Risco crescente para ecossistemas únicos do fundo do mar
A mais recente revisão da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) alerta que a mineração em águas profundas pode empurrar para a extinção mais da metade dos caramujos e de outros moluscos que vivem nas fontes hidrotermais. O alerta surge num momento em que vários países estão a alargar planos para extrair minerais do fundo marinho, atraídos pela procura de minerais críticos para a indústria eletrónica e outras indústrias.
As estruturas em torno das fontes hidrotermais acumulam metais como cobre, zinco, ouro e prata. A água que percorre fissuras na crosta terrestre sobe aquecida pelo magma e pode atingir temperaturas superiores a 400°C, precipitando metais quando arrefece rapidamente. É precisamente nesses depósitos que empresas e Estados veem oportunidades de extracção.
Fauna adaptada a condições extremas
As fontes hidrotermais são ilhas de vida num ambiente profundo e escuro. Ao contrário da maioria dos ecossistemas, a produção primária não depende da luz solar, mas de bactérias que transformam substâncias químicas libertadas pelas fontes, como o sulfeto de hidrogénio, em alimento. Essas comunidades abrigam espécies extraordinárias: vermes tubulares que podem ultrapassar 1,8 metro, enxames de camarões de tom esbranquiçado e caranguejos com uma aparência peluda, além de caracóis e outros moluscos intimamente associados às chaminés hidrotermais.
"Lá embaixo, eles usam a Terra como energia"
Essa estranheza e singularidade biológica são também a sua fragilidade. A extracção mineira no fundo do mar pode destruir fisicamente as chaminés e os habitats circundantes, com impactos que se estendem para além do local de extracção, por alterações nos fluxos de partículas e na química local.
Consequências e incógnitas
- Perda potencial de espécies altamente especializadas e endémicas, muitas das quais ainda são pouco conhecidas pela ciência.
- Risco de extinção de populações inteiras de moluscos associados às chaminés hidrotermais.
- Impactos ecológicos de larga escala difíceis de prever, devido às complexas interacções químico-biológicas desses ecossistemas.
A IUCN, como autoridade científica sobre o estatuto das espécies, sublinha que a expansão de planos de mineração coincide com a crescente procura por minerais críticos. Os proponentes da extracção alegam que a mineração terrestre tem custos ambientais elevados, mas os argumentos de viabilidade ambiental para a exploração marinha esbarram na escassez de conhecimento sobre estes ecossistemas e na elevada sensibilidade das espécies que neles vivem.
| Aspecto | Observação |
|---|---|
| Espécies em risco | Mais da metade dos caracóis e outros moluscos dependentes de fontes hidrotermais |
| Minerais de interesse | Cobre, zinco, ouro, prata (acumulados nas chaminés hidrotermais) |
| Temperatura das fontes | Até mais de 400°C |
Para além da biologia, o debate envolve questões de governação internacional dos fundos marinhos e a necessidade de avaliação de impacto ambiental rigorosa e independente. Sem um quadro de precaução robusto e sem estudos que clarifiquem as consequências a médio e longo prazo, a pressão por abrir novas frentes extractivas pode conduzir a perdas irreversíveis de biodiversidade.
O alerta da IUCN reforça a urgência de integrar ciência, precaução e política pública na gestão dos recursos marinhos. A protecção destes ecossistemas raros exige decisões informadas, que ponderem a procura por minerais críticos com a responsabilidade de preservar formas de vida únicas no planeta.