Investigação revela efeitos duradouros sobre comunidades de peixes
Um estudo da Universidade Federal de Lavras conclui que, mais de dez anos após o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), os sinais do desastre ainda são visíveis na composição da fauna aquática do Rio Doce. A investigação analisou as fontes alimentares de cerca de 65 espécies de peixes e utilizou a técnica de isótopos estáveis para determinar a diversidade de recursos disponíveis para os organismos.
Os resultados indicam que, nas zonas mais próximas à área de derramamento de rejeitos, a oferta de recursos alimentares se encontra reduzida, o que se traduz numa menor diversidade de espécies nativas. Em contrapartida, espécies com hábitos mais generalistas, e espécies estranhas à fauna original, têm conseguido estabelecer-se e competir pelos recursos remanescentes.
"Quanto mais próximo do rompimento, mais simplificada está a comunidade de peixes. São menos recursos disponíveis, o que é típico de um ambiente bastante degradado. Mas, felizmente, à medida que a gente vai afastando da área do rompimento, essas comunidades já começam a se recuperar." — professor Paulo Pompeu, coordenador do estudo.
De acordo com os autores, a presença de peixes não nativos já representa cerca de 25% das espécies registadas nas áreas estudadas, um factor que adiciona pressão competitiva sobre as espécies nativas e complica o processo de recuperação ecológica.
- Redução da diversidade: espécies mais especializadas tendem a desaparecer junto às áreas mais impactadas.
- Expansão de generalistas: peixes com maior capacidade de adaptação prosperam em habitats alterados.
- Espécies não nativas: já representam cerca de 25% das espécies observadas, aumentando a competição por alimento.
| Elemento | Observação |
|---|---|
| Instituição | Universidade Federal de Lavras |
| Espécies analisadas | ~65 |
| Técnica | Isótopos estáveis |
| Não nativas | ~25% das espécies registadas |
Para a população, as implicações práticas residem na alteração da dinâmica dos recursos aquáticos: uma menor diversidade de espécies e a presença crescente de invasoras podem afetar actividades ligadas à pesca local, manutenção da qualidade da água e a recuperação de habitats ribeirinhos. Embora o estudo note sinais de recuperaçã o à medida que se afasta da área do desastre, a persistência de alterações na comunidade de peixes evidencia que os efeitos do rompimento continuam a ser um desafio de gestão ambiental a longo prazo.
O trabalho científico reforça a necessidade de acompanhar a evolução dos ecossistemas atingidos com monitorização contínua, estratégias de controlo de espécies invasoras e medidas específicas de restauro que considerem tanto a composição das comunidades como a disponibilidade de recursos alimentares essenciais.