O distrito de Leiria regista um conjunto crescente de iniciativas que convertem resíduos — desde efluentes pecuários até ao lixo depositado em aterros — em biogás e electricidade. Existem experiências consolidadas e outras em fase de implementação que visam reduzir custos energéticos nas explorações, tratar efluentes e aproveitar matéria orgânica como recurso energético.
Dos biodigestores à central de aterro
Na localidade de Coimbrão, um dos exemplos mais antigos e demonstrativos é o do produtor Uziel Carvalho, que desde os anos 80 foi aperfeiçoando soluções de biodigestão na sua exploração em Aroeira. Hoje opera com dois biodigestores que transformam o gás resultante do tratamento de efluentes pecuários em electricidade, usada na vacaria e na empresa adjacente, a Germiplanta. O processo não elimina todas as necessidades energéticas, mas proporciona uma poupança mensal significativa.
“Para uma pequena exploração como a minha, que tem cerca de 550 animais, dos quais, 250 adultos em ordenha, é muito”,
O produtor refere, igualmente, que a alternativa resultante do tratamento é aproveitada como cama para os animais, reduzindo custos periódicos com material de cama.
Infraestruturas públicas e privadas já a produzir
Além das explorações agrícolas, outras estruturas regionais transformam biogás em energia. No aterro sanitário da Valorlis há mais de duas décadas que o biogás produzido pela decomposição do lixo e pela central de tratamento mecânico e biológico é aproveitado para gerar electricidade. Também as estações de tratamento de águas residuais (ETAR) geridas pela Águas do Centro Litoral (AdCL), nomeadamente as de Coimbrão e Olhavas, em Leiria, integram produção de biogás no seu funcionamento.
- Exploração agrícola em Aroeira (Coimbrão): dois biodigestores em funcionamento, produção eléctrica para uso interno.
- Aterro da Valorlis: utilização de biogás do lixo para geração de electricidade há mais de 20 anos.
- ETAR da AdCL em Coimbrão e Olhavas: aproveitamento de biogás proveniente do tratamento de águas residuais.
Os projectos apresentam benefícios múltiplos: redução de custos energéticos para explorações e instalações, tratamento local de efluentes com menor dependência de terceiros e diminuição da carga orgânica encaminhada para aterro quando os processos são integrados. Contudo, os investimentos iniciais podem ser elevados, especialmente para explorações de dimensão reduzida, como reconhece o produtor que liderou a experiência local.
| Local | Tipo de instalação | Finalidade |
|---|---|---|
| Coimbrão (Aroeira) | Biodigestores na exploração | Produção eléctrica e tratamento de efluentes |
| Valorlis (aterro) | Central de tratamento mecânico/biológico | Produção de electricidade a partir do biogás do aterro |
| Coimbrão e Olhavas (ETAR) | Estações de tratamento de águas residuais | Produção de biogás integrada no tratamento |
Do ponto de vista económico, o titular da exploração estima poupanças mensais na ordem dos 4.500 a 5.000 euros em electricidade, ainda que assinale que é necessário considerar os custos de manutenção e renovação de equipamento e os investimentos acumulados ao longo dos anos. No seu caso, avançou para o projecto com aportes que totalizaram mais de um milhão de euros ao longo do tempo.
A nível ambiental, os processos de biodigestão reduzem a carga poluente dos efluentes e transformam uma parte significativa da matéria orgânica em energia renovável. O produtor sublinha, porém, que apenas uma fração da matéria orgânica é susceptível de tratamento eficiente sem investimentos muito superiores; segundo a sua avaliação, entre 5 a 7% da matéria orgânica requer tratamento específico quando se encontra diluída nos efluentes líquidos.
Para residentes e agentes económicos do distrito, estes exemplos ilustram caminhos possíveis de transição para modelos mais circulares: aproveitamento de recursos locais, redução de custos operacionais e ganhos ambientais. O desenvolvimento futuro dependerá, contudo, da capacidade de financiamento, de apoio técnico e de enquadramento regulatório que tornem viáveis soluções para explorações de menor dimensão e para novas iniciativas públicas e privadas.
Os projectos em curso em Leiria mostram que o aproveitamento energético de resíduos já não é uma experiência marginal e pode assumir papel relevante na matriz energética local, com repercussões práticas no ordenamento de resíduos, na economia das explorações e na redução das emissões associadas ao tratamento convencional.