dirigidas à organização, como a substituição de descartáveis por sistemas de depósito e retorno e políticas mais rígidas sobre artigos distribuídos no recinto (por exemplo, braçadeiras).
- Reorientar pontos de recolha e equipas de limpeza para zonas de maior acumulação (palco, VIP).
- Implementar soluções de devolução/controlo de embalagens para reduzir descartáveis.
- Adoção de regras de licenciamento mais exigentes pelas autarquias para eventos costeiros.
Os autores salientam que a metodologia desenvolvida e as recomendações podem ser aplicadas noutros festivais, provas desportivas e iniciativas realizadas em zonas costeiras, sugerindo a criação de normas técnicas alinhadas com diretivas europeias para minimizar impactos e proteger ecossistemas litorais.
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Período de estudo | 2019–2023 |
| Campanhas de monitorização | 17 |
| Resíduos recolhidos | >26 000 itens |
| Plásticos no total de resíduos | >90% |
As conclusões exigem uma reflexão integrada entre promotores de eventos, câmaras municipais e autoridades ambientais sobre licenciamento, fiscalização e exigência de medidas preventivas que reduzam a pressão sobre as praias. A investigação apresenta soluções práticas que, se enquadradas em normativos locais e europeus, podem diminuir a presença de lixo nas áreas costeiras e melhorar a eficácia das operações de limpeza.