Uma análise recente da consultora imobiliária CBRE revela que as residências estudantis públicas e privadas em Portugal representam uma resposta limitada às necessidades de alojamento dos alunos deslocados e internacionais. De acordo com os dados, as cerca de 28 000 camas existentes cobrem apenas 12% dos estudantes que estudam fora do domicílio.
No ano letivo 2024/2025, o número de estudantes deslocados ascendia a 147 000, aos quais se juntavam 80 000 estudantes internacionais, perfazendo um total de 227 000 jovens que precisaram de encontrar habitação. Do lado da oferta, o mercado especializado contabilizava apenas 27 700 camas em residências públicas e privadas, com a componente pública a representar a maioria, cerca de 55,6%.
“défice estrutural”
A consultora sublinha que, mesmo contabilizando as camas disponibilizadas pelas instituições públicas, a oferta não chega para cobrir as necessidades — faltam mais de 100 000 camas, situação que obriga muitos estudantes a recorrer ao mercado de arrendamento tradicional. Para os residentes e para quem procura estudar fora do concelho de origem, isto traduz-se em maior competição por casas, contratos de curta duração e rendas elevadas em zonas urbanas.
Perspetivas de crescimento e limites à recuperação
A previsão aponta para a criação de apenas 3 000 novas camas em residências privadas até 2027. O Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior prevê aumentar a oferta pública de camas de 15 000 para 26 000 no ano letivo 2026/2027, mas a CBRE alerta que mesmo com estas medidas a oferta continuará longe de satisfazer a procura crescente.
Os efeitos são visíveis em termos de preço. As rendas medianas reportadas situam-se nos €855 mensais em Lisboa e nos €745 no Porto. Embora sejam inferiores às de capitais internacionais como Londres, Dublin ou Milão, representam uma fatia significativa do rendimento disponível: em Lisboa, a renda mediana situa-se em torno de 93% do salário mínimo nacional, que é de €920 brutos por mês.
- Procura total (2024/2025): 227 000 estudantes deslocados e internacionais
- Oferta especializada: ~27 700 camas
- Percentagem coberta: 12%
- Défice estimado: >100 000 camas
- Novas camas previstas (privado até 2027): 3 000
Para residentes do distrito e para quem considera deslocar-se para frequentar o ensino superior, esta realidade tem implicações práticas: a procura por quartos e apartamentos no mercado tradicional tende a aumentar, pressionando preços e exigindo maior rapidez e flexibilidade na procura. Para famílias, a necessidade de planeamento financeiro e de alternativas de alojamento (partilha, residências fora do núcleo académico, casas de familiares) torna-se mais premente.
| Local | Renda mediana (€/mês) |
|---|---|
| Lisboa | 855 |
| Porto | 745 |
O diagnóstico apresentado pela CBRE coloca desafios para políticas públicas e para o setor privado: aumentar a capacidade de camas especializadas, equilibrar preços e reforçar instrumentos de apoio ao alojamento estudantil. No terreno, a escassez afeta diretamente estudantes que chegam de outros concelhos ou países e que, na ausência de alternativas, ficam obrigados a optar por soluções mais caras ou menos estáveis.
Num contexto em que Portugal se posiciona entre os países europeus com menor cobertura de alojamento estudantil, acompanhar o crescimento da procura — impulsionado por fluxos internacionais e pela mobilidade interna — exige intervenção coordenada entre Estado, instituições de ensino e investidores privados.